MAO Ciência e Tecnologia 

Entre o laboratório e a terra.

POR – REDAÇÃO NEO MONDO

 

Há anos cientistas e ambientalista discordam sobre os transgênicos, mas quem tem a razão?

Acompanhando a polêmica entre ambientalistas e cientistas em torno dos produtos transgênicos tem-se a impressão de que esta tecnologia acaba de ser desenvolvida. São tantos mitos e argumentações, aparentemente tão incertos, que parece espantoso dizer que os estudos sobre os organismos geneticamente modificados começaram em 1860. Nessa época, o austríaco Gregor Mendel descobriu a funcionalidade do material genético hereditário, transferido por meio do DNA, observando a descendência do cruzamento entre ervilhas de características diferentes. Foi a partir daí que cientistas de todo o mundo despertaram para a engenharia genética e iniciaram testes principalmente nas áreas da agricultura e saúde. A ponto de, em meados dos anos 80, evitar a morte de milhares de diabéticos.

O tratamento, antes feito a partir da retirada de insulina dos porcos, passou a ser inviável, uma vez que alguns pacientes, submetidos a este tratamento, tinham uma forte rejeição à porcina. Foi então, que uma empresa de biotecnologia clonou o gene humano da insulina e o introduziu em uma bactéria que passou a produzir insulina humana, hoje vendida, em fracos, nas farmácias.

Mas, foi em 1962 que ambientalistas e cientistas se confrontaram. Após a II Guerra Mundial a agricultura passou por um período de expansão na produtividade devido à utilização de fertilizantes químicos. Contudo, para combater os insetos, desenvolveu-se o agrotóxico DDT que passou a ser usado com freqüência, contaminando o meio ambiente. Em forma de denúncia, a escritora e ecologista norte-americana Rachel Carson publicou o livro Primavera Silenciosa, mostrando a preocupação com o ambiente, que até então, era despercebida.

Depois disso, a ciência passou a dedicar-se ao desenvolvimento de um produto que garantisse o plantio e o crescimento, sem o uso exagerado de compostos químicos. Iniciaram-se, então, as primeiras experiências com DNA recombinante na agricultura – inserção de genes de uma espécie em outra. Talvez o homem não imaginasse chegar tão longe. Por isso, paralelo aos estudos, aumentavam os debates calorosos entre a ciência e o meio ambiente, vistos até hoje.

Fim da guerra?

Um dos debates mais recentes tratava sobre a liberação do plantio de dois tipos de milhos transgênicos: resistente ao ataque de pragas (Bt) e a herbicidas (glifonato e glufosinato de amônio). Há meses o Conselho Nacional de Biossegurança – CTNBio mostrava-se favorável à liberação, argumentando que o mesmo oferecia vantagens na competitividade, rendimento e diminuição de agroquímicos, mas os ministérios do Meio Ambiente e da Saúde eram contra, alegando que não há estudos conclusivos sobre os efeitos do transgênico para o meio ambiente e a saúde.

Somente após meses de discussões, no dia 12 de fevereiro, o plantio e a venda das duas espécies foi liberada. Contudo, a guerra não acabou! Ongs, como a internacional Greenpeace, já iniciaram campanhas para alertar a população sobre supostos riscos dessas culturas, além de cobrar das autoridades e empresas o uso dos rótulos que identifiquem os produtos fabricados no país, com 1% ou mais de matéria-prima transgênica (Lei 8.079/90).

De um lado os ambientalistas…

Segundo a coordenadora da campanha de Engenharia Genética do Greenpeace Brasil, Gabriela Vuolo, os ministros do Conselho cometeram um erro ao ignorarem documentos importantes que apontam dados sobre estudos de contaminação genética, evidências científicas sobre o risco à saúde e ao meio ambiente e relatórios de governos europeus, justificando o motivo da proibição dessas variedades nos respectivos países, que colocam em dúvida a segurança desses milhos. “Alguns países europeus, como o Reino Unido, proibiram nos últimos meses a comercialização desses produtos justamente por conta dos problemas apontados por essa documentação” – destaca.

Para ela, o grande problema é que nada é conclusivo. Mesmo que a técnica seja testada em laboratórios, ainda não houve tempo para perceber reações no ser humano, uma vez que, alguns sintomas de doenças, por exemplo, fi cam encubados no organismo e demoram anos para se manifestar.

Além da saúde, outro entrave apresentado é o fato do transgênico poder crescer, multiplicar-se, sofrer modificações e interagir com toda a biodiversidade. “Na plantação, fora dos laboratórios, os cientistas não sabem onde vai dar. Uma plantação geneticamente modificada pode transferir suas propriedades híbridas para outras espécies e plantações orgânicas vizinhas, no período de polinização das plantas. Isso pode resultar na criação natural de uma planta desconhecida e imprevisível” – diz a coordenadora.

O Greenpeace ainda aponta outro problema, a utilização desses vegetais com resistência a herbicidas pode causar o aparecimento de “super pragas”, causando o desequilíbrio ecológico e a contaminação do solo e do lençol freático, devido ao uso intensificado de agrotóxicos. “Enquanto não houver respostas a todas as perguntas não se deveria plantar” – afirma Gabriela Vuolo.

Do outro, os cientistas.

Para a engenheira agrônoma e diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia, Alda Lerayer, a forma com que o transgênico é apresentado à sociedade é equivocada. “A tecnologia trabalha em prol da sociedade e do meio ambiente, ao passo que houve redução no uso de agrotóxicos. Agricultores que antes faziam vinte aplicações, hoje fazem nove e ainda economizam água, utilizada para diluir o produto, reduzem o uso de máquinas e combustíveis e aumentam a sua produtividade” – ressalta.

De acordo com a engenheira, muitos agricultores de pequeno porte puderam ter maior lucro após optarem pelo transgênico, uma vez que, mesmo pagando royalties, (compensação financeira de determinada tecnologia, prevista pela Lei 9.279/96) o custo para eles é menor. “Exemplo disso é o que tem acontecido em Catuti – MG, produtora de algodão transgênico, onde colhia-se cerca de 30 arrobas por hectare – o restante se perdia por causa das pragas ou má aplicação de herbicidas – hoje são aproximadamente 180 arrobas por hectare” – destaca.

Contudo, Alda enfatiza que é preciso ter cuidados com o plantio para que a plantação de transgênicos não se espalhe. “Nossos antepassados já sabiam que para manter uma área é só isolá-la. Para que os ventos não levem o pólen, o agricultor só precisa deixar o plantio com pelo menos 50 metros de distância da outra cultura. Se mesmo assim tiver receio, basta alternar o período de plantio das espécies, dando um espaço de tempo de trinta dias entre as semeaduras” – alerta.

O Brasil

O fato é que, atualmente, o Brasil é o terceiro país do mundo em área de lavouras geneticamente modificadas. Segundo dados do relatório do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrotecnologia – ISAAA, o plantio de soja e algodão transgênico ocupa cerca de 15 milhões de hectares e só fica atrás da Argentina, com 19,1 milhões, e dos Estados Unidos, com 57,7 milhões.

Agora só o tempo para dizer quem estava com a razão: cientistas ou ambientalistas?

Função do transgênico mais comuns
Resistência a inseto – plantas que recebem genes resistentes ao ataque de insetos
específicos. Como é o caso das chamadas Bt que, ao ser ingerida por uma lagarta, provoca sua morte;
Tolerância (resistência) a herbicidas – plantas com gene chamado EPSPS que resiste às substâncias químicas usadas para matar ervas daninhas, sendo possível fazer uma aplicação mais eficaz do herbicida, sem a necessidade de aplicar grande quantidade;
Melhoramento nutricional – plantas que têm valor nutricional expandido;

Fontes: Conselho de Informações sobre Biotecnologia e Greenpeace Brasil.

Posts Relacionados

Deixe um Comentário