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Guia ilustrado reúne serpentes do cerrado brasileiro

Por: Aline Naoe, do USP Online –  Agência USP de notícias

Foto: Cristiano de Campos Nogueira

 

Desinteressante, monótono, com fauna pobre e homogênea. Essa era visão sobre o Cerrado brasileiro até pouco tempo atrás. “Infelizmente, estamos conhecendo esse bioma à medida em que o destruímos. A ciência está chegando atrasada”, lamenta o biólogo Cristiano de Campos Nogueira. Pesquisador da área de ecologia no Instituto de Biociências (IB) da USP, Nogueira é um dos organizadores do livro Serpentes do Cerrado – Guia Ilustrado (Holos Editora), iniciativa que registra em imagens todas as cobras identificadas até hoje na ‘savana brasileira’.

“Precisamos fazer isso agora. Alguns lugares onde recolhemos amostras já estão devastados e é difícil resgatar informação sobre a fauna de áreas assim”, afirma. O guia foi produzido com os colegas Otavio Augusto Vuolo Marques, do Instituto Butantan; André Eterovic, da Universidade Federal do ABC; e Ivan Sazima, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e dá sequência à série que já retratou as serpentes do Pantanal e da Mata Atlântica.

Foram reunidas 185 fotografias de 135 serpentes, muitas delas difíceis de serem encontradas e algumas até mesmo na lista de espécies ameaçadas de extinção. É o caso da Philodryas livida, popularmente conhecida como corre-campo. Registrada pelo próprio pesquisador no Parque Nacional das Emas, em Goiás, o animal vive em área de campo, onde não há água, apenas gramíneas. “Essas áreas são as primeiras a desaparecer com a agricultura mecanizada. Para produção de milho e soja, por exemplo, procura-se essas chapadas porque são áreas planas, altas e fáceis de operar as máquinas”, explica.

Nogueira conta que em um mês em campo se veem em geral de cinco a dez bichos. “Com muito trabalho e sorte, você vê vinte”. O guia, assim, é resultado de um trabalho de longo prazo. As imagens são acompanhadas de ícones que ajudam a descrever as principais características dos animais, como hábitos, tamanho do corpo e da cauda, dentição, estratégias de defesa e reprodução.

Identificação
A iniciativa não é estritamente científica ou taxonômica: a intenção também é orientar pessoas que encontrem esses bichos na natureza, para que consigam identificá-los. “Nos trabalhos de campo eu percebia que as pessoas sabiam muito pouco sobre cobras. Mesmo quem mora na região, que vive no meio do mato, pesca, colhe frutas, há um desconhecimento muito grande, um preconceito”, explica Nogueira. Como não sabem diferenciar serpentes venenosas das demais, a população acaba matando todos os animais, até mesmo alguns lagartos que, por não terem patas, são confundidos com cobras.

“Precisamos conhecer o Brasil. A diversidade biológica é muito grande e só estamos conhecendo à medida que estamos perdendo, é uma corrida contra o tempo”, afirma o biólogo. “Temos que fazer a população conhecer isso antes que desapareça”.

Segundo Cristiano Nogueira, uma característica das serpentes e também de outros bichos do Cerrado brasileiro é a adaptação para viverem em tocas e galerias. Como a flutuação da temperatura durante o dia é alta, os animais ficam expostos a frio e calor – já viver nas cavidades é como estar sob um ar condicionado, com temperatura estável. Outra constatação relevante é a importância do fogo para a região. “O fogo ocorre naturalmente no Cerrado, faz parte do ambiente, o problema é quando há ação humana”, explica.

O pesquisador conta que, inicialmente, não se sabia nem mesmo onde procurar os bichos. E foi por acaso que descobriu-se que justamente nas áreas queimadas era mais fácil encontrá-los. “É uma fauna muito diferente do ponto de vista ecológico, muito rica e complexa, não tem nada de homogêneo. Estamos apenas começando a conhecer e é uma descoberta atrás da outra”.

A publicação do livro Serpentes do Cerrado contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da organização WWF-Brasil. A obra foi lançada no último dia 7 de abril, em um evento no Instituto Butantan, em São Paulo.

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