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Ana Primavesi, 97 primaveras

POR – NEO MONDO e VIRGÍNIA MENDONÇA KNABBEN

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Nascida no Estado da Estíria, Áustria, em 3 de outubro de 1920, Ana Maria Primavesi é conhecida como a “Patrona da Agroecologia Brasileira”, por seu pioneirismo nas práticas de preservação da vida do solo

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O trocadilho é evidente, mas não é que a Primavesi nasceu mesmo na primavera? No sopé andino, aquela menininha loira, de olhos azuis intensos já mostrava a que vinha. Certo dia, provocada por sua tia, em visita aos familiares, escutou: “que vergonha, tão velha e ainda não caminha”. Annemarie,(seu nome de batismo) que engatinhava a toda velocidade pela casa, parou, apoiou-se nos joelhinhos, colocou as mãozinhas na cintura e disse: “acredita que não sei andar?” Levantou-se e saiu andando pela casa, sob os olhares atônitos dos adultos.

Noutra vez, apareceu um primo de seis anos, oito meses mais velho do que ela, com um livro debaixo do braço, todo cheio de si por poder se gabar à prima de que era capaz de ler, coisa que ela, com cinco anos, obviamente não sabia. De fato, a pequena Annemarie não sabia ler. Mas todas as noites sua mãe lia para os filhos “os livros fantasticamente ilustrados” de Ernst Kutzer. Ela sabia que o primo tinha os mesmos livros que ela, então disse a ele que sabia ler sim, e quando o primo deu a ela o livro para testá-la, ela o “leu” com a maior facilidade. Havia memorizado as histórias, inclusive sabendo quando virar cada página.

Ela sempre foi precoce. Histórias como essa permeiam toda a trajetória dessa mulher fantástica que hoje completa 97 anos de vida. Ana Primavesi “fundou” a agroecologia, não intencionalmente, porém seus ensinamentos convergiram para uma forma tão “revolucionária” de se lidar com a natureza que esse nome surgiu para denominar tal prática, tal olhar.

Essa forma “revolucionária”, entretanto, não está ligada ao fato de se fazer algo completamente diferente do que se fazia (considerando o meio natural, e não a prática humana) mas justamente por observar como a natureza funciona e tentar, dentro da prática agrícola, impactar o menos possível o ambiente. Colaborar para que a vida gere mais vida.

Em 2012 na Alemanha quando recebeu o prêmio considerado Nobel de agricultura. Ao seu lado, Mayor Jun e Vandana Shiva, uma das maiores ativistas ambientais do mundo
Em 2012 na Alemanha quando recebeu o prêmio considerado Nobel de agricultura. Ao seu lado, Mayor Jun e Vandana Shiva, uma das maiores ativistas ambientais do mundo

O fato é que o ser humano se apossou, se apropriou da natureza de tal forma que tudo parece estar sob “controle”, literalmente. Com a Primavesi aprendemos que não é assim. “Embora o homem se sinta mais macho quando até sabe dançar valsa  com seu trator no campo, a terra não gosta disso. Máquinas compactam horrivelmente a terra, especialmente quando esta é úmida. O maior problema na América do Norte e no Brasil é a compactação dos solos pelas máquinas”. E assim, sem rodeios, ela defende não o seu ponto de vista, mas a natureza em si.

Certa vez, convidada a visitar um poço de perfuração de petróleo, observou durante um tempo aquele líquido denso sair aos montes, enchendo de orgulho seus expositores. Ao final, ela perguntou: “Muito bem, e agora que vocês tiraram tudo isso, o que vão dar em troca?” E com seus questionamentos, suas explicações simples, ela foi formando uma geração de agroecologistas.

Escrever sua biografia não foi tarefa fácil. Mulher de poucas palavras, pouco se aprofundava nas narrativas. Mas aos poucos as histórias foram surgindo e a Primavesi mãe, esposa, amiga, professora, vizinha, apareceram. Num golpe de muita sorte, descobrimos um diário no qual ela tinha registrado muitos acontecimentos vividos por ela em meio à Segunda Guerra Mundial, quando ainda estava na Universidade de Viena cursando agronomia. Assim ficamos sabendo, por exemplo, que ela e o pai ficaram num campo de concentração, ao final da guerra. Que seu pai foi convidado a liderar um “exército” de aleijados, velhos, doentes, porque era preciso recrutar mais pessoas, mas elas já não existiam, tinham morrido no front. Ele recusou, mesmo correndo o risco de ser fuzilado por desobediência. Soubemos que essa menininha precoce, o xodó do pai, ficou sozinha com a irmã no castelo onde moravam, em pleno período da Segunda Guerra, e que enfrentou russos e ingleses, não demonstrando todo o medo que sentia. “O medo aumenta a coragem do outro”, nos contou.

Também registramos a dor pela perda de Artur, seu grande amor, e de seu filho Arturzinho, num acidente de carro no dia de Natal. Vivendo em Itaí, interior do estado de São Paulo, Primavesi buscou naquela terra o consolo das perdas vividas, recompondo-se junto àquela terra erodida e maltratada, que era a metáfora de si mesma. Cupins por toda parte, conseguiu trazer a água de volta à propriedade, não por obras engenhosas, e sim pela vivificação do solo. Sua propriedade tornou-se local de refúgio para muitos bichos, fugindo das queimadas da cana e da pulverização de venenos realizados ao redor. Ficamos espantados com os relatos de encantadores de cobras e baratas, benzedores, que mostraram a essa cientista renomada que “há muito mais entre o céu e a terra…”

Histórias de Vida e Agroecologia.

Histórias de Primavesi. Árvore mestra, matriz de todos nós.ANA

VÍDEOS DE ANA MARIA PRIMAVESI

“A agricultura convencional é a arte de explorar solos mortos. (…) as pessoas que comem agora estas colheitas, comem plantas doentes e também se tornam doentes. Uma planta deficiente somente pode gerar um homem deficiente e deficiência sempre significa doença. Por isso precisa-se a cada ano mais leitos hospitalares. Doenças antes nunca vistas aparecem, especialmente de vírus, como também nas plantas as pragas e doenças aumentam ano por ano. Em 1970 existiam no Brasil 193 pragas. Atualmente ultrapassa 650. De onde vieram? Bactérias, fungos, vírus e insetos que antes eram pacíficos e até benéficos agora se tornam parasitas. Por que? Porque as plantas são doentes nos solos doentes. E o solo é doente quando perde sua vida, sua porosidade, seu equilíbrio em nutrientes”.(Ana Maria Primavesi)

RAIO X

  • Formada em 1942, ela é grande responsável por diversos avanços no estudo das ciências do solo em geral, especialmente no seu manejo ecológico.

 

  • Foi professora na Universidade Federal de Santa Maria, contribuindo diretamente para a organização do primeiro curso de pós-graduação direcionado à agricultura orgânica.

 

  • Fundou a AAO (Associação da Agricultura Orgânica), uma das primeiras associações de produtores orgânicos do Brasil.

 

  •  Sempre defendeu a substituição de insumos químicos pela aplicação de técnicas como a adubação verde, controle biológico de pragas, entre outras.

 

  • Uma de suas contribuições foi a compreensão do solo como organismo vivo e possuindo diversos níveis de interação com a planta. Segundo ela, as diversas doenças e pragas que cada vez mais aparecem no mundo, tem relação com a agricultura convencional.

 

  • Escreveu diversos livros, sendo o principal deles “Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais”, considerado como referência para quem quer estudar ciências agrárias.

 

  • Ao longo de seus 60 anos de carreira, recebeu diversos prêmios. Recebeu o “One World Award”, da IFOAM (em português “Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica”), em 2012. Também recebeu títulos “Doctor honoris causa” em diversas universidades brasileiras. O Centro Acadêmico de Agroecologia da UFSCar, inaugurado em 2010, leva o seu nome.

 

  • Criou o primeiro filme sobre a vida do/no solo em 1950. Recuperado recentemente, o longa metragem esmiúça a ação dos microrganismos e a importância da matéria orgânica para que haja fertilidade. Tudo depende do solo. O ar, a água, as plantas e os seres, numa teia interdependente. Essa é a versão original.

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