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Entendendo a crise econômica mundial

Entendendo a crise econômica mundial

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Seção: Editorias - Categoria: Economia e Negócios
Escrito por Liane Uechi Qui, 29 de Janeiro de 2009 11:22
O cidadão se vê numa corrente de expectativas negativas que crescem à medida que notícias como demissões em massa, férias coletivas, cortes de investimentos, fechamentos de unidades, dentre outros, começam a entrar nos lares brasileiros, não apenas via notícias jornalísticas, mas também pela porta da frente. Apesar de tantos comentários, ainda há um desconhecimento do que gerou essa crise e dos seus reais impactos para a sociedade brasileira.

O economista e assessor do gabinete da reitoria da universidade Federal do Pampa, no Rio Grande do Sul, Eduardo Mauch Palmeira, traduziu para a revista Neo Mondo, os principais pontos referentes a essa crise sem precedentes.

Neo Mondo: Qual o fator responsável pela crise econômica? Onde começou?

EMP: Começou nos Estados Unidos, que demonstraram ao resto do mundo que a sua dita supremacia econômica e política não era tão sólida assim. A falta de transparência administrativa e a maneira como grandes empresas americanas demonstram seus pareceres contábeis, leva a crer que não existe seriedade por parte de seus dirigentes. O que causa estranheza, pois não faz muito tempo era comum escutarmos por parte da imprensa americana que o Brasil não era um país confiável contabilmente. Porém, um fato merece ser lembrado: a falência da Enron, então considerada uma potência empresarial, que em 2001 pediu concordata e, dez dias depois, o Congresso Americano descobriu que a empresa possuía uma dívida aproximada de 22 bilhões de dólares. Em diversos artigos, foi considerada a falência mais importante da história empresarial americana. A Enron era a sétima maior empresa dos Estados Unidos e uma das maiores empresas de energia do mundo. No Brasil, a Enron mantinha participações na CEG/CEGRio, no Gasoduto Brasil / Bolívia, na Usina Termoelétrica de Cuiabá, na Eletrobolt, na Gaspart e na Elektro. Isso nos leva a refletir sobre a atitude que tomou conta de milhares de investidores que, na busca de lucros rápidos e fáceis, apostaram em empresas que não foram capazes de corresponder às expectativas. O fato de que os bancos americanos financiaram seguimentos a descoberto, principalmente no ramo imobiliário, onde as classes menos favorecidas daquele país adquiriram imóveis sem ter condições de pagar, foi o estopim da crise.

Neo Mondo: Sendo assim, essa era uma crise previsível?

EMP: O Prêmio Nobel de economia de 2008, Paul Krugman, nos idos de 1997/98, já alertou sobre a formação de uma “bolha”, mas nem o governo americano nem as empresas acreditaram no brilhante economista. O resultado é essa crise que desencadeou não só os problemas no setor financeiro americano, mas também no segmento automobilístico, que há vários anos demonstra em seus balanços prejuízos. A teoria liberal de que o mercado se auto-regula é uma falácia. O certo é que não existe almoço de graça, alguém sempre irá pagar a conta, de uma forma ou de outra. Os economistas não possuem “bola de cristal” para prever o futuro, mas é possível dizer que o fim da atual crise financeira mundial está muito distante.

Neo Mondo: Por que a crise nos EUA se tornou internacional?

EMP: A crise tornou-se internacional em função da globalização imposta pelos EUA. Os americanos possuem um padrão de consumo em massa de produtos e serviços. Com a redução desse consumo, os EUA afetam o comércio globalizado, influindo diretamente no PIB - produto interno bruto dos demais países exportadores.

Neo Mondo: Por que as Bolsas de Valores foram afetadas?

EMP: Há uma história que ilustra bem o que aconteceu no mercado de ações. Chama-se “Os Burros e o Mercado”: “Uma vez, num pequeno e distante vilarejo, apareceu um homem anunciando que compraria burros por R$10,00 cada. Como havia muitos burros na região, os aldeões iniciaram a caçada. O homem comprou centenas de burros a R$10,00 e, como os aldeões diminuíram o esforço na caça, o homem anunciou que pagaria R$20,00 por cada burro. Todos, novamente foram à caça, mas os burros foram escasseando e os aldeões desistiram da busca. A oferta aumentou então para R$25,00 e a quantidade de burros tornou-se tão pequena que já não havia mais interesse em caçá-los. O homem então anunciou que compraria cada burro por R$50,00. Como precisava viajar deixou seu assistente cuidando dos negócios. Na ausência do homem, o assistente propôs aos aldeões: - Sabem os burros que o homem comprou de vocês? Eu posso vendê-los a vocês a R$35,00 cada. Quando o homem voltar da cidade, vocês vendem a ele pelos R$50,00 que ele oferece e ganham uma boa bolada. Os aldeões pegaram suas economias e compraram todos os burros do assistente. Os dias se passaram e eles nunca mais viram nem o homem nem o seu assistente, somente burros por todos os lados”. De modo semelhante, o mercado de ações foi afetado, diante da bolha imobiliária. Ocorreu uma epidemia de calotes e hipotecas cobradas que, por sua vez, fez com que os títulos ancorados nessas hipotecas, que circulam no mercado, despencassem de valor, gerando um ciclo vicioso que levou a uma crise jamais vista.

Neo Mondo: Há, nesse início de ano, uma previsão bastante negativa de desaceleração no crescimento. Esse ambiente pessimista, no Brasil, tem fundamento ou tem um pouco de “alarmismo”?

EMP: Os comentários são vários, mas creio que o Brasil está fazendo mais alarde do que o necessário. É claro que as dificuldades existem, mas o mundo inteiro vinha consumindo de forma exagerada, baseada nas regras de consumo dos EUA. O setor produtivo vai sentir o reflexo da crise mundial sim, mas se as empresas revisarem os seus planejamentos estratégicos, com certeza, passarão por esta crise e sobreviverão para colher bons frutos ao longo dos próximos anos.

Neo Mondo: Quais os setores da economia brasileira que mais serão atingidos?

EMP: Os setores automobilístico e de metal-mecânico, que por sua vez afetam os segmentos ligados a extração de minérios. Também é claro, o mercado financeiro, pois este reduziu a liberação de crédito, freando o consumo de bens e serviços. Mas acredito que os países emergentes sairão fortalecidos desta crise. A China há dez anos tem demonstrado um crescimento de 10% a 12% e deve agora reduzir a patamares de 6% a 7%, o que é aceitável. O grupo BRIC (Brasil-Rússia-Ìndia-China) não sofrerá tanto porque têm o consumidor interno. Embora os EUA sejam o maior consumidor mundial têm outros países que podem substituir, em parte, o consumo americano.

Neo Mondo: Medida como a demissão em massa, adotada por algumas empresas, é a melhor saída para enfrentar esse período de crise?

EMP: Não me parece à melhor opção, mas é sem dúvida a mais rápida e, por isso, normalmente adotada por nossas empresas. Todos os dias somos informados pela mídia sobre demissões e anúncios de férias coletivas que se multiplicam pelo mundo com a interrupção da produção e o fechamento de fábricas. Os EUA já eliminaram 1,2 milhões de vagas em apenas três meses. A Europa anuncia 10 mil novas demissões a cada dia. O mercado de trabalho entrou em recessão agravado pela escassez do crédito. Sem ele, são afetadas as duas pontas dinâmicas da economia: produção e consumo. Assim, o ciclo que empurra a economia – produção, emprego, consumo – entrou em colapso, e pode modificar a forma de pensamento econômico conhecida até hoje.

Neo Mondo: Os avanços sociais e ambientais poderão ser ameaçados pela crise?

EMP: Devemos observar que existe uma crise de sustentabilidade, onde o modelo imposto pelos EUA faz com que os países explorem os recursos naturais até exaustão. A visão que estes pregam é que os recursos do planeta estão aí para serem consumidos. Trata-se de uma visão utilitarista, em função de majorar a produção e os lucros, sem responsabilidade sócioeconômica-ambiental e nem respeito com as gerações futuras. A exploração da terra para novos biocombustíveis atinge diretamente a segurança alimentar de muitos povos. O acesso às fontes de vida (terra, sementes, água, biodiversidade) e aos recursos naturais (em particular os da energia) já é o maior risco de conflitos e guerras. A ONU publicou recentemente estudo que mostra que a falta de água cria o risco de conflitos em 46 países, o que leva a crer que a próxima crise poderá ser a da Água.

Neo Mondo: Como o Brasil e os brasileiros devem enfrentar essa crise?

EMP: Vamos situar a dificuldade onde ela é real. Não dá para estendê-la para o resto da economia brasileira. Esta crise atinge primeiramente as grandes empresas exportadoras. As pequenas empresas sofrerão com o efeito “dominó”, uma vez que estas são fornecedoras de serviços, peças, equipamentos, etc. Ela está impactada diretamente no mercado financeiro e o cenário ficou grave para os especuladores das Bolsas de Valores. Para o cidadão comum deixo uma mensagem que li há poucos dias: “Crise não existe! Desligue a televisão e trabalhe. Você se surpreenderá com os resultados”. Quem sabe assim podemos superar esse período conturbado? Sem esquecer que alguém vai lucrar e muito com estes acontecimentos.