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Flip da boa!

Flip da boa!

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Seção: Editorias - Categoria: Cultura
Escrito por Da Redação Qua, 01 de Fevereiro de 2012 00:00
O escritor foi lembrado à altura pelo amigo Antonio Cândido, que provocou risos e foi muito aplaudido

Em sua nona edição, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) foi marcada, como sempre, por celebridades, acrescida de boicote à italiana, causos e cachaça da boa para ajudar os desavisados autores estrangeiros a combater o frio intenso.

A conferência de abertura serviu de aperitivo e tira-gosto dos mais saborosos para o que viria durante os cinco dias em que o público se deliciou com as participações de expositores e debatedores do País e do exterior.

O professor e crítico literário Antonio Cândido, 93 anos, ao falar de “Mobilidade e devoração” lembrando o homenageado da vez, Oswald de Andrade, mais que uma palestra, fez o seu depoimento sobre o amigo.

“Sobrevivente” da geração 30 anos mais jovem que a de Oswald, Cândido descreveu o amigo como alguém que era de fato “móvel” - constante nas ideias, mas diverso e volúvel nas opiniões do dia-a-dia - e queria mesmo “devorar o mundo”, ou seja, interessava-se por tudo e por todos.

Muito aplaudido pela plateia, ao chegar e ao deixar o palco, Cândido contou inúmeras histórias da vida privada do escritor, descrevendo “traços da personalidade humana e literária” que, no mais das vezes, arrancaram boas gargalhadas do auditório lotado.

Causos

“Ele tinha o dom da expressão condensada”, definiu o conferencista. “Era capaz de concentrar significados em poucas palavras.” E contou um “causo” para ilustrar o dom. Nos anos 1940, quando se realizou em Belo Horizonte o II Congresso Brasileiro de Escritores, Oswald de Andrade não foi convidado. Ele fora excluído por Mário Neme, presidente da Sociedade Paulista de Escritores, que selecionara os membros da delegação paulista.

Furioso, Oswald passou a atacar Neme publicamente – e por escrito. Pespegou-lhe o apelido de “grão-turco de Piracicaba”, o que ofendia triplamente a vítima: por ter nascido em Piracicaba, Neme era, portanto, “um caipira”; por ser descendente de libaneses, que odeiam os turcos, devia ser chamado de “turco”; e por ser o tirano que impedira Oswald de participar do Congresso, só podia ser o grão-turco, que é como a imprensa da época se referia ao grão-vizir turco, um notório déspota. Extraordinário poder de síntese.

Cândido lembrou que até mesmo quando elogiava alguém, Oswald conseguia encaixar uma crítica a um desafeto – e os desafetos não eram poucos. Durante algum tempo, logo depois da publicação de “um ensaio muito severo sobre ele nos anos 40”, o próprio Antonio Cândido foi virulentamente agredido por Oswald.

“Tempos depois, publiquei uma crítica favorável e ele me procurou”, recorda Cândido, “e me disse: ‘Ataquei você com violência e você manteve a serenidade. Vamos ser amigos’. E nos tornamos muito amigos mesmo.”

Mas Oswald não teve a mesma sorte com Mário de Andrade, descoberto por ele. Brigaram, Oswald foi violento e Mário rompeu definitivamente: rechaçou todas as tentativas de aproximação do ex-amigo. “Quando Mário morreu, Oswald ficou desesperado, como me contou sua mulher, Maria Antonieta”, disse o professor.

“Meses antes de morrer, em 1954, Oswald me chamou à sua casa. Estava um dia frio como hoje em Paraty e ele estava à porta da casa, tomando sol. Disse que precisava me dizer o seguinte: ‘Mário de Andrade foi a maior figura do modernismo brasileiro e Macunaíma é o melhor livro modernista. É o livro que eu gostaria de ter escrito’.”

Cândido encerrou sua fala lembrando que Oswald “sempre viveu com alegria” e confirmou o título de um artigo de Ronald de Carvalho sobre o movimento modernista: “O claro riso dos modernos”. Era esse o riso de Oswald, que permanece, como observou Wisnik na palestra que se seguiu ao depoimento de Cândido (ler Vida ofuscou a obra), “extraordinariamente contemporâneo”.

A “devoração” proposta por Oswald em seu Manifesto Antropófago “não pode ser diluída pela absorção cega de influências”. Ao contrário, disse Wisnik, “a antropofagia oswaldiana propõe a permeabilidade cultural seletiva e rigorosa”. Ou seja, devorar, sim; mas com critério. E, de preferência, com muito humor. Afinal, como lembrou Antonio Cândido, “a literatura séria e alta não é incompatível com a alegria e com a brincadeira”.

Rara entrevista

Antonio Cândido é dessas pessoas raras, infelizmente, em nosso cotidiano. Às vésperas da Flip, permitiu-se dar uma entrevista (por entender que jornalista costuma não ser fiel ao que ele diz), que é possível encontrar em  http://blogs.estadao.com.brflip/2011/07/06/antonio-candido-fala-em-paraty/.

Um dos comentários postados no blog fala mais sobre este sociólogo, que é considerado o mais importante crítico literário do País, do que qualquer análise especializada:     

“Vê-lo falar é um deleite. Impressionante, porque do jeito que conta nos leva para a atmosfera vivida naqueles tempos e dá uma aula, como sempre das boas. Certa vez tive o privilégio de conversar com ele, uma pessoa extremamente amável e solícita. Foi ao acaso, em um elevador em que ele pediu-me ajuda para segurar algumas coisas e saímos pelo corredor.

“Segundos preciosos, pois é gostoso ouvi-lo falar, sempre com lucidez e clareza, qualquer que seja o assunto. Ele ia participar de um evento no Masp, com Chico Buarque de Holanda – uma homenagem a Sérgio Buarque de Holanda”.

Um outro blogueiro avalia:
“Cândido é o maior modelo de crítico e acadêmico. Os intelectuais podiam ter mais dessa mineirice, dessa serenidade criteriosa e dessas amizades”.

Diversidade Cultural

A presença estrangeira confirma a Flip como acontecimento da maior relevância no que diz respeito à diversidade cultural. A exemplo do escritor angolano valter hugo mãe, que só assina com minúsculas e levou a plateia ao delírio. Solteiro, 39 anos, manifestou a vontade de ser pai. Esteve em Paraty acompanhado de um amigo português, que é eletricista.

Sua Carta para a Flip fala por si:
“Quando eu tinha 8 anos veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. Ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. Foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. Eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. O meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. A ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. Eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.

Depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. Naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao Brasil, e todos queriam saber avidamente quem casava com quem na Gabriela.

A senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. Por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.

A minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. Passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. Ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.

As moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. As minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, faziam vénia e sorriam. Havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. Elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.

Um dia a minha imã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. Na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. Não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. Um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. Ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. Entendi que as brasileiras eram como um toque de Midas que me transformava num menino de ouro.

Aos dezoito, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do Brasil e ingressou na minha escola. Eu instintivamente corri atrás dele. Queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. Ele mostrou-me Titãs e Legião Urbana. Eu achava que o Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do Tempo perdido. Quando o Renato Russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o Tempo perdido. Eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.

O Alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. Adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. Nesse tempo, o Alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. Porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.

Hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. Eu, não. Fiquei para tio a escrever romances, e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. Sonhei sempre em vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido. Pois aqui estou, a Flip fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso”.

Entre crônica e ensaio

Já o músico escocês David Byrne preferiu soltar o seu lado de cronista ou ensaísta, como autor de Diário de Bicicletas. A sua decisão anunciada, de não falar de música (e muito menos tocar) em Paraty pode ter desagradado alguns, a princípio, mas a Mesa 16 da Flip agradou a todos. E – surpresa – não só, ou talvez nem tanto, pela carismática presença do ex-líder da banda Talking Heads, mas antes pelo lúcido discurso de seu parceiro de palco. O engenheiro e sociólogo Eduardo Vasconcelos, um especialista em transportes, acabou por arrancar mais palmas da plateia.

O Tour dos Trópicos, do qual participou, evocava o famoso Tour de France, cuja nonagésima edição ocorria simultânea à Flip. A alusão se justifica porque Byrne, além de ser um praticante há quase três décadas (desde antes das ciclovias) do ciclismo urbano, publicou no Brasil, no final de 2009, o seu livro pela Editora Amarilys.

São textos que, na opinião do jornalista cultural Alexandre Agabiti Fernandez, mediador do encontro, situam-se entre a crônica e o ensaio, reunindo as observações de Byrne, como ciclista, em Berlim, Sydney, Londres, Buenos Aires e outros lugares do mundo.

“Lado B das cidades”

Uma das grandes vantagens da bicicleta, segundo o músico, que também se dedica a temas como o transporte público e urbanismo sustentável, é que, com ela, pode-se descobrir o que ele chama de “o lado B das cidades”, numa referência às duas faces gravadas dos antigos discos de vinil. Isto significa, na prática, deter-se para ver de perto recantos, pessoas, ângulos novos da paisagem e pequenos eventos do dia-a-dia aos quais não prestaríamos atenção se estivéssemos andando mais rápido, dentro de um veículo motorizado.

“Claro que não componho canções quando ando de bicicleta”, disse, ao responder a uma pergunta do público. “Mas, por poder parar e observar as coisas de perto, tenho ideias inspiradoras.” Na opinião dele, Copenhague, Amsterdã e Berlim são as cidades mais amigáveis para o ciclista, mas ele prefere as menos organizadas, como Roma, Istambul e Salvador.

Além de defender o uso urbano da bicicleta, Byrne criticou os modelos de cidades baseados em altas torres, condomínios fechados e grandes autopistas, que criam “zonas mortas” e isolam as pessoas.

Na apresentação visual com que abriu a palestra, com imagens colhidas por ele próprio em diversos lugares do mundo, Byrne apresentou cenas impactantes do centro de cidades americanas. Em um desses casos, no início da tarde de um dia útil, não se via na rua mais do que duas ou três pessoas. “Provavelmente fumantes que desceram para fumar”, comentou.

Vasconcelos, que fez pós-doutorado em urbanismo nos Estados Unidos e mora em São Paulo, com seu discurso calmo e articulado, criticou o modelo urbano vigente no Brasil, e triunfante em São Paulo, que privilegia o automóvel em detrimento do ciclista e do pedestre. Ele acha, no entanto, que é possível “virar o jogo no segundo tempo”, ou seja, criar uma consciência de cidadania que atenue o caos do trânsito, revertendo aos poucos o demasiado uso do carro das classes mais altas da sociedade.

Ministra quer o Brasil mais lido lá fora

A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, ao falar na Casa da Cultura de Paraty, explicou como vai funcionar o programa do Ministério que apoiará a tradução de obras brasileiras no exterior.

A iniciativa prevê uma escala de investimentos ao longo de dez anos, começando com a cifra de US$ 635 mil em 2011 para totalizar US$ 7,6 milhões em 2020. As regras do programa ficam  disponíveis no site da Biblioteca Nacional.

Segundo a ministra, o momento é propício para um programa desse tipo. Ela acha que os europeus, sobretudo, demonstram um interesse especial pelo que acontece no Brasil, o que inclui a área cultural. “O português é um idioma muito falado, mas pouco conhecido”, ressaltou. Ana de Hollanda prevê que essa situação possa modificar-se, para melhor, em decorrência de  maior internacionalização de textos produzidos por literatos e pensadores brasileiros. A estratégia deverá contar, lá fora, com o apoio das embaixadas brasileiras, que serão incumbidas de contatar editoras e propor parcerias.

Esta palavra, parceria, foi usada com frequência não apenas pela ministra, mas também pelos demais componentes da mesa. Entre eles, Mauro Munhoz, diretor-geral da Flip; José Carlos (“Zezé”) Porto Neto, prefeito de Paraty; o príncipe Dom João de Orleans e Bragança, cuja família tem laços antigos com a cidade; e Galeno Amorim, presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN). Também presente no palco, mas sem fazer uso da palavra, a escritora Ana Maria Machado, secretária-geral da Academia Brasileira de Letras (ABL), que tem livros publicados em mais de 15 países.

Drummond é o próximo 

Munhoz inovou, ao anunciar na coletiva de encerramento da Flip o nome do próximo escritor homenageado pelo evento: em 2012, será Carlos Drummond de Andrade. Como lembrou o curador Manuel da Costa Pinto, Drummond trabalhava no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) quando Paraty foi tombada. “Eu tinha pensado em Graciliano Ramos para a décima Flip, mas as pedras de Graciliano têm muitas arestas e as de Drummond, mais arredondadas, são certamente mais apropriadas para esta celebração”, disse.

Munhoz também anunciou que a Associação Casa Azul, que organiza a Flip, prepara um livro comemorativo dos dez anos do evento. A cargo de Flávio Moura, que foi curador da Flip até o ano passado, a obra editará imagens captadas desde 2003.

O diretor-geral do evento festejou, ainda, a iniciativa da Prefeitura de Paraty, pelas calçadas que construiu às margens do Rio Perequê-açú, ideia proposta pela Casa Azul há 12 anos.

Neste ano, pela primeira vez, a Tenda dos Autores, a Livraria da Vila, a Tenda do Telão e um espaço novo, exclusivo para os parceiros e patrocinadores da Flip, foram alinhados ao longo do rio – e da nova calçada. “Gosto muito do novo espaço”, disse Liz Calder, a alma mater da Flip. Sem perder o aconchego do ano passado, acrescentou, a nova disposição das tendas ampliou substancialmente o espaço.

A Flip 2011 teve entre 20 mil e 25 mil visitantes.

Vida ofuscou a obra

Ao depoimento de Cândido seguiu-se uma apaixonada análise de Oswald por outro professor de Literatura, José Miguel Wisnik, este 30 anos mais jovem que o palestrante. Wisnik descreve Oswald como homem encantador e furioso, que “gostava de brigar e desbrigar”, cujo charme “desarmava as pessoas” e cujo humor sarcástico e ferino não conhecia limites.

Para Wisnik, Oswald tinha uma personalidade tão poderosa que se falava mais dele do que de seus livros – os quais, aliás, eram muito difíceis de achar. “Pelo menos até 1954, quando ele morreu, eu, que sou um rato de sebos e livrarias, só consegui encontrar um único exemplar de Serafim Ponte Grande à venda”, recordou o professor.

Nesse contexto, proliferavam as lendas sobre o homem e o escritor, entre elas a de que nomeara seu filho “Rolando Escada Abaixo” ou de que teria “sequestrado uma normalista no interior de Minas”.

Além do que, como Oswald era extremamente suscetível a críticas e como o poder esmagador de seu sarcasmo era conhecido (e temido), ninguém ousava escrever sobre seu trabalho. O resultado de tudo isso foi que a vida de Oswald ofuscou sua obra.
Foram necessários 30 anos para que a peça O rei da vela, um de seus textos mais importantes, criado em 1937, finalmente fosse montada, no Teatro Oficina, em São Paulo, por José Celso Martinez Corrêa Uzona.

O teatrólogo tornou ainda mais brilhante esta Flip, à frente do espetáculo Macumba Antropófaga, no encerramento em 10 de julho. A performance dos 22 atores do Teatro Oficina Uzyna, sob a direção de José Celso, foi na Tenda do Telão, de cujo interior, com parte das lonas laterais abertas, podia-se ver, ao longe, as montanhas da baía de Paraty. Aquele domingo cobriu-se de suave anoitecer e ofereceu uma variação de luz com certo efeito de encantamento sobre a movimentação intensa das moças e rapazes, quase todos seminus, que em suas idas e vindas arrastavam com eles um público que, empolgado, mas também indeciso, não sabia bem para onde devia olhar.

Pira e bisteca

No centro da tenda, um amplo quadrilátero de areia, como um terreiro de macumba, tinha ao centro uma pira que depois, acesa, transformou-se, por assim dizer, em uma churrasqueira. Dali surgiu a bisteca que, quase ao final do espetáculo, marcou o momento máximo do ritual antropofágico.

O impacto sobre o público não poderia ser mais intenso. No telão, de início, foram projetadas imagens associadas ao ambiente cultural da antropofagia, como a tela Abaporu, de Tarsila do Amaral, e o rosto do escritor Oswald de Andrade, o homenageado na Flip deste ano. Numa segunda fase do espetáculo, entretanto, ali apareciam as cenas captadas pela câmara operada pelos próprios atores. Os espectadores, se quisessem, podiam acompanhar o que se passava dentro e fora da tenda. Não houve, em nenhum momento, a possibilidade de assistir ao espetáculo comodamente sentado, como num teatro convencional. Quando as pessoas sentavam, Zé Celso, que circulava na tenda vestido de branco, com uma túnica plástica, insistia para que elas levantassem. Em seguida, o contrário. As pessoas se agitavam, em pé, e aí era a vez dos atores fazê-las sentar e pedir silêncio.

Essa alternância de ritmos marcou o espetáculo do início ao fim. No início da noite, muitos espectadores também tiraram a roupa e foram fazer companhia aos atores no centro do terreiro. O elenco distribuiu vinho e frutas.

Já perto das 8 horas da noite, três autores que tomaram parte da Flip compareceram à Tenda do Telão, acompanhados do curador, Manuel da Costa Pinto, com seus livros de cabeceira. A argentina Pola Oloixarac leu um trecho de Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov; o angolano valter hugo mãe recordou o início de Metamorfose, de Franz Kafka; e finalmente o poeta gaúcho Eduardo Sterzi recitou o poema Em “Creta com o Minotauro”, do português Jorge de Sena. Depois deles, vários dos atores do espetáculo subiram à mesma bancada, com o formato de uma bigorna, no centro do terreiro, para cantar ou apresentar trechos de outras obras literárias.

Vida inteligente no País

O italiano Antonio Tabucchi, convidado, não compareceu. Foi a sua forma de protestar contra a decisão da Justiça Brasileira de permitir a permanência do italiano Cesare Battisti no Brasil. No lugar dele, estiveram na Mesa 8 sobre “Ficções da crônica” o escritor Ignácio de Loyola Brandão e o psicanalista Contardo Calligaris.

A mulher de Tabucchi, Maria José de Lancastre, autora de livro sobre Fernando Pessoa, faltou a um debate sobre o português na Casa da Cultura. O pernambucano José Paulo Cavalcanti, autor de Fernando Pessoa, uma autobiografia, falou sozinho e deu show.

A constatação do colunista Ancelmo Gois, no Diário de S. Paulo, nos permite concluir que o italiano não fez falta, tamanha a diversidade de expositores e debatedores, entre eles, brasileiros notáveis.

O escritor João Ubaldo Ribeiro, baiano na origem, relançou na Flip Um Brasileiro em Berlim e O Feitiço da Ilha do Pavão. Foi outro show à parte.  

Esclareça-se que Ubaldo não fala alemão e seu santo não bate com o de Guimarães Rosa, que não está entre seus afetos. Não é um desvairado a ponto de dizer que não gosta de Guimarães Rosa ou que Guimarães Rosa não tem importância na literatura brasileira. Só que o santo não bate. Por exemplo, ele tem ódio mortal da palavra “estória” e certa vez fechou um livro de Guimarães Rosa logo que leu a primeira frase: “A viagem fora planejada no feliz”. Não leu mais nunca. Nunca mais leu Guimarães Rosa. Mas vamos ao que interessa.

O autor de Viva o Povo Brasileiro esteve na mesa sobre as “alegorias da ilha Brasil”, tema que desenvolveu com o jornalista Rodrigo Lacerda, em entrevista quase cronológica, abordando cada livro do romancista desde o primeiro sucesso, Sargento Getúlio, até o mais recente, Albatroz Azul.

Vida de sargentos

O sargento Getúlio do livro nunca existiu, mas a vida de Ubaldo esteve cheia de sargentos, o batalhão de sargentos do pai, que era chefe de Polícia em Sergipe ao tempo de Getúlio Vargas e, depois de Dutra, foi secretário de Segurança. Havia até um sargento Getúlio sim, que era um cabra muito macho, tão macho que podia até ser asseadinho e pintar as unhas com um esmalte branquinho. Quando esse sargento abria a túnica, lá estavam uma sovaqueira, um coldre de cada lado, um punhalzinho aqui, outro acolá, a cartucheira atravessada...

Era o favorito de Ubaldo porque sua mãe tinha medo dele. Já o pai tirava uma sesta sagrada todo dia depois do almoço. Até que um dia chegou o sargento Getúlio e disse para o filho acordá-lo: “pode acordar na minha conta”. Ubaldo foi acordar o pai. E a notícia era que seu padrinho, que era da UDN, tinha encomendado a morte do pai, que era PSD, e, se o matador não encontrasse o pai, a ordem era matar o filho mais velho – João Ubaldo! A partir de então, sargento Getúlio (o real, não o do livro) montava guarda ao lado da rede do pai.

Um dia o pai estava na rede lendo o jornal comunista A verdade, e a manchete dizia que ele – o pai – era “um lacaio de Wall Street”. Furioso, o pai queixou-se: “Dia desses mando queimar essa peste”. Ao seu lado, o sargento Getúlio anotou. Foi lá, desligou os hidrantes, bateu nos comunistas e quebrou tudo. “Vamos ter de botar a culpa nos integralistas”, lamentou o pai.

Produção intensa

Dos anos 1970 aos 1980, Ubaldo produziu intensamente, como lembrou Rodrigo Lacerda, e por ali já andava escrevendo seu grande romance, o Viva o Povo Brasileiro. E aqui é preciso esclarecer mais uma coisa: o autor do best seller nunca quis reescrever a história do Brasil. A gênese de Viva o povo está num prosaico episódio.

Ubaldo visitava o Rio, passou pela editora Nova Fronteira e encontrou Pedro Paulo Sena Madureira, que trabalhava lá e resolveu provocar o baiano: “Escritor brasileiro só escreve livrinho pequeno, para ler na ponte aérea!”.

Donde Ubaldo ofendeu-se e começou a escrever o livro cujos originais, quando prontos, pesavam – sim, ele pesou – 6,7 quilos. Portanto, repetindo: Ubaldo nunca quis reescrever a história do Brasil, nem defender os oprimidos, nada disso... quis, sim, em primeiro lugar, escrever um romance bem grande. Bem escrito e sobretudo grosso, para esfregar na cara do Pedro Paulo. No mais, o grande problema de Ubaldo para escrever romances é que os personagens raramente fazem o que ele manda. Ele quer que o personagem morra, não morre... quer que case, não casa... Uma vez achava que o personagem – mais de 40 anos, rico, bonitão e solteiro – era um homossexual enrustido. Não era, o homossexual acabou sendo outro. Ossos do ofício.

Inspiração “chequespeareana”

E ainda tem mais um esclarecimento altamente necessário: Ubaldo está convencido de que encomenda gera livro e cheque gera inspiração. Um dia, recebeu um telefonema de Alfredo Gonçalves, da Editora Objetiva, dizendo que estavam preparando uma coleção de livros sobre os sete pecados capitais. Tinham escolhido a preguiça para Ubaldo, que ficou indignado: só por que é baiano?.

Foi-lhe então facultado escolher seu pecado, e ele escolheu a luxúria, certo de que o projeto não passaria do telefonema, assim como o filme baseado no Viva o povo não passou de meia dúzia de almoços com meia dúzia de potenciais diretores que garantiam já ter tudo na mão para começar a filmar. Mas a fonte de inspiração para o livro sobre a luxúria – A casa dos budas ditosos – chegou com o contrato: um vistoso cheque! Que João Ubaldo logo embolsou para que a inspiração não se esvaísse.

Antes que chegasse ao fim o tempo previsto para a conversa, Rodrigo Lacerda fez uma última pergunta bem fácil: qual é o papel da literatura no cotidiano das pessoas? Ao que Ubaldo respondeu que, dados os longos anos de afeto que unem entrevistado e entrevistador, não poderia oferecer uma resposta adequada. E nada mais disse, nem lhe foi perguntado.

Palco? Balcão de padaria

Na Flip brilharam também as estrelas de Ignácio de Loyola Brandão e Contardo Calligaris. O escritor e o psicanalista conseguiram algo incomum, mas sempre bem-vindo numa feira literária: conversar sobre o palco, diante de centenas de pessoas, como se estivessem no balcão da padaria da esquina. Para deleite do público e na condução precisa do mediador Cadão Volpato, acostumado a criar essa atmosfera light, de bate-bola cultural, como apresentador do programa Metrópolis na TV Cultura.

Calligaris e Loyola concordaram em dois pontos importantes ao percorrer, com humor e descompromisso, diversos assuntos ligados à vida, à literatura e à política. O primeiro deles, ao falar da decisão do escritor Tabucchi, já citada: sem entrar em detalhes, ambos manifestaram seu apoio ao italiano, afirmando que se estivessem na posição dele teriam feito a mesma coisa. Foram aplaudidos com moderação.

A referência a Tabucchi, por conta do caso Battisti, serviu de gancho para Loyola lembrar os meses passados junto a ele em Pisa, na Itália, na década de 1970. Ele acompanhava nessa época a tradução para o italiano de seu Zero, então proibido pela censura brasileira, e cuja estrutura multifacetada, integrando diferentes planos narrativos, baseou-se no revolucionário Oito e Meio, de Federico Fellini. Perguntado por Volpato, em tom de brincadeira, se era verdade que teria visto esse filme “53 vezes”, Loyola respondeu: “Não, foram 108”.

Em diversas passagens de saborosa conversa de botequim, era difícil decidir se os dois convidados falavam a sério ou improvisavam para divertir a plateia.

Jogo de luz e sombra

O que vem ao encontro do segundo ponto de concordância entre eles: fato e ficção se misturam o tempo todo não apenas nos romances, mas também no que costumamos chamar de vida real. Nossas memórias pessoais, segundo a experiência de Calligaris como psicanalista, estão impregnadas de materiais fictícios que, por serem inverificáveis, na maior parte das vezes, tomamos como lembranças exatas do que vivemos ou presenciamos. Sobretudo no terreno sentimental, para ele, esse jogo de luz e sombra é a regra, não a exceção. “Os encontros amorosos são bailes de máscaras”, compara Calligaris. “E ninguém as tira. Quando as máscaras caem, é por acidente.”

Apesar dessas coincidências de opinião e do clima de sintonia cortês que conseguiram estabelecer no palco, Calligaris e Loyola deixaram bem claro as diferenças entre eles no terreno da crônica, que ambos escrevem regularmente para os dois maiores jornais paulistanos. “Como cronista, tento escrever textos que estejam mais perto da ficção do que do ensaio”, explicou o psicanalista, com seu sotaque milanês quase imperceptível.

Loyola, por sua vez, tem olhos voltados sobretudo para a cidade de São Paulo, na tentativa de capturar personagens anônimos e situações cotidianas. Ambos garantem que, no exercício da crônica, raras vezes escreveram textos negativos a respeito de outras pessoas e de suas obras. Mas Loyola, sempre em tom de blague, reconheceu ter aberto uma exceção para “Meia-noite em Paris”. Sentiu “ódio” por Woody Allen ter feito o filme que ele sempre quisera fazer. Isso desde quando, na década de 1960, começou no jornalismo como crítico de cinema em sua sempre lembrada Araraquara.

Cachaça certificada entre as delícias sustentáveis
Na Flip 2011 a sustentabilidade se fez presente de modo prazeroso, desde que se decidiu pensar os impactos ambientais da comida que consumimos e o princípio da gastronomia sustentável - ou “responsável” - ganhou forças em Paraty.

O Movimento da Gastronomia Sustentável foi criado com o principal objetivo de estimular os restaurantes a usar produtos dos agricultores familiares e de pescadores artesanais, incentivando a produção paratiense.

O uso de alimentos produzidos localmente diminui a emissão de poluentes, pois eles não precisam ser transportados por longas distâncias e favorecem a economia do município. Assim, ingredientes como peixe seco, aipim, banana-da-terra, cachaça certificada, pupunha e palmito imperial – todos orgânicos – passaram a fazer cada vez mais parte do cardápio dos restaurantes locais.

Durante a Flip, os restaurantes participantes do Movimento serviram pratos especiais, em homenagem aos escritores convidados. O Bistrô Casa do Fogo criou o “Viva o Povo Brasileiro”, filé de peixe flambado ao molho de frutas, farofa de mandioca e pupunha e camarões salteados, em homenagem ao imortal João Ubaldo Ribeiro.

Já o Voílà Bistrot, com seu “Paprikache da Pérola do Danúbio de Esterházy” (guisado de peixe fresco de Paraty ao molho de páprica e creme azedo, servido com palacsinta de banana-da-terra), homenageou o escritor húngaro Peter Esterházy.

Tudo sobre Garrincha

Descendente de família aristocrática, que esteve ao redor do poder desde o século XVI e caiu em desgraça nos anos 1950, com a ascensão do comunismo na Hungria, Esterházy, que nasceu em 1950 e nunca se beneficiou dos privilégios do nome da família, descobriu com horror, já adulto, que seu pai fora informante da polícia secreta durante os anos de regime comunista.

Esterházy lançou no Brasil seu livro sobre maremoto metafórico: sua mãe morreu e ele produziu Verbos auxiliares do coração. “A gente não consegue nem falar nem calar sobre a morte da própria mãe”, disse. “Talvez consiga escrever, o que também não ajuda.”

Um espectador perguntou-lhe a razão do título. A resposta imediata: “Porque é bonito”. A explicação mais longa: “Porque em húngaro não existem verbos auxiliares. O título significa que eu preciso do auxílio de palavras que nem sequer existem, o que combina bem com o tema do livro”.

Esterházy explicou sua “relação com a realidade ou entre ficção e não-ficção. Nem sempre, mas geralmente escrevo na primeira pessoa. Mas nunca pensei nisso como algo pessoal. Às vezes acho as palavras mais fortes do que a realidade. Isso funcionou bem para mim até receber as quatro pastas da polícia secreta sobre mim – todas manuscritas e claramente com a letra de meu pai, que era inconfundível e inimitável. Posso escrever o que quiser, mas aquele dossiê era muito mais verdadeiro e tinha muito mais poder do que minhas palavras”.

O húngaro, que fora visto no show de Elza Soares, guardou para o final do encontro uma outra revelação: nunca ouvira falar da cantora, mas sabe tudo sobre Garrincha – e foi por Garrincha que correu a ver o show, quando lhe contaram que ela fora sua mulher.

Revelou, também, que na Hungria é conhecido como “irmão de meu irmão”, um jogador de futebol. “Vou dizer algo terrível agora”, avisou: o irmão marcou um dos três gols que derrotaram a seleção brasileira num amistoso em Budapeste, em 1985.

Restou à plateia rir e aplaudir muito.