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As lições de Atlante na folhinha do autoelétrico.

POR – MÁRCIO THAMOS ESPECIAL PARA NEO MONDO

 

Coisa corriqueira, que a gente prende na porta da geladeira, esquece em qualquer gaveta, ou simplesmente joga fora. Mas o calendário condensa uma sabedoria ancestral e representa um grande avanço nos passos da humanidade, vim pensando enquanto voltava para casa com a bateria do carro tinindo…

O calendário estabelece a organização e, por conseguinte, o domínio do tempo pelo homem – o tempo, essa força abstrata e natural, continuamente em fuga, que deixa as marcas mais concretas em nossa vida. E a vida, que é por princípio movimento, encontra no calendário sua medida. Uma medida que relaciona, a partir de regularidades observáveis, os eventos humanos às revoluções dos astros, convertidos desde então em pontos de referência no céu. O calendário nos põe a todos em sintonia cósmica, regrando nossa atuação telúrica de acordo com a animação celestial. Símbolo do eterno recomeço, ele nos inspira a ideia de uma verdadeira comunhão universal. A astronomia foi sempre filosófica.

O mito de Atlante, ou muito comumente Atlas, é bastante conhecido. O gigante condenado por Júpiter a sustentar nos próprios ombros todo o peso da abóbada celeste foi um grande conhecedor dos mistérios do céu estrelado e, segundo poetas antigos, ensinou aos homens a ciência dos astros e sua regularidade perfeita. O titã atlante é, sem dúvida, e em todos os sentidos, um dos maiores benfeitores da humanidade. Sem a força excepcional de seus músculos seríamos fatalmente esmagados pela queda abissal das altas esferas, e sem a impressionante justeza de seus ensinamentos jamais teríamos a nossa formidável folhinha de todo dia.

Os mais antigos calendários se baseavam nas revoluções da lua. Com suas fases enigmáticas e brilho intenso estampando o céu noturno das cidades de outrora, é natural que ela tenha atraído logo a atenção dos primeiros observadores interessados na constância solene dos corpos siderais. Assim como o espaço entre o nascer e o pôr do sol estabelece naturalmente a duração do dia, a lunação, isto é, o período compreendido entre duas luas novas sugere a noção do mês. Mas o ciclo solar, embora mais difícil de se perceber, não demorou a ser estudado e adotado como referência para o ano, ainda na antiguidade remota. Ao longo de séculos e milênios, sumérios, babilônios, egípcios, helenos e romanos contribuíram para a instituição e o aprimoramento do refinado sistema de marcação do tempo que, com relativamente poucas adaptações, adotamos até hoje.

Uma curiosidade é que os nomes dos meses em nosso calendário vêm do latim. Mas setembro não é o mês sete, outubro não é o mês oito, novembro não é o mês nove e dezembro não é o mês dez… É que, segundo a tradição, no tempo de Rômulo, o calendário latino tinha apenas dez meses, começando o ano em 1º de março. Posteriormente, o rei Numa Pompílio teria acrescentado os meses de janeiro e de fevereiro, fixando para Roma um calendário de doze meses.

Pensando no desenvolvimento humano duramente perseguido pelos estudiosos antigos que nos legaram um conhecimento tão notável – que mal notamos em nosso dia-a-dia –, estou com vontade de mandar fazer uma moldura e pendurar em lugar de destaque na parede da sala a singela folhinha que ganhei no começo do ano.

* Doutor em Estudos Literários. Professor de Língua e Literatura Latinas junto ao Departamento de Lingüística da FCL-UNESP/CAr. Coordenador do Grupo de Pesquisa LINCEU – Visões da Antiguidade Clássica.

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