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Escrito por Denise de La Corte Bacci*
Qua, 30 de Setembro de 2009 16:26
Uma concepção mais ampla de geodiversidade apresenta as paisagens naturais como variedades de ambientes e processos geológicos, que estariam relacionadas à seu povo e sua cultura (Stanley, 2001), estabelecendo uma relação direta entre a diversidade natural dos terrenos (compreendida como uma combinação de rochas, minerais, solos e relevo) e a sociedade.
Menegat (2009) afirma que a paisagem não está fora do ser humano, que ela inter fere na história humana e que estamos condicionados pela paisagem em que vivemos. A habilidade humana de ler e interpretar a paisagem, a cognição, fez com que o cérebro humano se desenvolvesse na e com a paisagem. O autor afirma ainda que a diversidade da cultura humana responde a uma diversidade de ecossistemas, que, por sua vez, responde à diversidade de geossistemas. Cada lugar pode ser lido em termos de elementos geológicos, geomorfológicos, estruturantes da paisagem, de uma parte da superfície da crosta terrestre.
O Serviço Geológico do Brasil CPRM (2006) definiu geodiversidade como conatural e desenvolvimento das regiões detentoras dessas paisagens.
Nesse sentido, cresce o interesse por uma nova modalidade de gestão das áreas naturais, os geoparques. Os geoparques envolvem áreas geográficas com limites bem definidos, onde sítios do patrimônio geológico constituem parte de um conceito holístico de proteção, educação e desenvolvimento sustentável. Essas áreas envolvem diversos geossítios ou locais de interesse do patrimônio geológico-paleontológico de especial importância científica, raridade ou beleza, cuja importância é realçada não unicamente por razões geológicas, mas também em virtude de conterem aspectos adicionais de valor arqueológico, ecológico, histórico ou cultural (UNESCO, 2004). É uma iniciativa que visa a proteger o patrimônio geológico e promovê-lo ao público em geral; apoiar a gestão racional das áreas protegidas com patrimônio geológico significativo; apoiar o desenvolvimento econômico e cultural das comunidades locais por meio da valorização do seu patrimônio e identidade única e do desenvolvimento do turismo geológico; e fornecer uma plataforma de cooperação entre Geoparques Nacionais, reunindo agências governamentais, organizações não-governamentais, cientistas e profissionais de diferentes países do mundo em uma parceria única que opera com objetivos comuns e de acordo com regulamentos da UNESCO.
O Geoparque Araripe é o único no Brasil e foi criado por iniciativa do Governo de Estado do Ceará, em 2006, tendo a frente do processo a Universidade Regional do Cariri (URCA). Sua criação visa proteger e preservar legalmente os principais sítios geológicos ("geotopes" ou geossítios estratigráficos), afim de que recebam atividades científicas qualificadas, selecionados entre os demais pela representatividade estratigráfica, divulgação científica, para a população local e visitantes, sobre os conceitos de geociências e de ecoturismo. Sua concepção levou em consideração a Floresta Nacional do Araripe e aspectos culturais e históricos locais, no sentido de validar formas de apropriação dos recursos naturais da região com sólida alternativa de desenvolvimento econômico local sustentado, com incremento do turismo regional. Foi colocado ainda, como objetivo, o controle da extração e comercialização ilegal do patrimônio fossilífero.
Com as diversas propostas de criação de geoparques no Brasil (pelo menos quatro em andamento), é preciso ampliar a divulgação e o debate, com vistas às implicações e potencialidades que os geoparques agregam, considerando-se os três pilares de sustentação dessa estratégia: conservação, educação e geoturismo.
Essa é uma das maneiras que, certamente, contribuirá muito para a geoconservação em nosso país e para o desenvolvimento de muitos locais rumo à sustentabilidade.
Para mais informação consulte:
TEIXEIRA, W. FAIRCHILD, T. R., TO LEDO, M.C.M, TAIOLI, F. Decifrando a Terra. 2ª. Edição. Companhia Editora Nacional. São Paulo. 2009.
*Denise de La Corte Bacci: Graduada em Geologia pela UNESP, Campus de Rio Claro, mestrado em Geociências e Meio Ambiente pela UNESP e doutorado em Geociências e Meio Ambiente pela UNESP. Estágios na Università di Milano e University of Missouri_Rolla. Pós-doutorado em Engenharia Mineral pela POLI-USP. Atualmente é docente do Instituto de Geociências da USP.
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