... suas alegrias e suas dores também.
A cidade parece flutuar sobre a laguna. Sereníssima, como era chamada no período em que era uma das mais influentes repúblicas marítimas da Itália. Sobre suas águas navegaram grandes marinheiros, mercadores e exploradores, como um de seus mais ilustres filhos, Marco Polo. Shakspeare relembra a tradição mercantil da cidade em sua instigante obra O Mercador de Veneza, que nos remete a um passado de glória e poder.
E quem, ao ouvir falar de Veneza, não pensa logo em um passeio de gôndola por entre seus cerca de 180 canais? A água para os venezianos foi sempre fonte de prazer, luxo e riqueza. Sem ela, a cidade perderia sentido. A incrível laguna é, certamente, seu órgão vital, o seu coração.
Hoje, porém, a história recente de Veneza deixa no pretérito os requintes. Como dizem os italianos, nem tudo é rose e fiori. Problemas relacionados à água interferem nos negócios de turismo da cidade e afetam, principalmente, seus habitantes. São constantes os contratempos causados pela alta da maré, que em 2010 não deu trégua. Os mais evidentes estão relacionados aos danos às estruturas, à mobilidade interna e ao tráfego aquático.
No último Natal, por exemplo, o sacerdote da Basílica de San Marco chegou a adiantar o horário da missa, sugerindo aos fiéis calçarem botas de borracha. Isso porque bastam 80 cm de maré alta para alagar a catedral e, naquela noite, era previsto um aumento de 130 cm a partir da meia-noite - horário em que tradicionalmente é celebrada a Missa do Galo.
Marés preocupam
Para que a população não seja pega de surpresa, a Prefeitura criou, em 1980, um centro de controle e previsão das marés – Centro Maree. Ele fornece online informações sobre o nível das águas e também oferece dois sistemas de alarme em caso de acqua alta. Um deles é por meio de SMS, enviados aos assinantes deste serviço. Outro é por meio de um moderno sistema de sirenes. Neste ano, porém, na primeira noite de alta da laguna, o sistema apresentou falhas. Causa: falta de verbas para a manutenção.
Nunca como em 2010 a sequência de alta das marés foi tão dura em Veneza. A quantidade expressiva superou todos os recordes de maré acima dos 80 cm, até então. E não foi o único recorde do ano. O número de ligações ao centro de previsão superou a marca de 500 mil chamadas; foram 2,5 milhões de visitas à internet, mais de 1 milhão de SMS, e as sirenes de alerta acionadas 31 vezes.
O principal ícone de Veneza, a Praça San Marco, é um dos pontos que mais sofrem. A água invade o local cerca de 200 vezes ao ano e tem provocado sérios danos à pavimentação. A Prefeitura promete providenciar a realização de obras de elevação e impermeabilização da praça, com um custo na ordem de 50 milhões de euros. Mas terá de esperar pelo financiamento do Estado italiano. Enquanto isso, já abriu as portas a empresas privadas para o patrocínio de obras de restauração dos monumentos.
Além das fortes chuvas e do vento que empurra as águas do mar Adriático para dentro de Veneza, a elevação desmedida da laguna nos últimos tempos, segundo especialistas, tem ligação direta com o aumento do nível do mar, um reflexo do global warming. Em uma conferência da Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura (Unesco), organizada no final do ano passado em Veneza, o cientista italiano Paolo Pirazzoli disse que recentes estudos revelam que o mar poderá elevar-se de 1,40 m até 2100, com um mínimo de 50 cm e uma média de 80 cm - dado visto com maior probabilidade.
Cenário bem diferente do previsto, anos atrás, pelos especialistas do Ministério de Pesquisa Cientifica italiano, cujos dados reportavam um aumento em torno de 22 cm e até 31,5 cm como o número mais alarmante. Tais estudos foram efetuados para avaliação do sistema Mose. Trata-se do projeto gigantesco promovido pela capital italiana, hoje já em fase de construção, que prevê a realização de uma megaestrutura para barrar a entrada da água na laguna, em casos de maré alta.
Entretanto, Pirazzoli ressaltou a inadequação deste sistema em termos de longevidade e funcionalidade. “O projeto foi pensado para um aumento previsto do nível do mar entre 20 cm e 30 cm, marca hoje superada pelas previsões atuais. As barragens deverão estar sempre fechadas, e a água continuará a passar do mesmo jeito. O Mose poderá ser insuficiente para defender Veneza”, disse na ocasião.
Falta autonomia
Outra pedra no sapato dos venezianos é a falta de autonomia sobre o seu território. Dá para imaginar a onda de preocupação e perplexidade que atingiu a cidade, quando no início do ano uma voz anunciou a revogação de um decreto de 1904, o qual passava os poderes dos canais de Veneza da Prefeitura para o Estado. Mas tudo foi prontamente desmentido pelo ministro da Simplificação Normativa Roberto Calderoli, que assegurou que o Canal Grande, a principal via d’água e cartão-postal de Veneza, era e continuaria a ser uma jurisdição municipal. Meno male, porque a questão repropunha com força a delicada matéria das competências sobre as águas internas da laguna - uma questão polêmica em Ca’ Farsetti, sede do governo municipal.
Para se ter uma ideia, o jornal local La Nuova anunciou recentemente que o prefeito Giorgio Orsoni teria descoberto a existência de um projeto sobre as águas de San Marco lendo a notícia em suas páginas. “Se quisermos manter a cidade viva, devemos dar à Prefeitura plena autonomia sobre o seu território e capacidade de decidir o seu futuro. É também uma questão psicológica. Sobre grande parte das águas, nós não temos autoridade alguma”, declarou o prefeito.
O projeto em questão prevê a construção de um píer de 54 metros na baía de San Marco, com um espelho d’água de 2,5 mil metros quadrados destinados, ao menos até o momento, a dois iates de luxo. A proposta foi feita por uma sociedade privada à Autoridade Portual - entidade que decide sobre a concessão de utilização daquelas águas.
Não são somente iates que entram no golfo de Veneza. Petroleiros, porta-contêineres, balsas e navios de cruzeiro são visitantes assíduos de suas águas, já bem frequentadas por gôndolas, barcos-táxi, vaporetos e ferryboats. Em 2010, mais de 2 milhões de turistas entraram na cidade via mar. O mercado está em contínua expansão e levou o porto de Veneza a ser classificado como o primeiro home port do Mediterrâneo. Mas será que essa geração de riqueza justifica alguma coisa? Grupos engajados na preservação da laguna dizem que não. Segundo fontes locais, toda essa movimentação provoca efeitos danosos. As grandes embarcações movem milhares de toneladas de água e, sobretudo, sugam água dos canais, aumentando a erosão e danificando as suas margens.
É uma questão difícil. Mas as autoridades estão trabalhando em medidas que mantenham um equilíbrio entre as atividades produtivas e a conservação ambiental. De acordo com a entidade que realiza as obras do Mose, as barragens não defendem somente a cidade de Veneza, mas um ecossistema grande de 550 km quadrados - uma das zonas úmidas mais importantes do Mediterrâneo. E muitas ações para recuperar a morfologia e a biodiversidade da laguna já estão sendo efetivadas.
Projeto Mose é pioneiro no mundo
As discussões sobre como salvar Veneza dos alagamentos provocados pela maré alta começaram em 1966. Neste ano, a maré subiu quase 2 metros, provocando verdadeiro desastre. De lá para cá, o problema assumiu maiores dimensões, tornando-se mais intenso e frequente. Com o intuito de proteger a cidade desse fenômeno, que em 2010 sofreu grande intensificação, o governo italiano constrói gigantescas barragens móveis. Serão quatro no total, posicionadas nas três “bocas” de entrada da laguna: Lido, Malamocco e Chioggia. Este sistema, conhecido como Mose, é uma das maiores obras hidráulicas italianas dos últimos anos, e sua técnica não tem precedentes no mundo todo, nem mesmo tendo sido testada antes.
Inseridas no fundo do mar, as barragens entram em ação por meio de um sistema pneumático, desfrutando assim o princípio de Arquimedes. O ar é insuflado dentro de cada uma delas, fazendo com que a água que as mantém abaixadas seja expelida e, por consequência, elas se levantem. O que deverá acontecer todas as vezes que a maré atingir o marco de 1,10 metro.
“Veneza é uma cidade frágil, que necessita de manutenção constante”, diz o assessor municipal de Planejamento Estratégico, Pier Francesco Ghetti. A água salgada que invade a cidade causa danos à sua estabilidade, uma vez que possui efeito corrosivo sobre suas estruturas e alicerces. Além disso, provoca distúrbios de mobilidade interna que impedem os cidadãos de realizarem suas atividades normais. “Tivemos um número crescente de maré alta que leva a cidade a uma situação particularmente danosa e até folclórica. Os turistas ficam encantados com esse evento, pois lhes dá a sensação de que a cidade está saindo da água. Para eles é um fato único e se divertem caminhando com grandes botas de borracha sobre a água”, conta o assessor.
Mas a brincadeira é só para os turistas. Em base ao nível médio do mar, a água pode subir até 1 metro sem que invada as margens da cidade. Qualquer centímetro a mais, a água aparecerá sobre as estradas. Há mais um porém: nem todas as margens de Veneza têm a mesma altura. A Praça San Marco, por exemplo, fica embaixo d’água já aos 80 centímetros. Para resolver o problema, está em andamento um processo de elevação de todas as margens de Veneza à quota 100 centímetros (1 metro). Uma vez nivelada, o Mose fará o resto do trabalho.
O sistema já se encontra em fase avançada de construção (65% concluídos) e custará aos cofres públicos cerca de 4,5 bilhões de euros. Esta fortuna vai para o Consórcio Veneza Nova, concessionário único para a realização do projeto formado pelas principais construtoras da Itália. Veneza goza de uma lei especial, que lhe garante uma elevada verba do governo italiano para a manutenção do seu patrimônio. Entretanto, devido aos altos custos do projeto, parte desse dinheiro não chega mais, e áreas como a cultura ficam “a ver navios”. Motivo que gerou grande contestação nas esferas política e social na época de sua implementação.
Iniciado em 2003, o sistema torna-se indispensável para a segurança da cidade e deve ficar pronto em 2014. Com as previsões de mudança climática, a obra faz-se mais urgente. Mas o fato de ser uma iniciativa inédita no mundo levanta algumas questões sobre sua efetiva funcionalidade e durabilidade. Há a preocupação da parte de cientistas e grupos da comunidade civil quanto aos riscos de um mecanismo que permanece no fundo do mar - dando poucas possibilidades de correção e manutenção – e à sua capacidade de bloquear as marés, caso as previsões mais catastróficas se confirmem.
Mas o governo tranquiliza esses setores. Um verniz especial será utilizado para proteger as barragens das agressões do ambiente marinho. Além disso, garante que o Mose é capaz de proteger Veneza das marés de até 3 metros e foi projetado para enfrentar as mudanças climáticas que preveem aumento de até 60 centímetros do nível do mar nos próximos 100 anos. O problema, segundo o cientista italiano Paolo Pirazzoli, é que os últimos estudos revelam dados mais alarmistas, como a possibilidade de o aumento do nível do mar chegar a 1,40 metro. Caso em que o Mose não seria suficiente. Posição que reacende o debate sobre a grande obra: o Mose é irreversível, e as incertezas são muitas.