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Modelo de produção X Recursos Naturais

Modelo de produção X Recursos Naturais

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Seção: Editorias - Categoria: Artigos
Escrito por João Carlos Mucciacito * Sex, 24 de Julho de 2009 17:14

O modelo de produção utilizado no século XX baseou-se em algumas premissas e percepções; uma das mais importantes residia na crença que o planeta Terra teria capacidade ilimitada. Partiu-se do pressuposto que o planeta seria fonte inesgotável de matérias-primas e que poderia receber e assimilar resíduos indefinidamente. Também se considerou que a geração de poluentes seria inevitável, não sendo possível produzir bens e serviços sem o lançamento de resíduos, efluentes e emissões atmosféricas. Além disso, imaginou-se que a tecnologia poderia resolver todos os problemas que eventualmente surgissem com a aplicação desse modelo.

Anteriormente aos anos 70 não havia qualquer tipo de controle ambiental, e os poluentes gerados pelas empresas eram descartados no ambiente sem maiores preocupações. Os primeiros órgãos de controle da poluição foram estruturados no início dessa década, as legislações ambientais foram organizadas, e foram iniciadas as atividades de monitoramento da qualidade ambiental, o licenciamento e a fiscalização das indústrias.

A preocupação com a preservação do meio ambiente levou ao desenvolvimento e à implantação de unidades de tratamento de poluentes – emissões atmosféricas, efluentes líquidos e resíduos sólidos – com o objetivo de reduzi-los ao final do processo industrial e antes de seu descarte no ambiente. Tais unidades são hoje conhecidas como sistemas de fim-de-tubo (end of pipe), pois tratam os poluentes que saem pelas tubulações de esgotos e chaminés. Pode-se dizer que fazem parte do paradigma tradicional de controle da poluição, que busca proteger o meio ambiente pela redução do aporte de dejetos obtida nesses sistemas.

Esse modelo de desenvolvimento foi concebido como um sistema aberto que em uma extremidade – input – entram insumos, como matérias primas, água e energia, e da outra extremidade – output – saem produtos, bens, serviços e rejeitos. Os produtos são levados ao mercado consumidor e os rejeitos são tratados em sistema fim-de-tubo e, em seguida, dispostos no meio ambiente. Um sistema aberto como esse só pode funcionar indefinidamente se não houver limitações nas entradas e saídas e/ou se a produção for estacionária.

O impacto desse modelo na natureza tem sido extraordinário. Sabemos que, atualmente, cerca de metade dos rios do mundo estão seriamente degradados ou contaminados. Em meados da década de 90, oitenta países, correspondendo a cerca de 40% da população mundial, já sofriam graves restrições no abastecimento de água.

Atualmente, mais de 1 bilhão de pessoas não tem acesso a água potável segura e 2,4 bilhões não tem saneamento básico adequado. Estima-se cerca de 4 bilhões de casos de diarréia ao ano decorrente de doenças transmitidas por água contaminada, que ocasionam 2,2 milhões de mortes ao ano, principalmente de crianças desnutridas; esse número de óbitos corresponde ao de um acidente por dia de 20 aviões Jumbo.

As concentrações de CO2 na atmosfera são atualmente 30% mais elevadas que no século XVI. Outros gases, como metano e halocarbonos, que também causam o chamado efeito estufa, tiveram suas emissões significativamente aumentadas na década de 90. Em setembro de 2002, o “buraco” na camada de ozônio sobre a Antártida era superior a 287 bilhões de quilômetros quadrados.

Estima-se que 2 bilhões de hectares de solo estão degradados devido à atividade humana – área maior que os Estados Unidos e o México juntos, e que muitas espécies estão ameaçadas de extinção devido à degradação de habitats e outras causas. Cerca de 150 mil quilômetros quadrados de corais estão com risco de degradação entre médio e alto, e esse problema pode ser agravado pela mudança do clima e pela elevação de temperatura dos mares.

Sempre que afetamos significativamente o meio ambiente, influímos no local onde vivemos e no suprimento de nossas matérias-primas. Assim, a contaminação e a escassez da água afetam o abastecimento público e industrial e a irrigação, e prejudicam a saúde pública. A produção agrícola pode ser reduzida pela erosão do solo, por chuvas ácidas, alterações ecológicas nos ecossistemas terrestres e biodiversidade de insetos polinizadores. A indústria do turismo é afetada pela poluição das praias e pela perda da paisagem, entre outros exemplos.

Limites do modelo

Na verdade, o planeta é um sistema fechado, limitado e esgotável, que não pode sustentar indefinidamente o crescimento da sociedade humana consumindo bens e serviços produzidos em sistemas abertos. O ser humano já se apropria de quantidade significativa de água que circula no planeta e a mudança do clima nada mais é que o desbalanceamento do ciclo biogeoquímico do carbono e a demonstração que a espécie humana pode interferir nos mecanismos de funcionamento da Terra.

“A capacidade produtiva do planeta está em declínio”, alerta o relatório elaborado pela organização não governamental Instituto de Recursos Mundiais (World Resources Institute – WRI), pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA e pelo Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (World Business Council for Sustainable Development – WBCSD).

Considerando que a população mundial cresce e os padrões de consumo são alterados, é cada vez maior a necessidade de produção para atender as necessidades da humanidade. Isso significa extrair grandes quantidades de recursos naturais e despejar igualmente grandes volumes de dejetos. Dentro desse quadro, para que a qualidade do meio ambiente seja preservada, os padrões de emissão serão cada vez mais restritivos.

Ou seja, para manter a qualidade ambiental, quando o volume de poluentes aumenta e a capacidade de assimilação diminui, é inevitável restringir os limites de emissão de poluentes das empresas. Caso a única estratégia de controle ambiental seja a adoção dos sistemas de fim-de-tubo, estes deverão ser cada vez mais eficientes. Uma vez que o custo de tais sistemas aumenta significativamente para eficiências de remoção acima de 90%, conclui-se que o custo de controle ambiental de fim-de-tubo, para garantir a qualidade e a diversidade dos nossos ecossistemas, se tornará proibitivo.

Enquanto a produção do bem-estar da sociedade moderna tem imposto um elevado preço à natureza, a divisão dos bens e serviços tem sido desigual, com inaceitável concentração de renda e do consumo, a existência de vastas populações de excluídos. Cerda de 1,3 bilhões de pessoas no mundo vive com menos de 1 dólar por dia; no Brasil, em 2001, estatística do IBGE mostrava que 1% da população mais rica concentrava quase o equivalente da renda acumulada pelos 50% mais pobres.

A inovação tecnológica e a criação de novos objetos de consumo no século XX foram impressionantes: o avião (1903), o rádio (1906), a máquina de lavar (1906), a televisão (1926), os primeiros robôs (1928), o transistor (1947), o satélite artificial (1957), o raio laser (1960), o computador pessoal, o fax, o telefone celular, a internet (1993), as fibras óticas, o ultra-som, a tomografia computadorizada, entre outros. No entanto, o acesso à tecnologia é restrito, pois 1 bilhão de pessoas no mundo não tem acesso à moradia, 2 bilhões não dispõe de energia comercial e metade da população mundial jamais usou um telefone. Tecnologias simples, como lâmpadas elétricas, torneiras e privadas com descarga hidráulica, são artigos de luxo para grande parte da população mundial.

Como produzir bens e serviços sem esgotar recursos naturais importantes e sem despejar poluentes em quantidades superiores à capacidade natural de reciclagem do planeta, ou seja, sem impor à natureza um preço exorbitante e insuportável?

* João Carlos Mucciacito - Químico da CETESB, Mestre em Tecnologia Ambiental pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo, professor no SENAC, no Centro Universitário Santo André - UNI-A e na FAENG - Fundação Santo André
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