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Os Bois-Bumbás de Parintins

Os Bois-Bumbás de Parintins

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Seção: Editorias - Categoria: Cultura
Sex, 23 de Janeiro de 2009 15:26

Nos três últimos dias de junho, Parintins deixa de ser uma pacata cidade marcada pela simplicidade de seu povo, cuja economia baseia-se na pesca, na agropecuária e no comércio, para dar lugar a uma das maiores festas populares do País, o Festival Folclórico de Parintins, mais conhecida como a Festa dos Bois-Bumbá.

Nesses dias, os protagonistas da folia, os bois Garantido (vermelho e branco) e Caprichoso (azul e preto), dividem corações e proporcionam ao povo parintinense momentos de euforia ao deixar a calmaria do anonimato para dar espaço à exaltação do meio ambiente, às suas raízes culturais e à criatividade que transformou uma lenda nordestina em roteiro cultural internacional.

Quem acompanha de longe esta festa não consegue compreender o que acontece em Parintins. A população da cidade entra em estado de êxtase: casais de torcidas contrárias se separam, quem torce por um Bumbá não pronuncia o nome do outro - chama-o apenas por “contrário”, pessoas pedem demissões para aproveitar a festa. Mas o fanatismo não pára por aqui: os jurados são sorteados na véspera do Festival e todos vêm de outros estados e, para evitar favoritismo, a cor da tinta da caneta usada por eles durante a votação, é verde. Até mesmo uma multinacional do ramo de refrigerantes, principal patrocinadora do evento, cujo invólucro é vermelho, entrou no ritmo da Ilha e fabricou uma em balagem especial em azul para também agradar os ‘caprichosos’.

Para a porta-estandarte do Bumba Caprichoso, Karyne Medeiros, o Festival Folclórico de Parintins é a representação dos costumes e tradições de um povo que tem orgulho de sua cultura e de ser caboclo. “É acima de tudo uma festa passional, o amor e o ódio em luzes, cores e espetáculo, que cresceu muito nos últimos anos, mas conservou sua essência primordial que é o amor por um boi e por uma cor” - declara.

A antiga Ilha Tupinambarana, com apenas 7.042 km², 102.044 mil habitantes e com distância de aproximadamente 400 Km de Manaus, onde só é possível chegar via área, com uma hora e meia de viagem, ou de barco, após uma aventura que pode durar entre 8 e 24 horas, a cada edição do Festival, chega a receber cerca de 80 mil turistas, 30% estrangeiros.

O Bumbódromo - Centro Cultural e Esportivo Amazonino Mendes, construído especialmente para o Festival, com espaço para 35 mil espectadores sentados, fica lotado de brincantes ansiosos para assistir a ópera dos Bois.

De acordo com a coordenadora da Secretaria de Turismo de Parintins, Carla Garcia, o evento é considerado a segunda maior festa cultural do Brasil, tendo os artistas dos Bumbás uma participação significativa na condução artística do carnaval do Rio de Janeiro e São Paulo. “O Festival Folclórico já representou o Brasil em diversos Eventos na América e Europa. Desta forma o Festival é a maior fonte de renda e Marketing do Estado do Amazonas e do Município de Parintins” – destaca.

Ópera a céu aberto

Baseada na história do Bumba-meu-boi, trazida do Maranhão pelos imigrantes da época da borracha, o espetáculo a céu aberto acrescentou à lenda maranhense personagens de sua cultura.

Com três horas de duração, durante as três noites do Festival, cada Boi conta de forma e enfoque diferente a lenda de Mãe Catirina, que grávida deseja comer língua de boi. Com medo de que seu filho não nasça, Pai Francisco mata o boi preferido do dono da fazenda para satisfazer o desejo de sua esposa. Ao descobrir o que havia acontecido, o fazendeiro manda seus empregados prenderem Pai Francisco e pede a um pajé para ressuscitar o boi. O boi renasce e se inicia a grande festa.

A apresentação é baseada na lenda, mas cada boi tem um tema a desenvolver. “O Futuro é Agora” foi o tema campeão de 2008 apresentado pelo Bumbá Caprichoso e “O Boi da Preservação” foi o mote desenvolvido pelo Garantido.

Dividida em autos encenados através de personagens, rituais e lendas que remetem aos habitantes da floresta amazônica e às questões ecológicas e sociais que os afligem, os mestres de cerimônia apresentam os astros da festa, que fazem suas evoluções sob o controle do “tripa” (homem que manipula o boi), embalados pela toada (música que dá o tom da festa, tocada por mais de 250 tambores).

Durante a encenação, as tribos de dançarinos formam um tapete de cor em movimento, junto com as gigantescas alegorias, que se mexem e se articulam, construindo um cenário apoteótico para a apresentação das figuras de destaque na história parintinense: a graciosa Cunhã-poranga, a rainha do folclore, a porta-estandarte, a sinhazinha da fazenda e o poderoso pajé. Mas o ápice da encenação é a aparição do boi, que emociona e tira lágrimas da galera.

Silvia Padilha, uma amazonense que mora em São Paulo há 13 anos, tenta descrever esta emoção: “Só de falar me arrepio. É algo fora do comum. Emociona, as lágrimas caem, você dança, grita, curte e vive intensamente a cada ritual, a cada toada, a cada noite... É inesquecível”.

No entanto, mesmo com tamanho envolvimento com a encenação, durante a apresentação são proibidas vaias, palmas, gritos ou qualquer outra demonstração de expressão quando o “contrário” se apresenta.

Este respeito, segundo o Coordenador de Cultura, Eduardo Gomes, acontece porque um boi se prepara para o outro. “Um Bumbá não existiria sem o outro. Houve uma época em que outros bois tentaram se apresentar, mas não conseguiram agradar o público, que já nasce e cresce, tradicionalmente, com o coração vermelho ou azul” – diz.

Karyne Medeiros, completa: “Nos respeitamos muito nos bastidores, é uma relação amistosa, tenho amigos e familiares “contrários” e a rivalidade chega até a ser um tempero nessas relações”.

Particularidades da Festa dos Bois-Bumbá
• Apresentador: Mestre de cerimônia, que apresenta todo o espetáculo e anima a Galera.
• Amo do Boi: É o dono da fazenda e pai de Sinhazinha. Ele exige que seus vaqueiros cuidem e protejam seu boi. No Festival de Parintins, entoa versos exaltando o boi.
• Batucada: Nome dado aos músicos do Boi Garantido.
• Cunhã-Poranga: A mulher mais bela da tribo, que encanta o coração dos guerreiros indígenas; sacerdotisa. Cunhã Poranga: Moça bonita - cunhã = moça, poranga = bonita.
• Curral: Local onde acontecem os ensaios. Cada um dos Bois tem o seu próprio curral, o da Batucada - Garantido e o da Marujada - Caprichoso
• Evolução: Quando o boi de pano está se apresentando, na arena do Bumbódromo.
• Galera: Torcida organizada de cada um dos bumbas. Parte integrante do Boi, também é julgada no quesito animação. De acordo com o regulamento, durante a apresentação de um boi, a torcida contrária deve ficar em completo silêncio.
• Jurados: Os jurados são sorteados na véspera do Festival e todos vêm de outros estados. O requisito é ser estudioso da arte, da cultura e do folclore brasileiro. Eles também fazem parte da festa: a caneta utilizada por eles não pode ser azul ou vermelho. Para evitar favoritismo, a cor da tinta é verde.
• Marujada de Guerra: Nome dado ao conjunto de músicos que acompanha a evolução do Boi Caprichoso.
• Pajé: Chefe espiritual das tribos indígenas. No Festival de Parintins, durante a evolução do Bumbá, o Pajé é o índio feiticeiro, uma das figuras mais importantes da apresentação - figura central no ritual do boi -, que por meio da pajelança, conjunto de danças e invocação de espíritos, encontra a receita para a cura.
• Ritual: Cerimônia conduzida pelo Pajé. É o ponto mais esperado da apresentação quando fogos de artifício e efeitos luminosos irrompem no Festival. Geralmente apagam-se as luzes do bumbódromo enquanto os participantes, que assistem o espetáculo, acendem candeias -pequenas luzes - proporcionando um espetáculo à parte. Originalmente, o objetivo era ressuscitar o Boi morto. Na temática indígena do Festival de Parintins, este é o momento que o Pajé luta contra as forças do mal.
• Sinhazinha da fazenda: A filha do Amo, dono da fazenda. A moça bonita, considerada o mimo da casa, é uma das figuras tradicionais do Boi bumbá e sempre um dos destaques da evolução. A coreografia inclui um movimento em que ela coloca as mãos sob o rosto, espalmadas para baixo, dando-lhe extrema graciosidade.
• Tribos: Dezenas de Tribos Masculinas e Femininas, com suas cores vibrantes, compõem um cenário tribal delirante, de coreografias deslumbrantes.