O surgimento da internet foi um divisor de águas para a humanidade. Através dela, o mundo foi interligado. Descortinou-se um universo de facilidades para as pesquisas, contatos, acesso às informações e agilidade de comunicação. A novidade extrapolou os meios empresariais e acadêmicos e invadiu, soberana, os lares brasileiros. Segundo pesquisa realizada pelo Ibope/Netratings, o Brasil tinha, no início de 2007, cerca de 14 milhões de usuários aresidenciais. Ao longo do ano passado, houve um acréscimo de 7,1 milhões de usuários ativos, o que nos torna uma comunidade de 21 milhões de internautas. Essa pesquisa, divulgada em março deste ano, indica ainda que o tempo médio de navegação do brasileiro passou, em um ano, de 3h17 para 22h24. O resultado coloca o Brasil como o país de maior tempo de navegação entre dez países pesquisados. Em segundo lugar estão os estados unidos, cujo tempo médio foi 19h52.
Com esses dados, não é de se estranhar o aparecimento de um triste evento: a dependência de internet. Um mal que afeta o comportamento social e que já dá mostras da dimensão que o problema poderá causar à sociedade moderna.
Jovens, adultos e idosos começam a ser dominados pela máquina. Não se trata de exagero, a queixa já começa a ser identificada nos consultórios médicos e clínicas de psicologia. O hospital das clínicas, em São Paulo, através do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso – Amiti, iniciou um programa de psicoterapia, com acompanhamento psiquiátrico, oferecido gratuitamente à população para casos de dependência de internet. A princípio o atendimento se voltou para adultos. Este ano, abriu inscrições para o trabalho com adolescentes. A demanda surpreendeu os profissionais envolvidos, há inscrições até de pessoas que residem fora do estado.
Comportamento nocivo
Conforme explicou a psicóloga Sylvia Van Enck Meira, que atua nesse grupo multidisciplinar do Amiti, em alguns casos, o dependente altera completamente seu comportamento social, deixando de se relacionar com outras pessoas, abandonando os estudos, atividades esportivas, abalando o desenvolvimento profissional e até mesmo prejudicando hábitos de higiene e alimentação, em detrimento ao uso do computador. “Há adolescentes que trocam o dia pela noite, que precisam ser alimentados na frente do equipamento ou, simplesmente não comem” – disse. Em alguns blogs, na internet, que discutem o problema, há relatos que mostram casos de jovens que chegam a urinar nas calças para não sair da frente da máquina.
Independente do grau de dependência, as queixas mostram-se crescentes. De acordo com a psicóloga, a dependência se caracteriza principalmente pelo tempo de permanência na rede e com a crescente necessidade de aumentar esse período. Nesses casos, a impossibilidade do uso torna a pessoa irritada e agressiva. Não raro, ela busca outras opções para estar conectada, como as lan houses, por exemplo. Ocorre que elas são pagas, e como qualquer outro vício, seu dependente acaba por buscar de qualquer forma recursos para seu acesso. Nesse estágio, nota-se também a labilidade de humor e o isolamento social, dentre outros.
O que fazem no computador
A sedução é grande, pois são inúmeras as alternativas na internet. Jogos, chats (site de bate-papo), sites com todo tipo de conteúdo e para todos os gostos e interesses. Atualmente, uma das grandes manias dessa “comunidade virtual” é um jogo onde se cria um personagem, com características físicas e psicológicas, que passa a interagir em rede com outros personagens. “Normalmente, eles montam esse “ser” com características que gostariam de ter. A situação torna-se tão atrativa e envolvente que passam a viver nesse mundo de fantasia e esquecem de viver a vida real” – explicou a psicóloga.
Para ela, isso reflete problemas de auto-aceitação, onde é mais fácil se refugiar no faz de conta. “Eles deixam de freqüentar grupos de amigos, realizar novas atividades e perdem a oportunidade de viver experiências reais” - explicou.
Tratamento
O tratamento, normalmente, é realizado por meio de terapia em grupo, onde em depoimentos, cada um expõe suas dificuldades, muitas vezes comuns a todos, e ainda as conseqüências desse mal. “Nesse processo, identificam-se os motivos que levam a essa fuga. Percebe-se o que a internet acrescentou e o que prejudicou na vida de cada um. A partir daí começa a busca pelo autocontrole nesse uso. É preciso aprender a controlar a máquina ao invés de ser controlado por ela” - concluiu.