educacao-ambiental Educação 

EDUCADORA INCANSÁVEL.

POR – REDAÇÃO NEO MONDO

 

É sabido que vida de professoras e professores não é fácil, ainda mais em países como o Brasil, em que o déficit educacional é ainda expressivo.

O que dizer então de quem se dedica a disseminar conhecimento e práticas ambientais de acordo com os princípios da ecologia integral.

Incansável nessa missão, Ana Mansoldo coordena e ministra cursos e palestras como colaboradora do Centro de Ecologia Integral (CEI), com sede em Belo Horizonte (MG).

Entre seus livros destacam-se Educação ambiental na perspectiva da ecologia integral (autenticaeditora.com.br 2012) e Educação ambiental urbana: reflexão e ação (publicaçãoindependente 2005), além de ser coautora do Manual do Educador Ambiental (2001-2002).

Nesta entrevista concedida por e mail a NEO MONDO, Ana fala de sua proposta de “ampliar a percepção e a consciência ambiental, provocando novas maneiras de ver, sentir, pensar e agir, comprometidas com a transformação da realidade, tendo em vista a preservação, e não o desfalque da Terra para as futuras gerações” a partir do conceito de ecologia integral.

Ana explica: “O termo vem do grego oikos, que quer dizer casa, ou seja, a casa planetária, a Terra com toda a vida ali existente”.

Só é possível assimilar o que seja ecologia integral pela compreensão de suas três dimensões integradas: a ecologia pessoal, a ecologia social e a ecologia da natureza. “Somos todosinterdependentes, o ser humano, a sociedade e a natureza”, define a educadora.

Nesta edição dedicada à “Água esperança de vida”, esta entrevista – que se insere entre as imperdíveis – é mais um presente de NEO MONDO a seus leitores.

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NEO MONDO: Seus livros, sobretudo o mais recente, foram escritos pensando em educadores e educandos, mas não só neles. É isso?

Ana Mansoldo: Considero, como Paulo Freire, que educar é um ato de amor, um encontro entre sujeitos que ensinando aprendem e aprendendo ensinam. Assim, somos todos educadores e aprendizes, sempre.

NEO MONDO: Qual a aceitação que essa literatura tão qualificada e objetiva tem recebido das instituições de ensino brasileiras?

Ana Mansoldo: A educação ambiental institucional normalmente se pauta em datas comemorativas ou em discursos pontuais, tais como “economizar água, reciclar o lixo etc.”. Claro, isso também é importante, mas o enfoque que integra o sujeito, a cultura e a natureza desperta uma nova consciência ambiental e uma visão crítica em relação a toda a vida na Terra. Temos desenvolvido com escolas, empresas e comunidades uma formação em Ecologia Integral com resultados muito bons.

NEO MONDO: O capítulo “A água nossa de toda vida” está praticamente no miolo do livro, como se fosse o cerne, o âmago da questão ambiental. Foi algo pensado em vista da “importância da água, simplesmente vida” com tudo o que isso implica de responsabilidade e compromisso das pessoas?

Ana Mansoldo: Essa colocação do texto não foi assim planejada, mas é interessante a sua visão, pois a água com certeza é o cerne de toda a vida na Terra e hoje, sem dúvida, a transversal de toda preocupação ambiental.

NEO MONDO: No Brasil há obras gigantescas em andamento, que ganham manchetes na mídia (a exemplo da construção das hidrelétricas e da transposição parcial do rio São Francisco), ao lado de iniciativas bem mais modestas, como a de indígenas que visam utilizar água de igarapés em microturbinas. Como a educação ambiental se insere nesse quadro? A solução do macroproblema da água pode vir de empreendimentos menores?

Ana Mansoldo: O problema da água é muito mais complexo, pois não se trata só de empreendimentos, mas de justiça, de considerar o uso social da água. Sabemos que mais de 90% da água doce é consumida na agropecuária e na indústria, enquanto quase 1 bilhão de pessoas no mundo (ONU/2012) carecem do mínimo necessário à sua sobrevivência.

NEO MONDO: A simplicidade me parece constante no livro, como sugere o capítulo que trata da sabedoria da gente do campo ou o que versa sobre a tolerância como ética para a paz. Como se daria isso na prática?

Ana Mansoldo: Na verdade, ser simples nessa sociedade individualista, competitiva e consumista dá trabalho… Pois simplicidade é se importar com o outro e com a vida; é priorizar o necessário para sobreviver e ser feliz; é praticar cotidianamente os valores essenciais de responsabilidade, tolerância, solidariedade, respeito, amor e compaixão.

NEO MONDO: A senhora é otimista, realista ou pessimista com a educação ambiental que se faz no país?

Ana Mansoldo: Para mim a vida só se justifica se houver esperança, do verbo esperançar, estimular, fazer acontecer. E essa é a função do educador: provocar novas maneiras de ver, sentir, pensar e agir para transformação do mundo, e não ser um mero reprodutor da ideologia dominante. Talvez muitas perdas ambientais já sejam irreversíveis, mas sempre é possível encontrar pequenos focos de esperança e coragem.

NEO MONDO: Como e quando surgiu a ideia de se criar o Centro de Ecologia Integral (CEI). Qual o alcance de suas iniciativas e realizações no território brasileiro?

Ana Mansoldo: O CEI foi criado pelo casal Ana Maria Vidigal Ribeiro e José Luiz Ribeiro de Carvalho, em 2001, com base nos princípios da Universidade Internacional da Paz (Unipaz). É uma associação sem fins econômicos, sediada em Belo Horizonte, que tem como principal finalidade trabalhar por uma cultura de paz e pela ecologia integral, apoiando e desenvolvendo ações para a defesa, elevação e manutenção da qualidade de vida do ser humano, da sociedade e da natureza. Nossas atividades são principalmente educativas, seja na educação formal, não formal e informal, tanto em Belo Horizonte como outras cidades de Minas Gerais.

NEO MONDO: O CEI atua em parcerias ou repassa seu know how a instituições públicas ou privadas, nos mais diversos segmentos? Em quais estados isso ocorre? Pode citar exemplos bem-sucedidos dessa atuação?

Ana Mansoldo: As atividades presenciais do CEI são cursos, seminários, palestras, oficinas, caminhadas ecológicas, dentre outras, tanto pagas quanto gratuitas, para o público em geral. Também atendemos demandas para atividades em parceria com instituições públicas ou privadas. Atualmente, nossa grande atuação é o Grupo Consciência e Consumo. Além disso, o CEI publica, desde 2001, a Revista Ecologia Integral, distribuída gratuitamente para vários estados do Brasil, e a partir de 2010, ela passou a ser eletrônica, podendo ser baixada gratuitamente pelo site www.ecologiaintegral.org.br.

NEO MONDO: A senhora se diz encantada com uma expressão que encontrou na internet. Seria a que o cineasta James Cameron (de Avatar) usou em uma de suas visitas ao Brasil, ao sugerir que devemos nos preocupar com que crianças deixaremos para o mundo, e não que mundo elas herdarão de nós? Ou seja, a salvação do planeta está nas novíssimas gerações?

Ana Mansoldo: Não acredito em salvação do planeta, acredito em transformação, em evolução, na capacidade que o ser humano tem de tornar o mundo cada vez melhor, a cada geração. Nessa caminhada valem a experiência do velho e a ousadia do novo, com todos os acertos e erros, mas sempre investigando, corrigindo, transformando.

 

NEO MONDO: Há quem diga – e isso me parece ser o mais correto – que é a civilização, tal e qual a temos, que corre riscos de sumir, e não o planeta, porque a natureza é sábia e se renova, podendo demorar mais ou menos tempo. Qual o papel da educação nessa perspectiva e o que fazer para torná-la mais eficaz no Brasil?

Ana Mansoldo: Também penso assim… Afinal, somos apenas uma das espécies no Planeta e quando significarmos um risco à teia da vida (parece que estamos bem perto disso), a natureza nos colocará no devido lugar e seguirá o seu ciclo. O papel da educação ambiental é nos alertar sobre os efeitos da nossa arrogância, nos achando uma espécie superior, com direito de nos apropriar de todas as outras. Começamos a entender que vivemos numa comunidade planetária, num ecossistema formado de elementos interconectados, interdependentes, organizados em ciclos coerentes, onde milhões de espécies diversificadas (não superiores ou inferiores) executam suas funções específicas, perpetuando a vida.

NEO MONDO: A senhora defende, entre outros aspectos, o choque anticonsumista. Há avanços nesse sentido, em experiências aqui ou acolá, e em que grau isso acontece?

Ana Mansoldo: Somos seres divididos, incompletos, carentes de significado, e a economia capitalista, astutamente, se apropriou de nossa angústia existencial com o canto da sereia, preenchendo nossa falta com coisas descartáveis: drogas, comidas, roupas, diversão. Um canto belo e sedutor, porém destruidor da vida. É um desafio enorme manter uma posição subjetiva na contracorrente, quando a maioria segue a multidão ingênua, acrítica, mas felizmente já existem muitas atuações nesse sentido. O Grupo Consciência e Consumo no CEI, por exemplo, tem tido uma demanda crescente de palestras, oficinas, feiras para públicos diversos, abordando a urgência na mudança dos hábitos de consumo atuais.

NEO MONDO: A seu ver, a reciclagem seria apenas paliativo, e não solução. Por quê?

Ana Mansoldo: Estima-se que menos de 20% dos resíduos produzidos no mundo sejam reciclados, tanto pelo custo muito alto quanto por não serem recicláveis. Reciclagem de verdade é a perpetuação do ciclo da vida, como ensina a natureza: O gafanhoto come a folha, a codorna come o gafanhoto, a raposa come a codorna, o corvo come a raposa que depois devolve os nutrientes à terra, que vai sustentar a folha, que é comida pelo gafanhoto e o ciclo de vida recomeça. Nossas cadeias produtivas, ao contrário, extorquem recursos naturais para além dos seus limites de recarga, e os resíduos gerados nem de longe se prestam novamente ao ciclo da vida.

NEO MONDO: A senhora é também crítica da responsabilidade social. Por que: tudo não passaria de fraude, hipocrisia ou teria apenas efeito anestésico sobre provável sentimento de culpa?

Ana Mansoldo: Absolutamente não critico a responsabilidade social verdadeira e indispensável, mas a demagogia de instituições, empresas, indústrias (não preciso citar exemplos) que se enriquecem com a destruição de patrimônios culturais e naturais, não compartilham seu lucro com a sociedade, ambientalizam seus discursos sem alterar suas práticas e, em contrapartida, repartem algumas migalhas aos mais impactados, posando de “empresas cidadãs”, cheias de “generosidade social”.

NEO MONDO: Seu livro propõe, na primeira parte, refletir sobre conceitos, ideias, aspectos relevantes da questão ambiental; e na segunda, práticas socioambientais.  Fale-nos um pouco mais sobre quais seriam e como tornar efetivas essas práticas. 

Ana Mansoldo: A educação ambiental na perspectiva da ecologia integral propõe a ampliação da percepção ambiental, visando o despertar de uma consciência crítica para transformação do mundo. Esse é o principal objetivo das práticas sugeridas no livro. São exercícios para reflexão e ação no ambiente cotidiano.

NEO MONDO: Um último recado aos leitores de NEO MONDO…

Ana Mansoldo: Gostaria de insistir que a transformação do mundo começa dentro de cada um. As mudanças de atitudes necessárias à construção de um mundo melhor dependem de nossas escolhas, de sermos responsáveis pela nossa subjetividade e pelas nossas relações com a sociedade e com a natureza.

“A água nossa de toda vida”

A preocupação de Ana no livro Educação ambiental na perspectiva da ecologia integral está expressa logo na capa: “Como educar neste mundo em desequilíbrio?”. Desafio que a autora pretende vencer com sua proposta educativa transformadora e consistente.

Exemplo é o capítulo dedicado à água, do qual transcrevemos trechos esclarecedores:

“A afirmação de que toda a vida na Terra provém da água já era feita pelos antigos filósofos, e cada vez mais a ciência tem confirmado este fato: a vida tem origem na água e constitui a matéria predominante em todos os seres vivos. Seu estado líquido encontrado na Terra é o responsável por toda forma de vida que hoje conhecemos. Apesar disso, pouca atenção lhe dedicamos. Já paramos para pensar em quantos milhões de litros de água consumimos durante a vida?”.

Ana enumera a onipresença hídrica em nossas vidas desde “o líquido amniótico, água quentinha e confortável que nos abrigou por tanto tempo no útero materno”. Depois vêm, entre outros, “as toneladas de frutas, raízes e folhas que nos alimentam e que são constituídas de 70% de líquidos”; “todas as células do nosso corpo constituídas de 70% de líquido”; “toda a excreção dos produtos tóxicos de nosso corpo é feita por via hídrica – urina, suor”.

São milhões de litros de água consumidos numa só existência humana, e nem sempre “paramos para pensar” nisso. Estão aí:

  • “a energia elétrica que movimenta nossos aparelhos elétricos e eletrônicos e ilumina nossa casa e nossa cidade, proveniente das usinas hidroelétricas”;
  • “a água utilizada nos processos industriais que constroem nossos veículos, aparelhos domésticos, alimentos, roupas, calçados etc.”;
  • “a água consumida na agricultura que produz nossos alimentos do dia a dia”.

Não podemos ignorar:

  • “o confortável banho diário, o prazeroso banho em mares e cachoeiras, os sucos, refrigerantes… o cafezinho da manhã, aquele copo de água fresquinha”.

Mundo sem água X compromisso

Ante esse quadro, Ana alerta: “… água é igual a vida, ‘não água’ é igual a ‘não vida’, e isso chamou nossa atenção para o futuro que estamos deixando para os nossos filhos, um mundo sem água, um mundo sem vida”.

E, depois do alerta, vem o chamado da educadora “à responsabilidade e ao compromisso individual para:

  • reduzir a produção de lixos e, sobretudo, não jogá-los nas ruas e nos rios;
  • evitar o consumismo e o desperdício (os processos agrícola e industrial utilizam muita água);
  • exigir das autoridades sanitárias o tratamento dos esgotos domésticos e industriais;
  • reduzir o consumo de água e energia elétrica em nossas atividades diárias;
  • conhecer a história dos rios e participar dos projetos de revitalização de bacias hidrográficas”.

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