Educação e desenvolvimento, do indivíduo à coletividade.

POR – MÁRCIO THAMOS

Como conceito amplo, educação é um processo de formação que pretende assegurar o desenvolvimento físico, intelectual e moral do ser humano.

Através de práticas diversas, cada povo procura transmitir às suas futuras gerações tanto o conhecimento do mundo quanto os valores sociais que construiu ao longo de sua história. Nesse processo, evidencia-se a virtude da natureza humana, que se manifesta na vontade e no esforço consciente de alcançar estágios melhores em seu modo de existência. E deve-se reconhecer aí não só a força da razão, mas também “a imperecível necessidade humana de viver em beleza”, enfatizada pelo filósofo Johan Huizinga em seu Homo Ludens.
Educar, no melhor sentido da palavra, significa propiciar as condições necessárias ao pleno desenvolvimento do indivíduo, possibilitando assim a afirmação da personalidade assentada no cultivo consciente do corpo e do espírito.

Na história da humanidade, há um fenômeno educativo absolutamente notável e de fundamental importância ainda hoje para nós: a paideia, que constituiu o ideal de formação do homem na Grécia antiga. O helenista alemão Werner Jaeger analisou profundamente o tema numa obra de investigação histórica, que rapidamente se tornou referência entre os cultores da antiguidade clássica. Sua “Paidéia”, publicada em 1936, é um estudo que procura ressaltar a ação recíproca entre o processo histórico através do qual se chegou à formação do homem grego e o processo espiritual por meio do qual os gregos puderam elaborar seu ideal de humanidade. Segundo o autor, paideia é um conceito que não se traduz facilmente nas línguas modernas. Implicaria expressões como “civilização”, “cultura”, “tradição”, “literatura” ou “educação”, sem, contudo se deixar reduzir a nenhuma delas. Cada um desses termos exprimiria apenas um dos diversos aspectos daquele conceito integral que os gregos entendiam por paideia e, para abranger sua acepção total, seria preciso empregá-los todos de uma vez.

Aulo Gélio, um romano do século II d. C., pensando na educação de seus filhos, escreveu uma coleção de breves ensaios a respeito de assuntos variados. Denominada “Noites Áticas”, essa obra traz inúmeros tópicos versando sobre língua, gramática, filologia, literatura, ciência, história, filosofia, direito e religião, entre outros saberes. Um desses textos (XIII, 17) pretende esclarecer o significado da palavra humanitas (que normalmente traduzimos por “humanidade”). Encontra-se aí um parágrafo que nos ajuda a compreender melhor o termo grego que destacamos.

Os que criaram as palavras latinas e aqueles que as usaram bem não pretendiam que “humanidade” significasse o que popularmente se considera (com esse sentido, os gregos usam filantropia, que quer dizer certa solicitude e boa vontade para com todos os homens, sem distinção), mas pretendiam que “humanidade” significasse mais ou menos aquilo a que os gregos chamam paideia – e ao que nós corretamente chamamos “educação e cultura”. Os que realmente desejam e alcançam tal formação, esses são humanos ao máximo grau possível. Com efeito, entre todos os seres viventes, a guarda e transmissão desse saber foi dada exclusivamente ao homem e, por isso, chamou-se “humanidade”.

Tanto na Grécia quanto na Roma antiga, meninos e meninas recebiam uma educação formal, quer fosse em casa ou em escolas. De um modo geral, a saúde e a vitalidade do corpo e do espírito orientavam a instrução das crianças e dos jovens. A despeito das peculiaridades e limitações que caracterizaram o sistema de ensino em cidades como Atenas ou Roma, tratava-se sempre de uma educação para a coletividade, de uma preocupação com a formação do indivíduo a fim de inseri-lo no contexto social de modo a que pudesse se tornar útil e responsável, fortalecendo ao mesmo tempo sua capacidade de arbítrio, isto é, sua liberdade essencial como ser que se descobre a si próprio na experiência do mundo. Ainda hoje, quando se fala em educação para todos, não pode ser outro o objetivo de qualquer estado democrático.

Embora não se deva exagerar na idealização do antigo mundo grego e romano, o fato é que, como passado modelar da civilização ocidental, mesmo para nós brasileiros, ele continua sendo uma referência inteiramente legítima para refletirmos sobre problemas da atualidade, sobretudo no que diz respeito a questões de caráter fundamentalmente humano. Isso porque, muito do que somos hoje se deve à herança cultural greco-romana que, através da colonização européia, contribuiu para nos formar o espírito.

Não pode haver dúvida de que o bem comum é finalidade primordial da educação. E para que ela alcance seus melhores resultados, gerando desenvolvimento social duradouro, é preciso que o indivíduo que se educa possa reconhecer-se como parte ativa e representativa da coletividade em que se insere. E é só através da educação que os autênticos valores sociais cobram sentido e criam raízes em cada um de nós. É preciso que haja identificação do indivíduo com os valores da comunidade em seus vários níveis: local, regional, nacional e mundial – sem que nenhuma dessas instâncias seja negligenciada. Não sendo assim, qualquer processo de educação se vê prejudicado, pois perde muito de seu fundamento. Por isso, quando boa parte dos jovens brasileiros parece hoje interessar-se mais por costumes dominantes de países estrangeiros do que pela riqueza de sua própria cultura, tem-se um claro indício da crise da educação no país.

O desenvolvimento social que se espera obter através da educação só pode acontecer a partir do desenvolvimento humano de cada membro que compõe a comunidade. É preciso pensar no coletivo, mas não de forma abstrata, compreendendo que esse processo, que é afinal o da conquista de uma cidadania plena, tem em cada indivíduo o seu sujeito.

Uma compreensão menos superficial do processo educativo exige antes de tudo a clara distinção entre verdadeiro conhecimento e mera informação. A aquisição do conhecimento é um ato criativo de descobrimento pessoal e não arquivamento passivo de dados. O conhecimento pressupõe sua apreensão através da reflexão e da vontade; exige uma postura crítica, dialógica, que não prescinde da experiência própria de cada um. A informação pura e simplesmente dada tende a tornar-se objeto de memorização mecânica, ato que, em última instância, conduz à desumanização do indivíduo, uma vez que se assemelha mais ao adestramento do que propriamente ao ensino. O conhecimento não pode ser “dado” ou “transferido” simplesmente, ele tem que ser construído, ele tem que ser, de certo modo, recriado em bases pessoais.

É preciso sempre lembrar, com Paulo Freire, que a educação se faz permanentemente e que não há uma separação entre indivíduos educados e não educados. Existem graus de educação, mas estes não se definem de forma absoluta: ao interagir em sociedade, de um modo ou de outro, estamos todos nos educando mutuamente. Nesse sentido, uma educação ambiental, que hoje tornou-se indispensável, tem a virtude de levar o indivíduo a preocupar-se permanentemente com o coletivo.

* Doutor em Estudos Literários, Professor de Língua e Literatura Latinas junto ao Departamento de Lingüística da FCL-UNESP/CAr e Coordenador do Grupo de Pesquisa LINCEU – Visões da Antiguidade Clássica.

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