A nova moeda mundial

O especialista em Terceiro Setor, Takashi Yamauchi, mostra que Responsabilidade não é benemerência e pode reduzir custos para a empresa.

Um movimento diferente se instalou nos últimos anos no meio empresarial, com uma maior discussão do papel das empresas na sociedade, sobretudo nas questões sociais. O termo Responsabilidade Social ganhou espaço na mídia e nas agendas dos grandes empresários. Uma série de projetos e programas sociais desenvolvidos pela iniciativa privada passaram a ser conhecidos do público. Novas terminologias, como terceiro setor, sustentabilidade, balanço social, marketing social, capital social, dentre outros, foram incorporados à linguagem empresarial.

Os propulsores dessa mobilização advém de duas vertentes: conscientização e pressão. O primeiro chegou no rastro da exposição da violência e é o reflexo das desigualdades sociais, que acumulamos ao longo de nossa história. Um dos grandes estudiosos e atuante do Terceiro Setor no Brasil, Takashi Yamauchi, explica que a pressão veio de fora, através de exigências internacionais de comércio, que nos fizeram dar atenção especial às questões sociais. Dessa imposição internacional surgiram leis para defesa das crianças e adolescentes, idosos, negros, pessoas com deficiência, etc. Comercialmente, as regulamentações e normatizações também dão sinais dessa tendência. Ele cita a norma NBR 16001 e a regulamentação CFC 1003/2004, que tratam da exigência do Balanço Social para empresas exportadoras e seus fornecedores até o quarto grau. “Elas são uma constatação de que a Responsabilidade Social caminha no sentido de tornar-se uma barreira não-tarifária, sobretudo ao comércio exterior” – disse.

Cometem-se aí alguns equívocos, o primeiro, na opinião do especialista, é confundir Responsabilidade Social com filantropia. Os termos viabilidade e desenvolvimento estão mais próximos da Responsabilidade Social do que a benemerência, pois trata-se fundamentalmente de uma questão de atitude, de moralizar e tornar mais ético todo o processo produtivo, obtendo com isso ganhos para todos os envolvidos: empresários, funcionários, fornecedores, clientes e comunidade. “Agir de forma socialmente responsável pode permitir às empresas oferecerem melhores serviços, com redução de custos, aumento de competitividade e um retorno social para seus colaboradores e comunidade no entorno” – defende Yamauchi.

Para ele, esse conceito ainda não é compreendido pela maioria das empresas, que muitas vezes encaram essas novas exigências como mais um custo Brasil. “E de fato sem o conhecimento e utilização do Terceiro Setor, como ferramenta nesse processo, as novas regras tornam-se um custo a mais para a empresa” – disse. Um exemplo disso é que as empresas ao longo dos anos, passaram a gerenciar programas sociais para a comunidade, campanhas preventivas e educativas, etc. Todo esse investimento em filantropia é um custo que vem sendo arcado pela empresa e que se fosse desenvolvido em parceria com o Terceiro Setor teria o benefício da renúncia fiscal.

PONTOS DE VISTA

Balanço social
Com a obrigatoriedade do Balanço Social, novos equívocos são cometidos. Os resultados e ações são apresentados em publicações, com fotos e informações sobre as atuações, para a demonstração da “Responsabilidade Social”. Muitas vezes esse material recebe o título de “Balanço Social”. Yamauchi diz, no entanto, que o Balanço Social é um documento contábil, uma compilação financeira que irá dar visibilidade do investimento social, diante de um determinado faturamento.

Investimento Social
O especialista rebate que investimento social não é fazer projetos com crianças ou idosos, mas investir parte do faturamento em desenvolvimento social, beneficiando o próprio negócio e promovendo a melhoria da qualidade de vida da comunidade, simultaneamente. Ele exemplifica que ao contratar empresas terceirizadas para limpeza, refeição e jardinagem, dentre outras, existe o risco de ser solidário numa eventual sonegação. Além disso, no custo desses serviços estão embutidos os tributos destas atividades. Se o serviço fosse contratado de uma instituição do terceiro setor teria menor custo, em função da isenção e imunidade tributária desta, sem risco de sonegação. O melhor de tudo, além de reduzir custos, esse montante poderia ser lançado no Balanço Social. Mais ainda, nesse processo poderiam estar envolvidos a comunidade e a família dos funcionários, criando condições de sustentabilidade econômica e gerando renda complementar à família.
“A empresa ao adotar o processo, além da redução do custo operacional, ganha um aspecto de interface com a comunidade local e junto com seus fornecedores. Uma linha de atuação com responsabilidade social” – defendeu.

Como analisar o trabalho social de uma empresa
“Quem diz que uma empresa é socialmente responsável não é a própria empresa, mas a comunidade” – afirmou Yamauchi. O primeiro passo para se analisar a Responsabilidade Social é o “aspecto legal”. A organização cumpre a legislação? ”Uma empresa lançou seu Balanço Social e nele dizia que empregava 30 pessoas com deficiência e que a meta para o próximo ano era 36. Pela legislação, o correto seria 150. A empresa estava explicitando que não cumpria a lei e que no próximo ano continuaria a não cumprir” – relata Yamuchi. Obrigação trabalhista não é responsabilidade social, mas sim um dever legal da empresa. Nesse sentido, apenas a empresa que faz além do que é seu dever, pode ser considerada socialmente responsável.

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