O homem das cavernas procurava um local seguro para se livrar das intempéries e de seus inimigos naturais. Hoje, o que se busca são ambientes saudáveis para viver. Uma construção pode até ser ecologicamente correta, mas não basta - o ideal é que ela seja sustentável. O que implica levar em conta aspectos ambientais, sociais e econômicos. Quem dá a receita é a arquiteta e urbanista Silvia Manfredi, diretora-geral da Associação Nacional de Arquitetura Bioecológica (Anab). Criada no País em 2005, a Anab Brasil atua de forma independente, mas com o respaldo e know-how técnico da Itália, país de origem da Associazione Nazionale di Architettura Bioecologica, com sede em Milão.
O correto é falar em construção - e não apenas edificação - porque é o que se ouve no mundo. Uma idéia que ultrapassa os limites da edificação e se estende a bairros e outros tipos de construção, como estradas e pontes sustentáveis. “Claro que se a construção for uma edificação, pode-se perfeitamente falar em edificação ou edifício sustentável”, diz Manuel Carlos Reis Martins, da Fundação Vanzolini.
Tripé da sustentabilidade
Com especialização em Gestão Ambiental e responsável pelo desenvolvimento de projetos e programas da Anab, Silvia detalha: “a construção sustentável é baseada no tripé da sustentabilidade, que significa ser ambientalmente correta, causando o menor impacto possível no meio em que está inserida; socialmente justa; e economicamente viável. Aspectos que devem ser levados em conta em todo o ciclo de vida do empreendimento, ou seja, no seu planejamento, construção, durante toda a sua vida útil e posterior demolição. E ir além: considerar também os impactos indiretos relacionados ao ciclo de vida dos produtos que utiliza, desde a extração da matéria-prima e demais impactos até a aplicação no local da obra”. Tarefa nada fácil, reconhece a arquiteta e urbanista.
Mas o Brasil já conta com sua própria certificação, desenvolvida pela Fundação Vanzolini em parceria com o Departamento de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Trata-se do Processo Aqua, que emite na reta final o selo de Alta Qualidade Ambiental (Aqua). É a versão tupiniquim do modelo francês, o Haute Qualité Environ- nementale (HQE), do Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB), o lado internacional da parceria.
O nível de uma certificação dessa importância no mundo soma-se à credibilidade da Fundação Vanzolini, “a maior certificadora brasileira”, lembra Martins. A preocupação da Fundação foi desenvolver algo que tivesse a cara do Brasil porque considera fundamental atender às demandas e particularidades do País, com arquitetura própria e normas técnicas específicas.
Três fases e 14 categorias
Martins, coordenador-executivo da construção sustentável - Processo Aqua da Fundação Vanzolini, explica em detalhes o passo a passo do processo:
> Antes de mais nada, o empreendedor deve definir o programa do empreendimento, desde as necessidades até o desempenho planejado em 14 categorias do referencial técnico. O que deve ser feito de “maneira justificada, coerente e viável”. É indispensável que o empreendedor “se comprometa com esse desempenho, adotando um sistema de gestão que permita atingi-lo e alocando os recursos necessários”. O passo seguinte requer do empreendedor e seus agentes avaliarem a coerência do desempenho planejado e submeterem essa avaliação à auditoria da Fundação Vanzolini. Esta constata o atendimento do referencial técnico e emite o certificado da Fase Programa, o que sai em 30 dias. “com isso o empreendedor já pode usar o certificado e a marca no lançamento do empreendimento.”
> A fase seguinte é a do desenvolvimento da concepção - o projeto - do empreendimento, para que a construção atinja os níveis de desempenho programados. “O empreendedor, por meio de seus agentes, avalia o desempenho especificado no projeto nas mesmas 14 categorias de desempenho, agora de modo mais objetivo.” É quando a Fundação Vanzolini audita essa avaliação e, se constatar o atendimento ao referencial técnico, emite o certificado da Fase concepção, também em 30 dias.
> A obra está pronta. O empreendedor faz a avaliação do desempenho da construção resultante do previsto no projeto e a submete à auditoria da Fundação Vanzolini. Esta verifica se o atendimento ao referencial técnico está satisfeito e emite o certificado da Fase concepção, em 30 dias.
Brasil na rede mundial
Martins adianta que a Fundação Vanzolini, como órgão certificador, desenvolve o referencial para avaliação do desempenho no uso e operação da construção para ser utilizado tanto por construções certificadas no Processo Aqua quanto por construções existentes que alcancem o que classifica como “desempenho mínimo”, previsto no referencial técnico, nas mesmas 14 categorias, devidamente adaptados para essas últimas. Desempenho que, de acordo com o coordenador-executivo, será mais fácil de obter em empreendimentos desenvolvidos no Processo Aqua.
O modelo escolhido pela Fundação Vanzolini coloca o Brasil numa rede mundial de 19 países, com predominância européia. Martins esclarece: “o Brasil está apenas no começo. o processo teve início na Europa, depois alastrou-se por Austrália e Nova Zelândia, logo após a Eco Rio-92, já como resultado prático das intenções da agenda 21. Mais tarde, os Estados Unidos entraram no bloco desses países, ao término daquela década. A Europa, de modo geral, sempre mostrou maior consciência ambiental”.
Silvia concorda e vai além, ao lembrar: “na Europa, onde a questão está bem avançada, já se constroem edifícios com emissão zero de carbono (que utilizam apenas energias renováveis e são altamente eficientes do ponto de vista do consumo de energia, conforto e qualidade dos ambientes), focados principalmente na saúde de seus usuários. no mundo todo se constroem também as chamadas eco-vilas, empreendimentos fundamentados na permacultura, por utilizar basicamente tecnologias naturais que não agridem o ambiente em que estão inseridas”.
Importância do conceito
A especialista diz que o País não chega a passar vergonha, devido a problemas e questões peculiares que tem de enfrentar e por estar ainda no início de uma tomada de consciência. Silvia reconhece que, mesmo assim, há iniciativas isoladas, louváveis pelo alcance delas no processo de conscientização que deve ser tanto dos profissionais envolvidos no setor como de toda a população. A diretora da Anab prefere ressaltar a importância do conceito, do qual faz breve histórico: “a partir da crise do petróleo, na década de 1970, veio a percepção de que o modelo de desenvolvimeto e de consumo, que persiste até hoje, baseado em fontes e recursos não renováveis, é insustentável para o planeta. Foi quando surgiu o conceito de desenvolvimento sustentável, e cada país e setor econômico começou a criar a sua agenda visando à sustentabilidade. a construção não poderia ficar de fora, pois é o segmento de maior impacto social, ambiental e econômico, seja pelo volume de negócios e de investimento, seja pelo consumo de recursos do planeta”. Silvia tem na ponta da língua os impactos negativos das edificações na vida das pessoas
Cases promissores
Unidades do serviço social do comércio (Sesc), na capital paulista e no interior do estado, estão entre exemplos de construções sustentáveis no País. Conceito que, para a instituição, é antes de tudo uma escolha: a de criar ambientes saudáveis. O que implica privilegiar uma arquitetura de baixo impacto ambiental que leve em conta não só questões técnicas, mas as relações humanas e trabalhistas, além, é claro, de respeitar o reaproveitamento e destinação de resíduos e a conservação de recursos naturais, entre outros critérios.
Quem esclarece é Luciano Ranieri, gestor de projetos, orçamentos e planejamento da Gerência de serviços de engenharia do Sesc, com a ressalva: “nosso conjunto arquitetônico teve inicio na década de 1940. A partir de 1990, todas as unidades vêm sendo adaptadas. Hoje, já possuímos dispositivos economizadores de água em todos os pontos de consumo. o aquecimento de água também nunca utiliza exclusivamente fontes diretas como a energia elétrica ou o gás; antes, a água é pré-aquecida utilizando sistemas solares, ou por troca de calor com a energia, rejeito daquela gerada no processo de condicionamento do ar”.
Luciano considera altamente positivo o fato de o Brasil contar com um método próprio de certificação - o selo Aqua -, que “se converte em especial vantagem para os casos de empreendimentos de revitalização ou onde as características de uso e ocupação do solo não permitem o total atendimento de ações predefinidas”. E adianta: “a futura unidade do Sesc Guarulhos, cuja fase de design e especificação foi iniciada neste ano, será o primeiro projeto para o qual pretendemos buscar certificação”.
Há mesmo edificações, como a agência do Banco Real na Granja Viana, em cotia (SP), que conquistaram a certificação segundo critérios dos estados unidos: o selo Leadership in Energy and Environmental Design (LEED). No mesmo caminho dessa conquista estão o edifício Rochaverá, no bairro paulistano do Morumbi, e a ampliação do centro de Pesquisa em Alta Tecnologia da Petrobrás (Cenpes), na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Ainda pouco para um país da magnitude do Brasil, mas sem dúvida um bom começo.
Impactos Negativos
* Nos Estados Unidos, as edificações são responsáveis por 12% do consumo de água; 39% das emissões de CO2; 65% da geração de resíduos; e 71% do consumo de eletricidade.
* Índices semelhantes aos brasileiros: 40% dos recursos naturais extraídos no País são destinados à indústria da construção civil; 50% dos resíduos sólidos urbanos são provenientes de construções e demolições; 50% do consumo de energia elétrica é destinada para operação das edificações.
* No mundo, os edifícios são responsáveis por 17% do consumo de água potável; 25% do consumo de madeira; 33% das emissões de CO2; 40% do uso de recursos naturais; e 40% do consumo de energia.
Fontes: United States Green Building Council (USGBC) e Fundação Getúlio Vargas (FGV) - União Nacional da Construção