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O olhar social pelas lentes de Gilvan Barreto

O olhar social pelas lentes de Gilvan Barreto

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Seção: Editorias - Categoria: Cultura
Escrito por Liane Uechi Seg, 19 de Janeiro de 2009 15:31

Cada vez mais, as imagens assumem um papel de relevância na comunicação. Fotos de catástrofes urbanas, ondas destruindo cidades, vítimas da violência, cenas do sertão, o padrão de beleza estampado em outdoors, a exuberância ou a miséria, circulam o mundo e ficam registrados na história e na mente das pessoas. A mídia, a publicidade, a comunicação empresarial exploram com muita competência essa ferramenta, que invade nossas retinas a todo momento. Estudos na área apontam que inconscientemente, as pessoas entendem as imagens como uma verdade inequívoca do acontecimento. Por trás de todo esse poder “documental”, estão os profissionais da fotografia que focam e definem os fragmentos de uma realidade a ser registrada. Assim, numa sociedade “viciada em imagens”, a responsabilidade social desses profissionais cresce na mesma proporção que o uso desenfreado desse recurso visual.

O fotógrafo Gilvan Barreto, que traz na bagagem o registro de imagens dos cantos mais remotos do mundo e, possui o olhar treinado para captar os diversos elementos que compõem uma fotografia, acredita que de fato, ela possui o poder de sensibilizar e de transformar opiniões públicas. Advindo da escola de jornalismo, o fotógrafo crê que esse tipo de trabalho deve possuir uma carga ética, ideológica e humanitária. “Vamos a lugares e situações de pouco acesso, onde o cidadão comum nem sempre chega. É nossa função revelar essa realidade e se possível provocar reflexões, gerar mudanças ou pelo menos quebrar preconceitos” – explica.

Barreto, que presta serviços para Ongs como a Oxfam International, a Unicef e o Greenpeace, percebe que o Terceiro Setor, no exterior, já entendeu a força desse recurso e investe na documentação fotográfica, inclusive das questões sociais brasileiras, das quais, já encomendou inúmeros trabalhos. Ele revela que as organizações nacionais, com exceções daquelas muito bem estruturadas, ainda não utilizam muito essa ferramenta.

Trabalhos


Com foco social, tem realizado alguns trabalhos na América Latina. Em 2007, fotografou a colheita de café orgânico nas montanhas de Honduras, um dos lugares mais pobres do mundo. Ainda há outros projetos de cunho social, envolvendo a África e Ásia. “Tudo isso é muito estimulante, saber que as grandes organizações dão importância a esse tipo de fotografia”. – afirmou. Sua profissão também o levou ao Nepal onde conheceu o trabalho desenvolvido por uma mestre de yoga, em penitenciárias de Katmandu. O projeto dessa nepalesa humanizou e amenizou as condições daquelas pessoas e a reportagem fotográfica de Barreto é um dos poucos registros dessa experiência.

Nas suas imagens o ser humano é a fonte principal de inspiração. Ele, que se considera um retratista, diz que ao fotografar pessoas busca extrair a essência delas. Para isso, a aceitação de quem está sendo fotografado é muito importante e essa confiança precisa ser adquirida com conversa, com aproximação, com a disposição de entrar no mundo particular de cada um. “O que busco é que o retratado entenda que sua imagem poderá servir de exemplo para outras pessoas. Que ele possui algo de especial para ser mostrado”. – disse. Em se tratando de um trabalho com abordagem social, essa compreensão já é a primeira mudança conquistada: a valorização desses personagens da vida real.

O conteúdo dessas imagens extrapola a estética, pois há outros valores envolvidos nessa composição. “Um retrato verdadeiro é aquele que conta a história das pessoas” – afirmou.

Apesar de fotografar em locais muito remotos, por vezes pobres e desfavorecidos, Barreto tem uma visão diferenciada e não explora a estética da miséria. Faz uso de um olhar positivista, como forma de resguardar a integridade dos retratados. “Não concordo em exibir seres humanos em estado degradante”. Para ele, há alternativas mais eficazes, respeitosas, instigantes e até mesmo bonitas para tratar o assunto e provocar mudanças. As marcas de sofrimento, a rudeza da vida, a pobreza, podem estar presentes, mas a dignidade, o brilho de esperança no olhar, a grandeza e o melhor de cada um também coexistem como elementos desses documentos sociais.