Seção:
Editorias
-
Categoria:
Artigos
Escrito por Márcio Thamos*
Qua, 30 de Setembro de 2009 16:05
Os dois coqueiros, onde o sanhaço e o anu costumam pousar cantando, mesmo dando coco o ano inteiro, agora parecem mais pesados, pendendo mais baixo seus frutos polidos. A fruta-do-conde está soltando brotos bem verdinhos, o manacá já está branco para daqui a pouco se arroxear, e o canteiro de azaleias continua florido. A bananeira já se encheu de cachos, que, infelizmente, sei que não vão vingar (porque tinha que ter sido plantada mais fundo, me diz o jardineiro), mas é bonita mesmo assim a bananeira plantada no meu quintal, com suas folhas largas que se desenrolam em finos cartuchos. A jabuticabeira temporã também já floresceu e carregou o pé, feliz com a chegada das chuvas, fazendo a alegria dos passarinhos todos que passam por aqui (e eu fico pensando seriamente em ter um jabuti no meu quintal só pra saber se jabuti gosta de jabuticaba). As pombas obstinadamente constroem seus ninhos onde quer que encontrem abrigo. E a minha gata Natasha, que já viu dezessete primaveras e completa a maioridade esse mês, passeia pela grama verde, tranquila entre os pardais, e vem sentar-se emocionada à beira da piscina para assistir a um pôr-do-sol cada vez mais lilás...
Poetas antigos como Virgílio, Horácio e Ovídio sabiam que primavera era o que havia na tenra origem do mundo, enquanto os seres eram criados a fim de povoar a terra, quando os primeiros rebanhos sorveram a luz do dia, quando a raça dura dos homens elevou a cabeça do chão, quando foram enviadas às matas as feras e as estrelas ao céu. Naquele tempo, o nosso orbe era um celeiro de amenidades e de justiça, inesgotável paiol de bonança e de fartura. Era a Idade de Ouro, que cultivava por si própria, sem lei nem vingador, a fidelidade e a retidão; quando Saturno governava o mundo com sabedoria, e os campos sem roçado produziam e ofertavam tudo a todos, e pelas várzeas corriam rios de leite e rios de néctar. Mas depois, ascendendo ao Olimpo, o poderoso Júpiter achou por bem encurtar a eterna e antiga primavera, variando e dividindo o ano com as estações que se sucedem sem cessar. E, desde então, é preciso esperar que se complete o ciclo das quadras, enquanto o Sol percorre no céu todo o zodíaco, para que a Natureza inteira se renove com a volta de Vênus. Quando sopra a brisa leve que anima as flores do campo, a deusa da beleza e do amor vem vagando pelos vales e montanhas, sob a luz clara do luar, acompanhada pelas Graças e pelas Ninfas, sempre alegres, sempre lindas, que dançam e que brincam sem parar...
Foi quase assim o sonho que tive nesse início de setembro, durante uma noite de chuva gostosa que me fez dormir bem como há muito eu não conseguia. Sonhei que a primavera viria, viria sempre, para o deleite das plantas e dos animais, para que toda a Natureza pudesse cumprir o seu destino exuberante, para a alegria dos próprios deuses que nos espreitam lá dos céus - para que os homens pudessem saber da Idade de Ouro e desejar de coração que ela volte.
*Doutor em Estudos Literários. Professor de Língua e Literatura Latinas junto ao Departamento de Linguística da UNESP-FCL/CAr, credenciado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da mesma instituição. Coordenador do Grupo de Pesquisa LINCEU - Visões da Antiguidade Clássica.
E-mail:
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.