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Teatro na areia

Teatro na areia

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Seção: Editorias - Categoria: Cultura
Ter, 20 de Janeiro de 2009 09:18
Tendo por palco 15 mil metros quadrados de areia branca e macia e no plano de fundo, um mar sem fim, a cidade de São Vicente, litoral paulista, surpreende há 26 anos com um espetáculo da Encenação da Fundação da primeira vila do Brasil. A história da cidade foi contada, diariamente, entre os dias 16 a 22 de janeiro, por meio de um espetáculo teatral com grande produção, iluminação, som, áudio, cenografia, coreografia e todos os principais elementos que compõem as grandes obras, nas areias da Praia do Gonzaguinha.

Seria apenas mais uma grande produção artística, vista por cerca de 56 mil pessoas, não fosse por um detalhe: o elenco foi formado por 1.300 pessoas da comunidade, gente simples, muitas das quais encontraram nessa participação o primeiro contato real com a expressão tetral. São crianças, jovens, idosos, de ambos os sexos e que têm ali, em comum, a experiência única de brilhar e dividir o palco com artistas consagrados, que também compõem o elenco.

Tudo é superlativo nessa produção: figurinos, adereços, maquiagem, lâmpadas e refletores robotizados, assim como a estrutura construída para abrigar sanitários, camarins, depósitos e arquibancas para 8 mil pessoas, sempre lotadas. No entanto, diante de tanta grandeza, são alguns pequenos detalhes que chamam a atenção. O público, que tem ingressos a preços populares, R$ 3,00, lota as arquibancadas independente do clima, mesmo sob chuva. A entoação do hino da cidade é outro momento surpreendente, pois é acompanhado e cantado pela platéia, sobretudo pelas crianças e adolescentes, que o trazem decorado “na ponta da língua”.

O secretário de Turismo e Cultura, Pedro Gouveia, explicou que mais do que uma apresentação artística, o trabalho desenvolvido ao longo dos anos é de cidadania e de inclusão social e cultural. Ele afirma que ao envolver a população da cidade, que se prepara durante todo o ano, nas oficinas, nas escolas e nos ensaios escalonados no Centro de Convenções da cidade, foi possível resgatar a auto-estima do vicentino. “Os alunos cantam com orgulho o hino da cidade e hoje, Martim Afonso (fundador da vila de São Vicente) é um herói para as nossas crianças” – disse ele. Essa grande aula de história ao ar livre, segundo o secretário, só valorizou as raízes dos vicentinos.

Os parentes dos atores populares foram convidados a assistir a apresentação logo no primeiro dia, prestigiando e apoiando a estréia.

O trabalho também é grandioso, afinal são mais de mil pessoas voluntárias, para ensaiar, coreografar, maquiar, iluminar... Os bastidores, improvisados em tendas ao lado do “palco”, compõem um verdadeiro mosaico de personagens, cores, vozes, ansiedade e alegria. Na hora de entrar em cena, cada um assume a postura que se espera de um profissional. Caras, bocas, expressões, gritos, danças... Tudo é executado com perfeição e seriedade.

Anna da Silva Oliveira, 90 anos, é uma das mais antigas componentes da Encenação, há 11 anos participa da peça e no domingo, dia 20, faltando dois dias para o encerramento do evento, já dizia estar com saudade e com um aperto no peito, porque estava acabando. “Mas no ano que vem, se eu ainda estiver viva, estarei aqui de novo” – afirmou. Ela, que este ano veio acompanhada da neta, também componente, diz que nunca imaginou na sua vida que seria uma artista. “Participar da encenação é a melhor coisa do mundo” – disse Anna, que integra o núcleo da Corte.

O diretor da Encenação, Tanah Correa, disse que a inclusão cultural e social sempre foi um dos objetivos principais dessa iniciativa e que isso vem sendo ao longo dos anos aprimorado. O segredo do sucesso desse espetáculo está, segundo ele, em tratar e exigir de cada um dos participantes uma atuação profissional. “Aqui todos são considerados atores e atrizes” - disse Correa. Para ele, trabalhar com um grupo tão grande exige a compreensão das diferenças, porém, com foco em um objetivo comum. “Não há dificuldades quando existe amor no que se faz” – afirmou.

O diretor, que está de volta à direção depois de 10 anos, pôde realizar dessa vez, um projeto engavetado desde 1998: inserir como desfecho do espetáculo, a bateria de uma escola de samba, no caso, a X9 Santista. Ele explicou que desta forma demonstrou ao público, a beleza e a possibilidade de mesclar diversas modalidades musicais, indo da melodia erudita e clássica ao samba, que é a grande expressão popular brasileira.

A poesia, narrada nos versos clássicos de Fernando Pessoa: “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal” ou ainda, “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena” também é uma constante na apresentação e tira suspiros da platéia, que começa agitada e silencia, atenta, com a evolução da Encenação, para voltar ao êxtase novamente no final, com a apresentação dos artistas famosos e televisivos, como Luigi Baricelli (Martim Afonso), Luciele Di Camargo (Índia Bartira), Isadora Ribeiro (Ana Pimentel); Werner Schunemann (João Ramalho), Cecil Thiré (Padre Gonçalo Monteiro), Mariana Felício (Rainha Catarina), Daniel Saulo (Rei Dom João III), Elke Maravilha (Personagem Mítica), Bete Mendes (Mãe de Martim Afonso) e Antônio Abujamra (Pai de Martim Afonso).

Outro elemento que somou muito ao espetáculo desse ano foi a música. O diretor musical, Gil Nuno Vaz, disse que foram compostas mais de trinta músicas para a peça, com a proposta de utilizar o som não como mero fundo musical, mas com o objetivo de emocionar e tocar o público. Uma verdadeira mistura de gêneros e estilos, que vão do fado e da ópera, ao canto indígena, passando por melodias da idade média e terminando no samba. Inserido nesse repertório estão os efeitos sonoros, que junto à iluminação acompanharam as narrativas e produziram os ventos, raios, suspense, guerra e paz.

Quando o espetáculo chega ao seu estágio final, nova surpresa, surge do mar, iluminada, uma réplica da caravela do Descobrimento do Brasil. A nau, com 21 metros de comprimento, 18 de altura e 2,20 de calado, arranca aplausos. O teatro é encerrado de forma apoteótica, com a declaração da fundação da vila de São Vicente, uma saraivada de fogos de artifício, a apresentação da bateria da escola de samba e a certeza de que no ano que vem tem mais.