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Cultura
Escrito por Rosane Araujo
Ter, 25 de Agosto de 2009 17:21
Se a língua é o principal meio de expressão da cultura de um povo, e se a cultura brasileira é tão rica e singular em seus sincretismos étnicos, é natural que, com o passar do tempo, o nosso falar tenha adquirido características próprias”, disse o doutor em Estudos Literários, professor do Departamento de Linguística da UNESP-FCL/CAr e colaborador da Neo Mondo, Márcio Thamos.
A história de formação do português brasileiro, a qual se refere o professor, é repleta de capítulos interessantes.
“Ele deriva do português médio (século XV - primeiro quartel do século XVI), que foi a língua adquirida pelos portugueses que povoaram o país”, explica o doutor em Linguística e pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) e Unicamp (Universidade de Campinas), Ataliba Teixeira de Castilho. Em seu trabalho “A hora e a vez do português brasileiro”, disponível no site do Museu da Língua, o pesquisador relata a trajetória de formação da língua falada no Brasil, destrinchando as influências recebidas ao longo de sua história.
“Até o momento, a mudança natural da língua portuguesa e esses contatos que ela teve não deram origem a uma nova língua, fato que poderá ocorrer daqui a cerca de 200 anos”, completou.
Influências indígenas e negras
Segundo o estudo do pesquisador Ataliba de Castilho, quando os portugueses chegaram ao Brasil havia entre um a seis milhões de índios, falantes de cerca de 300 línguas, as quais se organizavam em dois grupos: Grupo Jê e Grupo Tupi-Guarani. Os falantes do grupo Tupi-Guarani, devido à sua distribuição geográfica mais costeira, influenciaram de forma mais ativa a língua falada no país. Já no século XVI, o tupi misturado ao português originou a Língua Geral Paulista, falada no interior de São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais e Paraná, e que começou a ser extinta na segunda metade do século XVIII.
Paralelamente às influências indígenas, entre 1538 a 1855, foram trazidos 18 milhões de escravos negros originários das culturas Banto (Congo, Angola e Moçambique) e Sudanesa (Sudão, Senegal, Guiné, Costa do Ouro, Daomé e Nigéria) que também passaram a influenciar a língua. As palavras Banto atingiram maior dispersão, enquanto as Sudanesas foram utilizadas de forma mais ativa na liturgia do candomblé. Estima-se que 10.000 vocábulos foram cedidos do Tupi-Guarani para o português brasileiro, na maioria substantivos próprios de lugares e pessoas. Já o número de palavras africanas incorporadas ao português brasileiro é 300.
Exemplos de contribuições linguísticas no português:
Palavras indígenas: Caipira, pipoca, maracujá, goiaba, mandioca, pitanga jacaré, tatu, arara;
Nomes próprios de lugares: Moema, Butantã, Jaçanã, Maracanã, Guanabara, Canindé, Itu, Araraquara;
Palavras africanas: fubá, caçula, angu, jiló, carinho, bunda, quiabo, dendê, dengo, samba;
A unidade do português brasileiro
O Brasil é o principal responsável pela atual posição da língua portuguesa entre as línguas mais faladas no mundo: 8º lugar, com 191 milhões de falantes, dos quais 171 milhões vivem no país.
Com tanta gente, é natural que a língua adquira diferentes nuances. Podemos, então, dizer que existem dialetos no Brasil? O pesquisador Ataliba de Castilho esclarece. “Depende do que entendermos por dialeto. Se assim designarmos as variedades geográficas que não dificultam a compreensão, temos dialetos. Se por dialeto se entende a variação geográfica de uma língua de difícil compreensão para falantes de outras regiões, então não temos dialetos do Português no Brasil. Nota-se atualmente a tendência a usar o termo para qualquer variação geográfica”, disse.
O professor Márcio Thamos concorda com a explicação do pesquisador, mas admite que o uso do termo “dialeto” causa certo estranhamento. “Nos entendemos muito bem em qualquer parte do país, apesar das marcantes diferenças regionais. Não é o que acontece, por exemplo, com relação à Itália, onde as variações da língua podem ser tão grandes que ninguém estranha quando se diz que se trata de dialetos”, ponderou.
Consideradas como dialetos ou não, o fato é que o português brasileiro apresenta, além das variações regionais, diferenças socioculturais.
Além do falar caipira, nordestino ou gaúcho, temos o português culto e o popular. Este chegou primeiro, já que os portugueses que vieram para o país eram na grande maioria representantes das camadas populares de Portugal. Somente com a urbanização, o português culto foi se firmando, também como forma de distinção de classes sociais: os alfabetizados e os analfabetos.
Mas entre o português culto e o popular, qual deles é mais correto? Quem respondeu a forma culta enganou-se. Segundo o estudo do pesquisador Ataliba, no Brasil, ao contrário de outros lugares do mundo, a forma popular é menos valorizada e seus falantes são acusados de “falarem errado”, o que é contestado pelo pesquisador. “Quem pratica o português popular não fala errado, apenas opera com a variedade correspondente ao seu nível sociocultural”, diz no estudo.
Museu da Língua Portuguesa
Pioneirismo na preservação do patrimônio imaterial
Em 2007, com apenas um ano de funcionamento, já foi eleito o “mais querido do Brasil” pela revista Veja. Um título merecido, já que só naquele primeiro ano recebeu quase 900 mil visitantes, mais do que o dobro do que tradicionalíssimo Masp (Museu de Arte de São Paulo).
O Museu da Língua Portuguesa completou três anos de vida este ano, contabilizando mais de 1,7 milhão de visitantes. Localizado no centenário prédio da Estação da Luz, no Centro de São Paulo, tem aproximadamente 4 mil metros quadrados abertos para a visitação, nos quais é possível conhecer a história, a importância e as variações da língua Portuguesa, considerada como grande elo da identidade cultural do povo brasileiro.
No mundo inteiro, só existe um outro similar: na África do Sul, o museu da língua Africâner. “A ideia do museu surgiu em 2001, quando a CPTM comunicou ao Governo do Estado sua disposição de transferir seus escritórios do edifício da Estação da Luz. Na ocasião, o governo decidiu implantar no prédio um equipamento cultural, pois fazia parte de uma política iniciada em 1998 de recuperação da região central da cidade. De início não se falava em museu, mas sim em um equipamento cultural dedicado ao nosso idioma. Em 2002, foi firmado um convênio com a Fundação Roberto Marinho para a conceitualização deste novo espaço, captação de recursos e implantação. Entre 2002 e março de 2006, uma equipe de mais de 40 profissionais, entre museólogos, arquitetos, professores, sociólogos e artistas, trabalharam na criação do novo espaço, que ganhou o nome de Museu da Língua Portuguesa alguns meses antes de sua inauguração (até então o nome era Estação Luz da Nossa Língua)”, conta o diretor do Museu, Antonio Carlos Sartini.
Para superar o desafio de trabalhar com o conteúdo imaterial que é o idioma, o museu teve que investir em tecnologia. “Foi a solução para dar materialidade a este rico e variado acervo. Muitos recursos de áudio e vídeo são usados nas exposições permanentes, o que o torna um espaço muito moderno e interativo. E novas tecnologias foram desenvolvidas especialmente para o museu, caso do Beco das Palavras, um divertido e educativo jogo etimológico”, explicou.
Além do conteúdo permanente, há exposições temporárias, cuja pauta já está fechada até 2011.
Atualmente e até 11 de outubro, está em cartaz “O Francês no Brasil em Todos os Sentidos”, que tem como tema as relações entre o idioma português e a língua francesa, bem como os pontos de contato entre as duas culturas. “É a primeira mostra binacional do museu, com curadores brasileiros e franceses, e nasceu face ao Ano da França no Brasil, comemorado em 2009”, explicou o diretor.
Em setembro, será inaugurada uma mostra em homenagem à poeta Cora Coralina. Outros importantes nomes da literatura brasileira já mereceram mostras temporárias: Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Gilberto Freyre e Machado de Assis foram os principais. Não são só os nomes de peso, porém, que fazem o sucesso do Museu da Língua Portuguesa. A boa localização e os preços acessíveis dos ingressos ajudam a democratizar a visitação. “A política adotada pela Secretaria de Estado da Cultura e pela diretoria do museu facilita muito o acesso da população: preços baixos, gratuidade para todos aos sábados, participação em inúmeros projetos de cunho social e outras ações. O público do museu é muito variado, mas todos, ou a grande maioria, têm algo em comum: falam português, são os usuários e donos da nossa língua. Assim, com este elo entre todos, as reações costumam ser de identificação imediata, reconhecimento e orgulho pelo belo idioma que usamos”, encerrou Sartini.
SERVIÇO - Museu da Língua Portuguesa
Praça da Luz, s/nº, Centro - São Paulo – SP
Horários Bilheteria: de terça a domingo, das 10 às 17hs
Museu: de terça a domingo, das 10 às 18hs (não abre às segundas-feiras)
Ingresso: R$ 6,00 (seis reais) – pagamento somente em dinheiro
Estudantes com carteirinha pagam meia-entrada
Isentos do pagamento de ingresso:
Professores da rede pública com holerite e carteira de identidade;
Crianças até 10 anos;
Adultos a partir de 60 anos.
Telefone: (11) 3326-0775
www.museudalinguaportuguesa.org.br