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Artista substitui buracos de rua por arte em mosaico.

Por: Paula Adamo Idoeta (BBC Brasil). Foto: Jim Bachor

Bachor substitui buracos, ‘universalmente odiados’, por coisas ‘universalmente amadas’, como sorvetes.

Quem vê Jim Bachor vestido de colete fluorescente laranja e cimento nas mãos, debruçado sobre os buracos da rua de Chicago (EUA), às vezes confunde-o com os funcionários de manutenção da cidade. Mas Bachor faz mais do que tapar o buraco: ele deixa ali uma arte própria, em mosaico.

A experiência começou há dois anos, quando Bachor notou um grande buraco em uma rua da sua vizinhança.

“Buracos são um problema universal que nunca é solucionado. Colocam asfalto e três meses depois o buraco abre de novo”, diz Bachor à BBC Brasil por telefone. “Aquele buraco em particular me fez pensar: por que não combino algo que tem uma solução tão temporária com algo de caráter tão duradouro como o mosaico?”

O artista americano havia começado a se interessar pelo mosaico alguns anos antes, durante uma viagem à Europa, quando visitou e participou de escavações na antiga cidade romana de Pompeia. Ali foram preservadas diversas obras antigas.

Bachor começou a criar mosaicos próprios como um hobby, enquanto trabalhava no mercado publicitário. Depois de perder o emprego, acabou se dedicando à arte de rua. E preencheu, desde então, 21 buracos, a maioria em Chicago, popularizando as imagens via Facebook (https://www.facebook.com/bachor) e Instagram (http://instagram.com/jimbachor).

Bachor diz que se interessou pelo caráter duradouro do mosaico

Recentemente, foi convidado por uma organização artística da cidade de Jyvaskyla, na Finlândia, para criar mosaicos para o asfalto local.

Ele projeta os mosaicos antes, em casa, e faz a instalação na rua durante uma ou duas horas. Volta depois que o projeto estiver seco, para a limpeza final.

Artista fez um projeto também nas ruas de uma cidade finlandesa

Bachor diz que nunca teve a intenção específica de chamar atenção ao problema dos buracos de rua, que considera “insolúveis”.

“Para mim, é mais uma questão de dar uma alegria inesperada ao dia das pessoas”, conta. “Opor algo universalmente odiado (o buraco) por coisas universalmente amadas, como (mosaicos de) sorvete e flores.”

O mosaico do primeiro buraco, porém, deixou de existir: há cerca de seis meses, a prefeitura de Chicago o cobriu de asfalto, porque a área ao seu redor estava instável.

Outras cidades, outros buracos

Em São Paulo, iniciativa #buraqueira visava pressionar o poder público

Bachor não é o primeiro a levar arte a buracos de rua e, em muitas cidades, o objetivo é tentar despertar a opinião e o poder públicos para o asfalto esburacado.

Em São Paulo, em 2013, grafiteiros convocados pela revista Veja SP participaram do projeto #buraqueira, grafitando imagens e palavras de ordem em buracos de vias da capital paulista.

O artista Mundano, um dos participantes, conta que o objetivo era pressionar o poder público e denunciar quem lucra com a reposição constante de asfalto ruim.

Em março deste ano, uma dona de casa em Descalvado, no interior de São Paulo, ficou tão revoltada com o estado das ruas no seu bairro que fez um vídeo simulando pescar nos buracos. Conseguiu chamar a atenção das autoridades locais, que prometeram agir.

E no Rio, em 2009, ficou famoso o boneco em tamanho humano “João Buracão”, feito de espuma e papel por um morador de Marechal Hermes (zona Norte do Rio) para criticar um buraco perto de onde trabalhava. Ele acabou pressionando o poder público a consertar outros buracos cariocas.

Claudia Ficca e Davide Luciano simularam de natação a batizado no projeto mypotholes

E o problema é, como diz Bachor, universal.

Alguns anos atrás, os fotógrafos Claudia Ficca e Davide Luciano, que moram no Canadá, fizeram uma série de imagens dando usos inusitados para buracos em ruas de cidades como Montreal e Nova York.

Simularam natação, pescaria, plantação de flores e até batizado nas poças e rachaduras para seu projeto fotográfico, que pode ser visto nos sites www.davideluciano.com e www.mypotholes.com.

E na Inglaterra, um morador de Bury, nos arredores de Manchester, passou a grafitar imagens de pênis ao redor de buracos de rua.

“Eles (os buracos) nunca são consertados. Ficam lá por meses”, disse o grafiteiro – que pediu anonimato – em entrevista à BBC Newsbeat, em abril. “Mas se você desenha algo engraçado ao redor dele, todas as pessoas veem e daí ele é denunciado e consertado.”

De fato, muitos dos buracos “ilustrados” acabaram sendo consertados em Bury, ainda que a administração pública local tenha dito que já tinha planos de resolver o problema antes das pichações.

“Isso é vandalismo e é contraproducente. Cada centavo que gastamos limpando a pichação poderia ser gasto no conserto dos buracos”, queixou-se um porta-voz do governo local.

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