As facilidades de crédito e as condições para aquisição de veículos trouxeram à baila uma situação previsível: o aumento desenfreado de quantidade de carros nas vias públicas. A frota tem crescido em todas as grandes cidades do país e já se tornou um gargalo para a eficiência das cidades. A infra-estrutura viária está saturada e a rotina de congestionamentos como os da cidade de São Paulo se repetem, mesmo que em menores escalas.
A cidade de santos também convive com um trânsito pesado e com uma malha viária acanhada, projetada no século passado. Porém, conta com uma alternativa diferenciada, o uso da bicicleta como meio de transporte. Um grande impulso para isso foi a implantação de 17,5 km de ciclovia, que corta boa parte do município. Claro, o clima agradável, a topografia plana e as distâncias curtas também são atrativos. O prefeito João Paulo Tavares Papa disse que a intenção é criar um sistema viário próprio para bicicletas, com capilaridade necessária para o deslocamento por todos os bairros.
A associação Brasileira de ciclistas aprova a iniciativa e aponta números elevados em relação ao município. Seu presidente, Jessé Teixeira Felix, afirma que cada família santista possui uma média de duas bicicletas. “Há mais de 400 mil ciclistas em santos” – garantiu ele. Exagero ou não, o fato é que o santista aprovou a idéia e o trafego de bicicletas já se tornou uma característica desse município praiano. “A bicicleta nos garante o direito (constitucional) de ir e vir. Para se deslocar de um ponto a outro da cidade, mesmo numa distância curta, uma única a pessoa gastaria de ônibus cerca de R$ 5,00”. – explicou ele, que está à frente de um movimento denominado “Pedala santos”, que já está sendo exportado para outras cidades. Felix disse que a associação empenha-se também em uma nova campanha para a direção preventiva de ciclistas, evitando acidentes muitas vezes trágicos.
Saídas possíveisNa opinião do prefeito santista, há dois caminhos para a questão do trânsito: a ampliação e a melhoria da qualidade do transporte coletivo e a utilização de bicicletas como meio de transporte. Segundo ele, para estimular os ciclistas é necessário oferecer um espaço próprio e seguro para transitar sem precisar disputar as vias com os veículos. “O desafio é abrir espaços, numa cidade pronta e com um sistema viário já acanhado, para o volume de trânsito atual” – disse. A experiência de santos mostrou que, nesses casos, foi necessário a supressão de espaços já definidos: calçadas ou faixas de rolamento de transporte veicular.
CulturaA grande dificuldade da adoção dessa alternativa ainda é cultural. Ao contrário de países da Europa onde é aceita e utilizada com naturalidade por executivos, donas de casa e demais trabalhadores, no Brasil ainda está associada ao lazer e ao uso por operários. “No nosso país, o carro ainda está associado ao status de liberdade, de poder” – disse o prefeito.
Em santos, essa história sob duas rodas começou com a demanda do estivador, que há muito tempo a utiliza para o deslocamento interno de um ponto de atracação de navio ao outro, na área portuária. Tanto, que a primeira ciclovia foi implantada na avenida de acesso ao Porto.
No final da década de 90, a orla da praia também ganhou sua ciclovia, com objetivo turístico. Porém, após sua inauguração, comprovou-se o que muitos já defendiam que ela seria utilizada pelos trabalhadores e estudantes. Ali há um volume intenso de tráfego, durante todo o dia. Isso serviu como reforço para que a Prefeitura iniciasse a expansão desse projeto de ciclovia, que ainda está em andamento.
Ganhos
Pode-se destacar várias vantagens na adoção desse transporte: é econômico, barato, democrático, não polui e ainda combate o sedentarismo. Marcelo João Riechelmann utiliza sua bicicleta todos os dias no trajeto residência – trabalho, percorrendo em média 10 km. Esse exercício físico, segundo ele, lhe garante disposição para o dia de trabalho, além de permitir maior agilidade de locomoção. O ponto negativo, segundo ele, é quando o pneu fura em dia de chuva. “Aí é triste” – disse.
Yury Zanata Ribeiro, morador do Guarujá, município vizinho à santos, também utiliza a bicicleta diariamente para a locomoção até o trabalho e depois para a faculdade, percorrendo de 5 a 10 km. Economiza cerca de R$ 250,00 mensais e ainda ganha um tempo precioso. “Ficar à espera de ônibus é quase insuportável” – disse ele. Ribeiro também aproveita as pedaladas como fonte de atividade física diária e considera a ciclovia uma excelente iniciativa, pois permite segurança e um percurso mais agradável.