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Águas de janeiro, fevereiro e março...

Águas de janeiro, fevereiro e março...

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Seção: Editorias - Categoria: Especial
Escrito por Antônio Marmo Ter, 22 de Março de 2011 15:19
...carreando estragos nunca vistos e mortes. O pior é que nossos dirigentes reconhecem que não sabemos lidar com tais catástrofes.

Uma das revelações mais emblemáticas, vindas à tona com as tempestades que devastaram a região serrana do Rio de Janeiro no início do ano, mostrou que a casa à beira do Rio Preto, no sítio Poço Fundo, em Petrópolis, onde o maestro Tom Jobim compôs seu clássico “Águas de Março”, desmoronara com a força das enxurradas.

Daniel, neto do compositor, mostrou em vídeo e então todos passamos a rever a letra... “é pau, é pedra, é o fim do caminho, é o carro enguiçado, é a lama, é a lama, é a chuva chovendo, são as águas de março fechando o verão...”.

Claro, a letra vai além disso mas, como atesta o maestro, ”Águas de março” ou “chuvas da goiaba” em Minas, na verdade, fecham um ciclo milenar  que se abre entre novembro e dezembro carregando fenômenos naturais sempre presentes no cotidiano de um “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”.

No Norte do Brasil, na Amazônia, esse período se chama “inverno”. Aqui no Sul Maravilha, se diz “verão”, tempo de férias, que milhares de paulistanos “curtem” em cidades apelidadas de Ubachuva e Caraguatachuva, no Litoral Norte de São Paulo. 

“Intensidade progressiva”

No entanto, o que vem chamando a atenção, hoje, é a “intensidade progressiva” dessas águas. O que acontece quando tempestades seculares são vistas a cada dez anos e «a tempestade da década» se torna anual, perguntam-se os engenheiros ao verem suas estruturas desabarem sendo que os cálculos estão corretos?

Quantas estruturas chegarão aos limites de sua engenharia? Pois engenheiros e seguradores já enfrentam tais questões, diz matéria do jornal O Estado de São Paulo.

No entender do neto Daniel, as letras do avô Jobim “tinham algo de profético”. O rancho de Jobim certamente suportou outras enxurradas, e lamas mas não as deste início de 2011. Ali ele compôs também a canção  “Dindi”, onde lembra que “bandos de nuvens passam ligeiras num céu, tão grande céu”, depois de uma temporada de verão com muita água caindo na tranquila São José do Vale Rio Preto, enquanto o carro do amigo João Gilberto enguiçava na lama.

7 bilhões de litros

Em matéria publicada em Neo Mondo no ano passado, mostramos que num breve período de 2010, desabaram sobre a capital de São Paulo mais de 7 bilhões de litros d’água, somatória de 50 dias de chuvas contínuas. Difícil esquecer. Mas nos esquecemos rápido, até que em 2011 vieram outras chuvas e mil mortes pranteadas.

Falávamos desses 7 bilhões de litros desperdiçados enquanto os paulistanos ainda discutem um cenário de escassez hídrica na macrometrópole a curto e médio prazo, coisa para os próximos 15 anos. Por isso o Estado ainda pensa numa possível  transposição das águas do rio Paraíba do Sul, desencadeando atritos interestaduais.

Ocorrências triplicadas

Represas, edifícios e pontes costumam ser construídos para suportar “tempestades seculares” – algo tão épico que existe apenas 1% de chance de ocorrer por ano. E, como vimos, os engenheiros já se preocupam com o fato de que tais tempestades seculares são vistas a cada dez anos e “tempestades da década” se tornam comuns.

A empresa Munich Re, uma das maiores seguradoras do mundo, diz que eventos climáticos graves o bastante para danificar propriedades se tornaram significativamente mais frequentes desde 1980: a ocorrência de enchentes devastadoras triplicou, tendência quase acompanhada pelos furacões, tufões e tornados. Já o número de terremotos fortes – os quais se acredita que não são influenciados pela mudança climática – manteve-se estável.

Para os engenheiros, os novos padrões climáticos levam a difíceis perguntas sobre o tipo de fator de risco e segurança que deve ser calculado na elaboração dos projetos e se as antigas estruturas precisam de reforço.

O amigo José Antônio Marengo, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em Cachoeira Paulista, também  integrante do painel sobre mudanças climáticas da ONU,  assina em baixo: “as projeções climáticas para o futuro, feitas por modelos, mostram uma situação de aumento dos extremos”.

“O aumento da frequência de extremos é um processo natural, só que as atividades humanas estão acelerando esse processo. Algo que deveria levar centenas de anos está acontecendo em décadas”, explica. Ele calcula que nos próximos 20 anos pode acontecer um agravamento do que tem sido observado nos últimos 50 anos.

A gestão das inundações

“O Brasil não é Bangladesh. Não tem desculpa para permitir, no século 21, que pessoas morram em deslizamentos causados por chuvas.” Este é um alerta vindo de uma das maiores especialistas em desastres naturais e catástrofes no mundo, Debarati Guha-Sapir lembrando que o Pais já viveu 37 grandes enchentes em dez anos.

Se a mera observação empírica de um jogador de sinuca no boteco bate com dados da observação científica de Marengo, já citado, o mesmo parece não ocorrer com a reação dos responsáveis pela gerência das consequências desses fenômenos cada vez mais frequentes.

Também Margareth Walstrom, representante número um da ONU para prevenção de desastres, faz o alerta: “o desastre na região serrana do Rio de Janeiro pode ser o tsunami político do Brasil”. Documento do próprio governo brasileiro encaminhado à ONU aponta falta de preparação para responder a catástrofes naturais.

Algo semelhante foi dito também pelos jornais ao redor do mundo. O correspondente Jean-Pierre Langellier do Le Monde não poupou o descaso das autoridades brasileiras e críticas à falta da implantação de uma política de prevenção das enchentes. O mesmo foi dito pelo New York Times.

24 horas de governo
Quando o furacão Katrina atingiu Nova Orleães, o que se descobriu foi que o grande problema era a capacidade do Estado de reagir com rapidez. Mas nossos dirigentes aqui não se dão conta, ainda, da gravidade do desafio.

Em entrevista de recém-empossado, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, saiu-se com uma daquelas frases memoráveis que fazem a alegria dos jornalistas: “obras contra enchentes não ficam prontas em 24 horas”. 

“Ora pois... é a terceira vez que ele assume o Governo e se terminá-lo em 31 de dezembro de 2014, terá sido o segundo governante há mais tempo no poder, só perdendo para o histórico Ademar de Barros”, comentou Sylvio Micelli no portal Transparência São Paulo.

E continua: “pior ainda… Alckmin não pode alegar que herda uma “herança maldita”, afinal o seu partido está no governo de São Paulo há 16 anos e, ao final de seu mandato, terá completado duas décadas”.

No dia 2 de março, após as sempiternas chuvas paulistanas, o mesmo governador culpou de novo quem pelo transbordamento dos rios da capital? Ora, só pode ser “a intensidade das chuvas”.

Mas, claro, não é só a intensidade das chuvas. Ou como o próprio governador reconhece, são também as ocupações de várzeas e a falta de novos piscinões.

Estudos demonstram que, embora obras desde a década de 80 tenham rebaixado o leito do rio Tietê, implantado várzeas e construído piscinões, aumentado a profundidade e a largura, ao custo de R$ 2 bilhões, sua capacidade de receber água (vazão de até 1.100 m3/segundo) ainda é bem inferior a vazões frequentes na época de chuvas intensas, que podem chegar a 1.750 m3/segundo.

Só 50 dos 134 piscinões previstos foram concluídos. Sem falar que é quase impossível controlar o volume de sedimentos carreados por grande parte dos 70 rios, córregos e afluentes que estão sob o asfalto, como lembra o jornalista Washington Novaes. Alckmin prometeu ampliar trabalhos de desassoreamento.

“Situation room”

A Agência Nacional de Águas (ANA) diz contar com uma “sala de situação”, nome pomposo copiado dos presidentes americanos para o que seria um centro de gerenciamento ou “gestão de situações críticas a subsidiar a tomada de decisões, através do acompanhamento das condições hidrológicas dos principais sistemas hídricos nacionais”.

Isso está no site da agência. Tal “sala” é gerida por uma Superintendência de Usos Múltiplos” (SUM). O objetivo seria “identificar previamente possíveis ocorrências de eventos críticos, permitindo a adoção antecipada de medidas mitigadoras.”

Tanto a ANA como o jogador de sinuca no boteco constatam que “o Brasil tem registrado um número cada vez maior de desastres e, como consequência, os danos e prejuízos resultantes repercutem diretamente no desenvolvimento nacional”.

Um organograma bem desenhado liga a “sala” com uma Superintendência de Gestão de Informações, com outra Superintendência de Administração de Rede Hidro-meteorológica, que administra uma rede telemétrica de dados, a gerar alertas hidrológicos a serem repassados aos meios de comunicação.

Mas com todo este aparato, ninguém avisou os 1.500 mortos na região serrana do Rio sobre o transbordamento do Rio Preto, cantado nas “Águas de Março” de Jobim.

O jornalista Augusto Nunes, em seu blog,  conclui com coice direto: “No dia em que um prefeito, olhando as nuvens no horizonte, enxergar a mais remota possibilidade de ir para a cadeia pelas mortes que poderia impedir e incentivou, as cidades brasileiras deixariam aos poucos de ser quase todas, como são, feias, vulneráveis e decrépitas”.

“Não tem desculpa”

O que segue são trechos de uma entrevista da indiana Debarati Guha-Sapir ao jornal O Estado de São Paulo em 14 de janeiro:

ESTADÃO: Como a senhora avalia o drama vivido no Brasil?
Debarati Guha-Sapir: Não sei se os brasileiros já fizeram a conta, mas o País já viveu 37 enchentes, em apenas dez anos. É um número enorme e mostra que os problemas das chuvas estão se tornando cada vez mais frequentes no País.

ESTADÃO: O que vemos com o alto número de mortos é um resultado direto de fenômenos naturais?
Debarati Guha-Sapir: Não, de forma alguma. As chuvas são fenômenos naturais. Mas essas pessoas morreram porque não têm peso político algum e não há vontade política para resolver seus dramas, que se repetem ano após ano.

ESTADÃO: Custa caro se preparar?
Debarati Guha-Sapir: Não. O Brasil é um país que já sabe que tem esse problema de forma recorrente. Portanto, não há desculpa para não se preparar ou se dizer surpreendido pela chuva. Além disso, o Brasil é um país que tem dinheiro, pelo menos para o que quer.

ESTADÃO: E como se preparar então?
Debarati Guha-Sapir: Enchentes ocorrem sempre nos mesmos lugares, portanto, não são surpresas. O problema é que, se nada é feito, elas aparentemente só ficam mais violentas. A segunda grande vantagem de um país que apenas enfrenta enchentes é que a tecnologia para lidar com isso e para preparar áreas é barata e está disponível. O Brasil praticamente só tem um problema natural e não consegue lidar com ele. Imagine se tivesse terremoto, vulcão, furacões…