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Gigante e frágil, peixe-boi-marinho é monitorado com tecnologia brasileira inédita

POR – CENTRAL PRESS

FOTOS –  Edson Acioli e Genilson dos Santos.

Iniciativa busca a conservação da espécie ameaçada de extinção, com apenas cerca de mil indivíduos em todo o litoral do Nordeste.

Imponente e dócil, o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) pode chegar a 600 quilos e quatro metros de comprimento. Apesar de ser considerado um mamífero aquático de grande porte, seu status atual revela uma dose de fragilidade, pois atualmente está classificado como vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). O projeto “Desenvolvimento e difusão de tecnologia inovadora aplicada ao monitoramento satelital e conservação dos peixes­-bois marinhos (Trichechus manatus) no Brasil”, realizado no litoral do Nordeste, com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, tem o objetivo de monitorar esses animais para, a partir disso, elaborar novas iniciativas de conservação da espécie.

O trabalho desenvolvido pela Fundação Mamíferos Aquáticos teve início em fevereiro de 2016. O primeiro passo foi a parceria com uma empresa brasileira de tecnologia, a Nortronic, que fabrica todo o aparato utilizado para monitorar os peixes-boi via satélite. “Os primeiros protótipos fabricados inauguraram um novo ciclo, pois é a primeira vez que estes equipamentos foram fabricados no Brasil. Inicialmente essa tecnologia foi desenvolvida especificamente para a espécie e, futuramente, poderá ser aplicada em outras atividades ambientais semelhantes”, destaca João Carlos Gomes Borges, veterinário e responsável pelo projeto.        

O monitoramento dos peixes-boi-marinhos vai fornecer informações importantes sobre o animal, orientando medidas de conservação. “Com esse acompanhamento, estamos conhecendo melhor a ecologia dessa espécie, quais áreas os animais estão utilizando, como se alimentam, se os peixes-boi se relacionam entre si e outros dados”, comenta o veterinário.     

Borges explica que se durante o monitoramento for constatada alguma alteração clínica no mamífero, ele é conduzido para o tratamento necessário. “Nestas ocasiões realizamos a captura dos animais e os submetemos à avaliação clínica, sendo posteriormente definido o tipo de tratamento terapêutico que será instituído”. 

O peixe-boi-marinho habita o litoral Nordeste e Norte do Brasil, de Alagoas ao Amapá. “O último levantamento indicou que havia cerca de mil animais no litoral Nordestino, um número muito restrito, especialmente considerando que em alguns pontos a espécie já desapareceu”, relata Borges.

Os indivíduos da espécie se caracterizam por ficarem sozinhos ou em grupos pequenos. Sua expectativa de vida é de aproximadamente 50-60 anos. O veterinário comenta que esses animais têm baixa taxa de reprodução, sendo comum que cada fêmea tenha um filhote a cada três anos, o que contribui para colocar a espécie em perigo de extinção.

A atividade humana é o principal fator de ameaça de extinção para esse mamífero, que não tem predadores naturais. “O peixe-boi é manso e, muitas vezes, interage com pessoas que o machucam para afugentá-lo”, aponta o veterinário. Ele também relata que, embora não sejam alvo de caça, é comum que sejam capturados acidentalmente em redes de pesca lançadas em locais inapropriados. O atropelamento por embarcações é outro risco, visto que os animais tendem a ficar próximos de áreas costeiras.

Emerson Antônio de Oliveira, coordenador de Ciência e Informação da Fundação Grupo Boticário, reforça que projetos de monitoramento são essenciais para a proteção e futura mudança de status de conservação da espécie, ou seja, para que ela deixe de ser ameaçada de extinção.

“A Fundação já apoiou outros projetos de reintrodução de peixes-boi ao seu habitat e buscamos dar continuidade a isso, para obter resultados em grande escala”, comenta Oliveira. O coordenador explica ainda a importância desses animais para a teia alimentar. “Ecologicamente, eles são fundamentais, uma vez que se alimentam de algas marinhas, evitando que elas fiquem acumuladas em regiões da costa, o que poderia dificultar a vida de outros animais que dividem esse habitat”, conclui.

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Conhecimento compartilhado para beneficiar espécie

Borges explica que o projeto também serve como base para ações de conservação. Um exemplo disso são as campanhas de conscientização que vêm sendo realizadas em escolas, portos e empreendimentos locais. “Também tentamos atingir os turistas, divulgando o projeto e falando sobre os problemas causados pelo ser humano e que prejudicam a espécie”, explica.

O veterinário relata a intenção de compartilhar os dados obtidos com gestores de áreas protegidas. “Alguns peixes-boi-marinhos estão em unidades de conservação ambiental e, com esse monitoramento, podemos mapear exatamente quais são as localidades onde a espécie ocorre e entrar em contato com os responsáveis por essas unidades. Assim, eles também podem desenvolver medidas de conservação”.

 

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