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Acabar com pobreza extrema e limitar o aquecimento a 2ºC ainda é possível, diz estudo

POR – DAISY DUNNE, DO CARBON BRIEF / NEO MONDO

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Tirar 770 milhões de pessoas da extrema pobreza, o que é classificado como viver com menos de 1,9 dólar por dia, aumentaria a temperatura terrestre em meros 0,05ºC até 2100, segundo pesquisa. Entretanto para erradicar a pobreza e mover esse grupo social para uma classe média mundial, o que é classificado como receber de US$ 2,97 a US$ 8,44 por dia, aumentaria a temperatura em 0,6ºC a temperatura mundial até 2100. Para acabar com todas as formas de pobreza sem aumentar a temperatura média global, líderes mundiais precisariam aumentar os esforços de mitigação do clima em 27%, relata o autor principal do estudo ao Carbon Brief.

Conflito de desenvolvimento climático
Acabar com a pobreza extrema para “todas as pessoas em todos os lugares” é o primeiro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, um conjunto internacional de metas acordadas para melhorar o padrão de vida global em 2030.

No entanto, pôr fim à pobreza extrema poderia trazer desafios adicionais para cumprir os objetivos a longo prazo do Acordo de Paris, que visa limitar o aumento da temperatura global para “bem abaixo” dos 2ºC.

Isso porque aumentar a qualidade de vida dos mais pobres do mundo significaria o uso de mais recursos do planeta – como alimentos e energia – aumentando emissões de carbono que contribuem para o aquecimento global.

Este paradoxo é conhecido como o “conflito de desenvolvimento climático”, explica o Prof. Klaus Hubacek, pesquisador da Universidade de Maryland e principal autor da nova pesquisa publicada na Nature Communications.

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Em sua pesquisa, ele quantificou o “custo” total, em termos de emissões de carbono, de acabar com a pobreza extrema. Diz ele ao Carbon Brief: “Erradicar a pobreza extrema não compromete o objetivo do clima, mesmo na ausência de políticas climáticas e com as tecnologias atuais”.

Desigualdade de carbono
Para calcular o custo da erradicação da pobreza extrema, os pesquisadores primeiro se concentraram em estimar as pegadas de carbono das pessoas mais pobres e mais ricas do mundo.

Para cada pegada de carbono, os pesquisadores consideraram as emissões diretas de carbono – do consumo de alimentos, aquecimento e resfriamento de lares e uso de transporte – e emissões indiretas de carbono – da produção de bens domésticos e serviços. Em seguida, combinaram esses dados de despesas com a base de dados de consumo do Banco Mundial.

A comida constitui a maior proporção da pegada de carbono daqueles que vivem em extrema pobreza, explica Hubacek: “A pegada de carbono relacionada a alimentos é perto de 60% da pegada total para o grupo de extrema pobreza. Em que o principal é composto por comida, abrigo e roupas. Não sobra nada para qualquer outra coisa quando suas despesas são de US$ 1,90 por dia em paridades de poder de compra (PPP)”.

O gráfico abaixo (à esquerda) mostra as respectivas pegadas de carbono dos ricos e pobres do mundo. A coluna da esquerda mostra como a população mundial pode ser dividida em diferentes grupos de renda, incluindo aqueles que vivem com menos de US$ 1,90 por dia (verde); entre US$ 1,90 e US$ 2,97 por dia (azul); entre US$ 2,97 e US$ 8,44 (amarelo); entre US$ 8,44 e US$ 23,03 por dia (roxo); e mais de US$ 23,03 por dia (laranja). A coluna da direita mostra as pegadas de carbono proporcionais de cada um desses grupos de renda.

O gráfico mostra a proporção de emissões globais de carbono de diferentes grupos de renda, que vão desde a pobreza extrema (verde) até os 10% superiores dos ganhadores (laranja). B mostra a pegada de carbono por pessoa para diferentes grupos de renda. Cada pegada é medida em equivalente de dióxido de carbono (CO2e). A linha preta separa as emissões diretas de carbono (parte inferior) e as emissões indiretas de carbono (parte superior). Fonte: Hubacek et al. (2017)

A pesquisa descobriu que, em 2010, os 10% que mais recebem do mundo foram responsáveis por cerca de 36% das emissões globais de carbono para o consumo de bens e serviços (veja a seção laranja em cada coluna).

Em comparação, os extremamente pobres, que representaram 12% da população mundial em 2010, foram responsáveis por apenas 4% das emissões globais (verde).

O segundo gráfico (à direita) mostra a pegada de carbono por pessoa para diferentes grupos de renda. Cada ponto é medido usando CO2e ou o equivalente de dióxido de carbono, que é a unidade padrão para medir pegadas de carbono. A linha preta separa as emissões diretas de carbono (parte inferior) e as emissões indiretas de carbono (parte superior).

A pesquisa mostrou que a pegada de carbono média dos que mais recebem no mundo é próxima a 14 vezes à da média das pessoas que vivem em extrema pobreza.

Custo do carbono para acabar com a pobreza
Para calcular o custo total do carbono da erradicação da pobreza, os pesquisadores estimaram as implicações de carbono de mover a população vivendo em extrema pobreza até o próximo nível de renda (US$ 1,90 a US$2,97 por dia).

Os pesquisadores então tiraram as emissões de carbono adicionais resultantes do levantamento de pessoas da pobreza extrema e as somaram a um cenário de emissões de “linha de base”. Como linha de base, os pesquisadores usaram um cenário de emissões relativamente baixas conhecido como RCP2.6, o que pressupõe que as emissões anuais globais de gases de efeito estufa atingiriam pico em 2020 e cairiam rapidamente depois.

O gráfico abaixo mostra como o custo adicional de carbono para erradicar a pobreza extrema poderia afetar o aquecimento global da superfície até 2100. Um cenário onde a pobreza extrema é erradicada (verde) é comparado ao cenário de linha de base (amarelo). Ambos os cenários assumem que as emissões globais atingem o pico em 2020.
 O gráfico identifica o dia atual até 2030 como uma “janela de oportunidade” para levantar os mais pobres do mundo da pobreza extrema. O ano de 2030 é o prazo final dos SDGs.

O efeito de acabar com a pobreza extrema na temperatura da superfície global até 2100. Um cenário onde a pobreza extrema é erradicada (verde) é comparado a um cenário de linha de base (amarelo). Ambos os cenários assumem que as emissões globais atingem o pico em 2020. O gráfico identifica os dias atuais até 2030 como uma “janela de oportunidade” para levantar os países mais pobres do mundo da pobreza extrema. Fonte: Hubacek et al. (2017)

A pesquisa descobre que levantar as pessoas para tirar as pessoas da pobreza extrema tem um impacto relativamente pequeno nas temperaturas globais, representando aumento de 0,05ºC no aquecimento até 2100.

No entanto, este é apenas o caso se as emissões globais de gases de efeito estufa tiverem picos até 2020 e depois declinarem, explica Hubacek. Se as emissões de carbono continuarem a subir até 2020, acabar com a pobreza, mantendo o aquecimento em 2ºC, será “impossível”, diz ele.

As emissões globais de carbono estão atualmente acompanhando um cenário de altas emissões – RCP8.5.

Pode ser muito tarde para acabar com a pobreza extrema e limitar o aquecimento global a 1,5ºC, que é o objetivo ambicioso do Acordo de Paris, ele acrescenta: “Nós não investigamos o 1.5ºC [limite] explicitamente, mas, como é quase impossível alcançar o objetivo de 1.5ºC, a remoção da pobreza extrema não alteraria significativamente esse desafio”.

Mais ambição/
Algumas instituições de sociais argumentaram que erradicar a pobreza extrema não é suficientemente ambicioso. Em vez disso, os líderes mundiais devem procurar erradicar completamente a pobreza.

Isso significaria mover o mundo mais pobre para o que pode ser considerada a “classe média global”, um grupo de renda que ganha entre US$ 2,97 e US$ 8,44 por dia. Este grupo de renda é a seção amarela do primeiro gráfico neste artigo.

O aumento das pegadas de carbono da migração de todos de grupos de baixa renda para a classe média global causaria um aumento adicional de 0,6ºC de aquecimento até 2100, revela o estudo.

Isso pode ser visto no quadro abaixo. A linha amarela mostra novamente o cenário RCP2.6 da linha de base, e, desta vez, a linha verde mostra o impacto na temperatura média global de erradicar a pobreza inteiramente. Ambos os cenários assumem que as emissões globais atingem o pico em 2020.

O efeito de acabar com todas as formas de pobreza na temperatura global da superfície até 2100. Um cenário onde a pobreza extrema é erradicada (verde) é comparado a um cenário de linha de base (amarelo). Ambos os cenários assumem que as emissões globais atingem o pico em 2020. O gráfico identifica os dias atuais até 2030 como uma “janela de oportunidade” para levantar os países mais pobres do mundo da pobreza extrema. Fonte: Hubacek et al. (2017)

A fim de acabar com a pobreza global sem causar um aquecimento adicional significativo, os líderes globais terão que acelerar os esforços de mitigação climática em 27%, conclui a pesquisa.

Para fazer isso, os países podem precisar adotar tecnologias de emissões negativas em larga escala, explica Hubacek. No entanto, muitas das técnicas de emissão negativas que já foram aclamadas como “tecnologias de salvação” não corresponderam às expectativas. Ele adiciona:  “Até agora, a tecnologia não conseguiu acompanhar as emissões adicionais e nossos cenários exigiriam ainda mais progresso tecnológico em relação ao que teríamos de outra forma”.

Em vez disso, as pessoas que vivem em países mais ricos devem considerar a adoção de “mudanças de estilo de vida e comportamento” para reduzir o tamanho de suas pegadas de carbono, acrescenta, para compensar o custo extra de carbono para acabar com a pobreza.

“Dado que as elites globais são responsáveis por 36% das emissões de carbono atuais, uma discussão sobre distribuição de renda global e estilos de vida intensivos em carbono deve, pelo menos, fazer parte do discurso dos esforços futuros em direção a uma sociedade de baixo carbono”.

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