A arte tem mudado a realidade de crianças e jovens, moradores de bairros pobres da cidade de Santos, principalmente do Dique da Vila Gilda, localizado na Zona Noroeste. Um projeto iniciado há cinco anos nessa comunidade, em parceria com o Grupo Cultural Olodum da Bahia, Comissão de Moradores do Dique da Vila Gilda, Ministério da Cultura e Instituto Elos já mostra resultados efetivos. O que começou como projeto se transformou no Instituto Arte no Dique e em dezembro, um de seus núcleos, a Banda Querô, lançará seu primeiro cd.
O diferencial dessa proposta de inclusão social e cultural está na experiência e gestão profissional de seus executores, que primam pela qualidade das ações exercidas e mobilizam grandes empresas, órgãos públicos, universidades, artistas e profissionais de renome. José Virgílio Leal de Figueiredo, coordenador cultural da entidade, explicou que o Instituto hoje mantém a Escola Popular de Arte e Cultura “Plínio Marcos”. Por lá já passaram mais de 500 pessoas em cursos gratuitos de percussão, canto, violão, teatro, dança, desenho gráfico e artesanato, em turmas infantil, jovem e adulto.
DIQUE DA VILA GILDAO Dique da Vila Gilda é uma das regiões mais carentes da cidade de Santos, com uma população de aproximadamente 22 mil habitantes. No entanto, as condições precárias, como moradias em palafitas à beira do mangue, sobre o Rio Bugre, não são impedimento ao talento, à criatividade e ao vigor artístico. Eles comprovam isso nos espetáculos, shows, exposições e demais atividades que impressionam e emocionam o público, pelo alto nível de produção.
EDUCAÇÃOO coordenador explicou que a educação é uma das premissas do trabalho desenvolvido. A entidade obteve inclusive, a parceria de uma universidade da região, que fornece algumas bolsas de estudos, que são distribuídas aos integrantes que obtém os melhores resultados nos vestibulares. Mas além da oportunidade de graduação, o Instituto vislumbra outras propostas educativas. “Sabemos que atualmente há muitas pessoas com curso superior e poucas vagas no mercado de trabalho” – disse Figueiredo. Por isso, a entidade aposta na formação técnica em áreas artísticas. Como uma conseqüência natural obtida com o amadurecimento do projeto, o próximo passo será implementar os cursos técnicos para formação de cenógrafos, figurinistas, maquiadores, contra-regras, roadies (técnicos que afinam instrumentos musicais no palco). “Oferecer formação técnica no segmento artístico pode permitir que tenham bons empregos e sejam de fato, incluídos” – destaca.
NOVOS PROJETOSEntre os novos projetos, que devem emplacar em 2008, está o espetáculo teatral “Refavela, refazendo o sentido”, que trata da obra e vida de Gilberto Gil. O projeto tem apoio do homenageado e de uma grande siderúrgica da região, através da Lei Rouanet de incentivo à cultura.
Outra ação prevista é o Núcleo de Rádio e TV. O estúdio já está pronto, assim como a parceria com uma Universidade santista, nas áreas de comunicação e biologia, para a realização de um documentário ambiental sobre o Dique, que está em área de manguezal. A água deve ser um dos principais temas abordados nesse trabalho.
FATOR DEMOCRÁTICOO projeto nasceu por acreditar que a arte, assim como o esporte, é fundamental para a construção de uma sociedade, por sua capacidade inclusiva. Ela é uma evidência incontestável de que raça, cor, religião, condição social ou quaisquer outras características não são impedimentos para o talento, saberes e habilidades pessoais. Figueiredo relata que quando essas aptidões são bem direcionadas permitem vislumbrar um futuro promissor e se contrapõem às situações hostis como a violência, a marginalidade e o desemprego, tão presentes nas vidas das comunidades carentes. “Todo jovem quer um tênis de marca, um celular moderno, quer usar uma roupa boa, sair, se divertir” – defende ele. Por isso, garantir a eles uma formação profissional de qualidade é assegurar opções dignas de trabalho e abrir perspectivas de transformar esses sonhos em projetos de vida. Os integrantes da Banda Querô já sabem disso, atualmente, são todos músicos profissionais.
BANDA QUERÔO grupo nasceu da primeira oficina criada: de percussão. Hoje, já ganhou a inclusão de novos instrumentos e agora é composta por baixo, guitarra e teclados. O vocalista Ubiratan Santos, é também o mestre de percussão do grupo.
Esse primeiro álbum é composto de 14 músicas, dentre elas Refavela, de Gilberto Gil, Primavera e Gostava Tanto de Você, de Tim Maia. As demais faixas são canções cedidas por compositores como Gigi e Fabinho O’Brien (autores de Flor do reggae e Quando a Chuva Passar, sucessos de Ivete Sangalo), Elpídio Bastos e Rui Braga (diretor musical e tecladista do Olodum), além de Marquinhos Marques, Peu Meuray, Márcio Brasil, Leo Pit Bit, Índio, Dória, Duler, Serginho e Tonho Matéria. Os arranjos serão de Alex Oliver, Tubinaga e Elpídio Bastos. A foto da capa do disco é do fotografo Araquém Alcantara, considerado um dos maiores fotógrafos brasileiros.
O Cd apesar da influência do samba-reggae, tem a mistura de vários estilos, mas com preservando um estilo bem dançante.
O grupo já está profissionalizado e realizando shows, inclusive para empresas e eventos. O nome Querô é uma homenagem ao personagem principal de “Querô, uma reportagem maldita”, obra do dramaturgo santista Plínio Marcos.