Cota não é suficiente

Na tentativa de suprir a lei de cotas, instituições investem na capacitação profissional do público ainda despreparado para receber os benefícios.

Após 14 anos de existência, a Lei de Cotas, para inclusão de pessoas portadoras de deficiência (PPD) no mercado de trabalho, ainda encontra resistência para adequação. Sua viabilidade esbarra na desqualificação profissional e na falta de uma abordagem inclusiva nas empresas.

A adoção dessa legislação foi imposta pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e não tem a intenção de fazer caridade, mas sim, promover formas igualitárias e oportunidades para as minorias. De acordo com especialistas, não basta criar vagas para atender a legislação, é preciso gerar oportunidades e vantagens para todos os envolvidos. Essa colocação profissional deve promover ganhos reais para todos os envolvidos: para a pessoa com deficiência, para a empresa, para os colaboradores e para um ambiente profissional mais humanitário.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo IBGE, o Brasil possui 24,5 milhões de pessoas com alguma deficiência, mas somente 9 milhões estão trabalhando, em função da falta de qualificação. Do total, apenas 3,2 milhões freqüentaram escolas, e, somando-se a este agravante, muitos não querem abrir mão da aposentadoria que é cedida pelo Estado, enquanto o deficiente não está empregado, podendo receber este benefício por toda a vida.

Principais di?culdades para a capacitação
Segundo o psicólogo Carlos Alberto M. Jorge, coordenador do Instituto Horizonte Brasil, esta situação é o reflexo da falta de acessibilidade nas cidades, do preconceito e da defasagem de informação, o que dificulta a inclusão dessas pessoas. “Se a pessoa é portadora de deficiência congênita ou se adquiriu durante a infância, há agravantes maiores. O período escolar infantil é o de maior importância para a base do conhecimento e do interesse educacional e social do indivíduo, e influi, portanto, na entrada futura no mercado de trabalho” – completa.

Pouco diferente daqueles que adquiriram a deficiência enquanto crianças, indivíduos adultos, que já tinham vida social ativa e desempenhavam algum trabalho, também necessitam de cuidados quanto à reabilitação e estímulo para retorno à atividade profissional.

Em ambos os casos, o despreparo ou a falta de continuidade dos estudos, os desqualificam para o mercado. Lacuna que vem sendo preenchida por entidades que se especializaram no recrutamento de PPDs, auxiliando, tanto os futuros empregados quanto as empresas a se adaptarem a nova realidade de inclusão obrigatória.

O papel do Terceiro Setor na quali?cação do de?ciente
As entidades do Terceiro Setor têm se mostrado imprescindíveis na recolocação de profissionais com deficiência no mercado profissional. O Instituto Horizonte Brasil (IHB) é uma delas. Por meio do Projeto Banco de Talentos, o Instituto desenvolve um trabalho voltado aos indivíduos socialmente excluídos.

“A legislação obrigou as empresas a enxergarem as PPDs de uma forma diferente e se adequarem a isso, agregando valor perante à sociedade e abrindo portas para novos clientes. Diante disso, nosso trabalho é recolocá-los no mercado por meio de cursos de capacitação pessoal e profissional até a contratação, e auxiliar as empresas quanto à adaptação no local” – destaca Mario Queiroz Andreoli, secretário executivo do IHB.

O Instituto recebe cadastro de interessados no banco de dados do site do IHB (www.institutohorizonte.org.br). Os dados são analisados e passam por um processo de seleção minucioso. “Com o resultado deste processo, podemos encaminhá-lo de maneira adequada para empresa que fez a solicitação das vagas” – relaciona Jorge.

Na empresa
As empresas são avaliadas e adaptadas à recepção das PPDs, passando por três fases de implementação: a análise de cada departamento da empresa e indicação de possíveis cargos, a divulgação aos funcionários sobre os aspectos físicos, psicológicos, sociais e legais das deficiências e por fim, realizar a adaptação da estrutura do local para o acesso ao novo funcionário. Após estas três etapas, inicia-se o processo seletivo para a triagem necessária.

Investindo na inclusão
Cientes do déficit do aprendizado, outras instituições também estão investindo no acesso, inclusão e capacitação do público portador de deficiência. O Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) deu início, em 1999, ao Projeto Estratégico Nacional de “Inclusão de Pessoas com Necessidades Especiais, nos Programas de Educação Profissional”, com ele deficientes físicos, mentais, auditivos, visuais e pessoas com altas habilidades (conhecidas como superdotados) foram encaminhadas aos cursos profissionalizantes da rede, que conta com 84 escolas e 64 unidades escolares móveis. Hoje denominado Projeto Senai de Ações Inclusivas (PSAI), o programa atingiu um atendimento de mais de 5.000 alunos.

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