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No topo do mundo

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Seção: Editorias - Categoria: Esportes
Qui, 22 de Janeiro de 2009 14:01
GEEU
A primeira entidade de escalada em ambiente universitário do Brasil, a GEEU (Grupo de Escalada Esportiva da Unicamp) há 17 anos vem formando grandes escaladores, alguns com renome internacional. O GEEU mantém em funcionamento um muro de escalada, com o propósito de democratizar e estimular a prática do esporte, tornando-se uma opção barata de escalada em resina no Brasil. Qualquer um pode se filiar ao grupo, independente de vínculo com a universidade. Há inclusive um “estágio probatório” inicial, para o futuro escalador decidir se quer ou não ingressar no grupo, gratuitamente. A prática em ambientes artificiais tem sido a porta de entrada para muitas pessoas nesse mundo das alturas.

Enfrentando fortes rajadas de vento e sob temperaturas extremamente baixas, vencendo o gelo, a altitude e o cansaço de dois meses de caminhadas montanha acima, uma dupla brasileira atingiu em maio, o ponto mais alto do Planeta, o Everest (que está a 8.850 metros do nível do mar). O sabor da conquista de um feito considerado de alta dificuldade e risco como esta, agrega outras lições também valiosas, que incluem o fortalecimento da paixão pela natureza e a valorização de pequenas coisas essenciais na vida. Os responsáveis por colocar as cores verde e amarela no topo do mundo foram Rodrigo Ranieri e Eduardo Keppke. Ambos praticam um esporte que a cada ano ganha novos adeptos no Brasil: a escalada.

A escalada é uma atividade esportiva, que ao contrário das demais não está muito relacionada à competição e rivalidade entre as pessoas. Mas a diferença pára por aí, pois há nessa prática outros fatores inerentes ao esporte, como a superação, a obstinação, as regras “do jogo”, as diversidades de modalidades, a necessidade do conhecimento técnico, do preparo físico e psicológico, dentre outros aspectos. A escalada envolve um fator a mais, que inclusive é apontado como responsável por conquistar grande parte de seus praticantes: o contato com a natureza de uma forma tão peculiar, que torna irresistível a integração e o profundo respeito ao meio ambiente.

Davi Marski, que escala há 20 anos, com experiência em montanhas da Europa e América do Sul, explica que escalada é um termo genérico que engloba vários modalidades diferentes, como o montanhismo, o bouldering (escalada de blocos ou falésias com alguns poucos metros de altura), o alpinismo e ainda a escalada em muros artificiais (única modalidade competitiva reconhecida pela União Internacional de Associações de Alpinismo -UIAA).

Cada tipo de escalada demanda um comprometimento específico. “Na escalada competitiva, o nível técnico e a forma física do escalador são diferenciais importantes, já na escalada tradicional, o estado psicológico e a forma de lidar com os próprios medos e anseios são cruciais. Na escalada de alta montanha, a excelente forma física, resistência aeróbia e determinação em atingir os objetivos são realmente importantes, assim como conhecimento técnico e a experiência” – disse Marski.

Ranieri considera a prática da escalada uma atividade essencialmente coletiva, que exercita o companheirismo e o trabalho em equipe. Para ele, a atividade extrapola o esporte e traduz-se num estilo de vida, do qual o grande prazer está em obter o equilíbrio entre a técnica, o preparo físico e o psicológico.

Keppke, por sua vez, independente da modalidade, é uma atividade que exige a superação de dificuldades. O autoconhecimento passa a ser um atributo do atleta, que precisa conhecer seus limites e saber até onde é possível ultrapassá-los, sem colocar em risco a vida. “Toda atividade esportiva tem algum risco, por isso é necessário dominar a técnica, utilizar corretamente os equipamentos de segurança e respeitar as forças da natureza. Para atingir o cume, precisamos da autorização da montanha” – disse ele, referindo-se às horas, às vezes dias, de espera dentro da barraca, aguardando a “janela”, quando as condições climáticas se tornam propícias para avançar na montanha.

Vivência & Consciência

O que fica, dessas experiências são valores subjetivos, como o companheirismo, a valorização de coisas simples e importantes. Os praticantes ganham novas lentes para enxergar o mundo e conhecer a si mesmo.

A motivação do escalador está muito relacionada ao sentimento de superação pessoal. Marski acredita que na escalada esse é um fator decisivo, e que se dá através de conquistas graduais, a partir de pequenos desafios. À medida que os conhecimentos da técnica e dos limites do próprio corpo se desenvolvem é possível ampliar o contato com os diferentes ambientes naturais que o esporte proporciona. “A escalada resgata o anseio natural da espécie humana de se deslocar, conquistar, superar seus próprios medos e dificuldades. É um aprendizado constante. Cada escalada é única. O que conta são os companheiros e o ambiente de magia que tornam essas experiências tão significativas” – explicou Marski que resume esse sentimento como: “Quanto mais alto você sobe, mais longe você enxerga!”.

Esse “enxergar longe” tem um sentido maior. O contato íntimo com a exuberância da natureza, matas, rochas, montanhas, gelo, nascentes e cachoeiras, grandes altitudes e baixas temperaturas promovem uma nova percepção na forma de viver. “Não é possível respeitar sem conhecer. A quase totalidade dos escaladores busca um ambiente de harmonia, sinergia e equilíbrio com o meio natural. Somos parte deste mundo, e dessa forma é conseqüente que busquemos preservar, respeitar e propagar o respeito pelo meio-ambiente”.

Ranieri e Keppke concordam e engrossam o coro afirmando que nessa atividade vive-se momentos impactantes, de alegria e de dor, de sofrimento e superação, de privações e superações, que provocam grandes mudanças na forma de ver as coisas. As experiências coletadas nas escaladas aos maiores e mais difíceis picos do mundo, garantiram a Ranieri uma percepção clara do que realmente tem valor na vida. Em depoimento gravado durante a última expedição ao Everest, ele relata: “Quando passamos por grandes dificuldades, como nessa expedição, onde temos além da saudade, a privação de sono, de alimentos adequados, de banho, entendemos o valor de uma cama limpa, da água quente, de uma boa comida e do abraço da pessoa amada. Percebemos que precisamos de pouco para ser feliz” – disse ele.

O BRASIL NO TOPO DO MUNDO

Rodrigo Ranieri e Eduardo Keppke alcançaram o pico do Everest, pela face sul (Nepal), em 27 de maio de 2008. A façanha, que já levou a morte diversas pessoas, continua a fascinar escaladores, devido às inúmeras adversidades que se impõe a essa tarefa. A dupla levou dois meses na montanha, subindo em etapas, para aclimatização, conforme um plano que precisou considerar a logística e a estratégia de “ataque” ao cume.

Na última etapa, no dia da investida final, sob intensas rajadas de ventos e baixas temperaturas, foram 17 horas de caminhada do Acampamento 3 (8.000 metros) até o cume (8.850 metros de altitude). Permaneceram no topo do mundo por cerca de 45 minutos e caminharam mais cinco horas até chegarem de volta ao C3.

Dentre as principais dificuldades que enfrentaram além das já previstas como: falta de oxigênio, em função da altitude (acima dos 8.000 m existe apenas 30% do oxigênio existente ao nível do mar), frio rigoroso, ventos cortantes, riscos de avalanches, de congelamentos das extremidades como nariz e mãos e o desconforto de uma barraca, precisaram lidar ainda com o extravio de bagagem, roubo de alimentos (gel de carboidrato) nos acampamentos mais avançados, burocracias nas documentações de autorização de escalada...Enfim, foi uma expedição difícil, mas vitoriosa.

A intenção de Ranieri era alcançar o cume sem auxílio de O2 suplementar (oxigênio engarrafado em cilindros), porém quando estavam no acampamento avançado, as previsões de tempo indicaram ventos de 60km/h e temperatura de -50ºC no cume da montanha. Por segurança, Rodrigo decidiu subir usando O2. Eduardo Keppke que já escalou cinco dos sete cumes* tinha optado, desde o início da expedição, pelo uso de O2.

Ranieri conta que está foi sua terceira excursão à montanha mais famosa do mundo. Nas duas primeiras não atingiu o cume. Em 2005, faltando apenas 50 metros para o objetivo, decidiu retornar ao acampamento para que a dupla não corresse risco na descida (trecho em que ocorrem os maiores problemas envolvendo alpinistas). Sua atitude foi considerada de grande amadurecimento por reconhecer os próprios limites e tomar a decisão acertada. É essa consciência corporal que muitas vezes salva vidas. Em 2006, desistiu do “ataque ao cume” logo após a perda do grande amigo e companheiro de excursão, Vitor Negreti, que ao iniciar a descida, após atingir o cume, passou mal e morreu na montanha. Uma perda trágica que ainda afeta Ranieri. Em 2008, finalmente, subiu ao pódio mais alto desse esporte.

SETE CUMES*
O desafio dos Sete Cumes do Mundo é a escalada das maiores montanhas de cada um dos continentes em que os alpinistas dividem a Terra.

Everest – 8.850 m, na Ásia;
Aconcágua – 6.962 m, na América;
McKinley (6.193 metros), no Alasca;
Kilimanjaro (5.895 metros), na África;
Elbrus (5.641 metros), na Europa;
Carstensz (5.039 metros), na Oceania;
Maciço Vinson (4.897 metros), na Antártida


Sites para consultas sobre o tema:

www.geeu.wsystem.com.br
www.marski.org
www.rodrigoraineri.com.br