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O Mapinguary contra King Kong

O Mapinguary contra King Kong

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Seção: Editorias - Categoria: Cultura
Escrito por Antônio Marmo Sex, 14 de Maio de 2010 15:55

Entretanto, o cartunista Braga, profundo conhecedor das artimanhas acreanas, advertiu em charge: "Quem conhece ‘Mapinguary',
não se assombra com King Kong". Vamos ver como o Élson conta a história. Essa história começa há 30 anos, lá pelos idos de 1980 quando os seringueiros acreanos, seguindo seu grande líder Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia (na fronteira com a Bolívia), deram o primeiro grito de guerra contra o desmatamento da floresta.

"Bang! Bang! Bang!"

Mas a resposta dos fazendeiros foi fulminante: no dia 21 de julho daquele ano, dois pistoleiros, de tocaia, mataram Wilsão dentro da sede do sindicato, com três tiros pelas costas que lhe atingiram os rins. Foi aí que o comando da luta dos seringueiros passou das mãos do líder assassinado para as de seu companheiro Chico Mendes, ex-secretário do sindicato, que montou sua base na vizinha cidade de Xapuri.

Vieram novas ameaças, novos empates contra as derrubadas, e "bang! bang! bang" - mataram também Chico Mendes em condições semelhantes, no dia 22 de dezembro de 1988.

O mundo ouviu...

Aí, o mundo inteiro ouviu os estampidos, continua o narrador. Chico Mendes foi comparado a mártires internacionais da dimensão de Mahatma Ghandi e Luther King. A tragédia, claro, interessou aos estúdios cinematográficos do país e dos Estados Unidos, que disputaram o direito de transformá-la em filme.

A poderosa empresa norte-americana Warner Brothers levou a melhor e entregou um discutível roteiro ao prestigiado diretor John Frankenheimer que, em 1994, rodou o filme com o nome de Amazônia em Chamas.

Originalmente, The Burning Season (título em inglês) foi produzido para televisão pela rede HBO e pouco teve a ver com a luta dos seringueiros acreanos. Rodado no México com atores espanhóis, colocou Wilson Pinheiro de cabelos longos e seus companheiros com chapelão mexicano. Ainda assim, há 20 anos fatura horrores.

Contra a Warner

Aqui começa a peleja, pois a Warner procurou a família de Chico Mendes para discutir direitos autorais e investiu boa soma de dólares nisso. Mas não deu a menor importância à família de Wilson Pinheiro, ou seja, a viúva Maria Therezinha Pinheiro e seus oito filhos, dos quais sete são mulheres.

Menos conhecidos da mídia que a família de Chico Mendes, os Pinheiro não sabiam nem a quem recorrer. Até que o advogado amazonense Paulo Dinelli, alheio às intrigas acreanas, entrou na história. Foi o único que aceitou a causa, em parte porque a família não tem dinheiro nem prestígio.

Ele disse que, um dia, Hiamar (filha de Wilson que, foi vereadora pelo PT e agora está no PC do B sem mandato) entrou no seu escritório com uma fita VHS do filme Amazônia em Chamas. Daí a história foi rolando.

Processo - Dinelli entrou com um processo contra a Warner Brothers em 2003 pedindo indenização de R$ 4 milhões. Em 2005, a juíza Olivia Ribeiro, do Acre, condenou a empresa norte-americana a pagar, mas desapontou ao reduzir o valor cobrado pelo advogado para irrisórios R$ 160 mil. Mesmo assim, a poderosa Warner contestou a ação por meio de seu escritório em São Paulo, voltando tudo à estaca zero.
Quando viu a sentença, Hiamar subiu nos tamancos e decidiu entrar com nova ação para corrigir a quantia. A nova ação não fala mais em direitos autorais, mas em "danos morais". E aí a argumentação é contra falsidade do roteiro filmado por John Frankenheymer

Pra valer - Desde 2009, Hiamar vem empenhando-se em somar forças contra a Warner Bros. Seu mais forte aliado, hoje, é o militante político histórico, Abrahim Farhat Neto, o Lhé, que anda fuçando coisas até na ONU para fazer com que a Warner Bros se enxergue como vilã.
Neste começo de 2010, Lhé enviou e-mails para instituições nacionais e internacionais condenando a atitude da indústria cinematográfica norte-americana. E descobriu que no dia 25 de março o ex-presidente dos EUA e prêmio Nobel, Al Gore, vinha a Manaus, devendo cercá-lo para obter seu apoio. A Confraria da Revolução Acreana, entidade que lhé ajudou a criar em Rio Branco, tem promovido reuniões semanais para discutir o assunto e está mobilizando-se para uma reunião em Brasília, nos próximos dias, com a bancada dos deputados acreanos na Câmara Federal. Élson conclui: a Warner Bros que se cuide!

Professor de Chico Mendes

Abaixo, uma nota da Confraria dirigida pelo Lhé condenando a posição da empresa de Hollywood pela descaracterização da imagem do herói-seringueiro tido como "professor de Chico Mendes".

"Vimos, por esta nota, repudiar a ação da empresa cinematográfica norte-americana Warner Brothers de não pagar indenização à família do sindicalista Wilson Pinheiro, do Acre, pelo uso da imagem de sua história, sem autorização, no filme Amazônia em Chamas, produzido em 1994.

"Ao contrário do que fez com a família de Chico Mendes, que foi consultada sobre o uso da imagem de sua história, também veiculada no filme, a Warner Bros recorreu da sentença dada em 2007 pela juíza Olívia Ribeiro, de Rio Branco (AC), mandando a empresa pagar indenização de R$ 200 mil à família de Wilson Pinheiro.

"A empresa cinematográfica recorreu da sentença e a ação não prosseguiu em grau de recurso, o que levou a família do sindicalista a decidir por uma nova ação judicial sobre o assunto.

"O sindicalista Wilson Pinheiro militou no Acre nas décadas de 1960 e 1970 contra a ação de fazendeiros e latifundiários, que tentaram expulsar seringueiros, índios e outros povos da Floresta Amazônica, para colocar em seu lugar a produção de bois.

"Considerado professor de Chico Mendes no sindicalismo em favor dos seringueiros acreanos, Wilson Pinheiro foi assassinado a tiros em Brasiléia, em dezembro de 1980, causando um grande clamor no meio rural do Acre, levando, inclusive, ao seu enterro, o então sindicalista e hoje Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

"Lula falou na ocasião para milhares de trabalhadores rurais da região, o que lhe rendeu um processo com base na Lei de Segurança Nacional por ter dito a frase ‘chegou a hora da onça beber água'".
Abrahim Farhat - Confraria da Revolução Acreana - Rio Branco, 19 de fevereiro de 2010

A bancada acreana na Câmara dos Deputados em Brasília poderá apoiar a família do líder sindicalista Wilson Pinheiro, morto em 21 de julho de 1980, em Brasiléia (AC), contra a empresa cinematográfica norte-americana Warner Bros, que não pagou direitos autorais para usar a imagem do sindicalista no filme Amazônia em Chamas, rodado no México em 1994.

O assunto entrou na pauta da reunião da bancada. No início de março, a assessoria do deputado federal Fernando Melo (PT-AC), coordenador da bancada em Brasília, participou no Ministério Público Estadual, em Rio Branco, de reunião da Confraria da Revolução Acreana com a família Pinheiro, na qual foi exposta a situação.
(pela transcrição, Antônio Marmo)

Nota: lembra-se que a frase de Lula foi interpretada pelos agentes de segurança da ditadura como um chamado à revanche. Dois ou três dias depois do enterro de Wilson Pinheiro um grupo de seringueiros cercou Nilo Sérgio, um capataz de fazenda que eles consideravam autor dos disparos contra Pinheiro e o mataram.

Já o Mapinguary é um ser mitológico das selvas amazônicas, que se assemelha a um grande macaco peludo com a boca no estômago e fedorento, que pode ser comparado ao Pé Grande canadense, ao Abominável Homem das Neves tibetano etc.

Pesquisadores antropólogos acreditam que a lenda do Mapinguary é baseada no contato que ancestrais amazônicas tiveram com os últimos representantes de preguiças-gigantes que habitavam as florestas, talvez ainda presentes na Amazônia. Houve até expedições para procurar o bicho.