Dentro deste tema tão amplo, a professora resolveu pesquisar na base, na origem do comportamento do ser humano e foi assim que surgiu o projeto Brinquedos e Brincadeiras: Patrimônio Cultural da Humanidade, que também virou livro publicado pela Editora Pontes.
Em 1990, o projeto recebeu o selo “Década Cultural Mundial” oferecido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), que o considerou de grande relevância para os estudos da década.
A Organização também sugeriu, em 1991, uma expansão da proposta por toda a América Latina, permitindo o resgate de aspectos da identidade latino-americana. O reconhecimento do órgão estimulou ainda mais a antropóloga que desde então já organizou eventos de debate no Brasil e em outros países da América Latina: em maio de 1994 realizou o I Encontro Latino-Americano de Brinquedos e Brincadeiras Tradicionais, com o apoio da OEA (Organização dos Estados Americanos), e em novembro de 1995, levou uma exposição de Brinquedos e Brincadeiras ao Museu Nacional de Etnografia do Uruguai.
Atualmente aposentada do ensino acadêmico, Regina dedica-se à divulgação de seus estudos, na tentativa de conscientizar pais, professores e as próprias crianças sobre a importância de conservar brinquedos e brincadeiras tradicionais como forma de proteger a cultura dos países.
“Comecei a notar, nessa minha caminhada acadêmica, que as pessoas se preocupavam muito com o patrimônio tangível, o patrimônio material, geralmente aquele elaborado e preservado pelas elites. Pouco se falava em preservar usos, costumes, tradições, comportamentos, ou seja, aquilo que faz com que o ser humano tenha características muito próprias em cada país”, revelou. A constatação desta maneira excludente de entender a cultura, angustiou a antropóloga.
“Eu comecei a observar que havia um viés na questão da maneira de se tratar cultura e patrimônio, tratava-se mais de recortes da cultura de um povo, recortes estes que garantiam a permanência do poder constituído. Na medida em que você elege determinados elementos e caracteriza aquilo como patrimônio importante a ser preservado, você está de alguma forma garantindo a supremacia de um grupo que pratica aquela cultura. Percebi que havia uma relação muito antiga e perversa entre cultura e poder e que, muitas vezes, as coisas não caminham bem nos países porque essa associação é antiga, perniciosa e não permite ao povo entender-se como partícipe da construção de um patrimônio importante. Porque, na realidade, é a população que no seu dia-a-dia cria a cultura e a cultura é uma maneira que o ser humano inventa de pensar, de agir, de se relacionar, de dançar, de cozinhar. Tudo para sobreviver num determinado habitat natural”, explicou.
A pesquisa foi a forma encontrada por ela para se contrapor a esta realidade. “Levantamos os brinquedos e as brincadeiras que ainda subexistem no espaço da rua, em bairros de diferentes camadas sociais. Pesquisei nas classes A, B, C e D. Documentamos isso em audiovisual e escrita e retornamos às comunidades onde nós havíamos pesquisado para informar aqueles que tinham sido nossos investigados sobre os resultados. Nós fazíamos reuniões em escolas, igrejas, mostrando para essas comunidades como deixar as crianças brincarem com seus amigos espontaneamente é importante. É aí que ela desenvolve seu potencial criativo, o que permitirá que se torne um ser criador e transformador da sociedade”, disse.
Durante o processo e na documentação das brincadeiras coletivas, Regina notou que cada uma delas desenvolvia aspectos importantes para o desenvolvimento bio, fisio, psico, motor e social do ser humano e algumas, inclusive, eram antiquíssimas.
Um exemplo dado por ela é a brincadeira de amarelinha, que, segundo vestígios arqueológicos, já existia no século 5 antes de cristo, na Grécia de Péricles. E por que se brincava? “Aquele ato de jogar a pedra e ter que descobrir maneiras de saltar aquele obstáculo está preparando a criança para enfrentar as dificuldades da vida, que virão pela frente. Sempre vai haver uma pedra no caminho e ela terá que descobrir um jeito de ultrapassar esse obstáculo”, respondeu.
A simbologia de brincadeiras como essa, segundo a antropóloga, é fundamental. “Toda a brincadeira ocorre no nível do simbólico, por isso não há nenhum jogo esportivo que substitua a brincadeira. Existe uma expressão mágica que você usa: faz de conta que... No momento em que estou brincando de polícia e ladrão, eu estou desenvolvendo comportamentos que eu não vou usar agora, enquanto eu sou criança, mas provavelmente vai ter um momento na vida adulta, que eu vou precisar daquele gesto de liderança ou de cooperação que eu tive, ou do comportamento generoso que eu aprendi brincando com meu amigo. Então, quando eu ficar adulta eu vou poder acessar essas informações e incorporá-las no meu dia-a-dia. Se eu não desenvolvi, meu arquivo está vazio”, exemplificou.
Na opinião de Regina, muitas das dificuldades que os jovens têm hoje para consolidar laços afetivos duradouros passam pelo fato de não terem cultivado essa afetividade na infância. “Você cultiva isso não só nas relações familiares, mas com amigos e, mais importante, nas relações com diferentes. Hoje a criança só convive com os iguais. Isso porque nós perdemos o espaço para a socialização humana que é a rua. Nós temos que recuperar esse espaço”, defendeu.
A idéia de reintegrar as crianças no espaço da rua é um conceito que não vem sendo bem recebido nas palestras ministradas pela antropóloga. A maioria dos pais alega que, devido à violência, o convívio na rua não é mais possível. Regina, porém, é enfática.
“Nós temos que lutar contra isso, temos que recuperar esses espaços e com qualidade. Não é só na escola que a criança aprende, a criança aprende desde o berço, vai incorporando a cultura, os padrões de comportamento. A criança precisa circular por vários espaços e entre desiguais, porque é assim que vai aprender o respeito recíproco e estabelecer limites no comportamento. Por que hoje os pais estão enlouquecidos, chamando a “supernanny”? Porque as crianças não têm limites, mas isso não é estabelecido só pelos pais, essa sobrecarga acontece porque perdeu-se os outros espaços onde a criança podia aprende-los, que é o espaço da brincadeira coletiva e espontânea”, comentou.
O momento para uma virada na situação, segundo a professora, é agora. “Acho que nós estamos avançando para outro patamar de vida social. Acho que essa crise que o mundo está vivendo é ótima porque nós temos que mudar os comportamentos. É hora de revitalizar os brinquedos e as brincadeiras infantis porque eles estão a milênios preparando as crianças para uma vida adulta mais harmoniosa” encerrou.