Ouve-se um barulho estridente e inconfundível. É a luta entre a água doce que corre forte pelas curvas do rio, contra a imensidão do mar. Após um período, finda o barulho e logo se pode ver o mar enfurecido empurrando o rio, que sobe resistente em direção à sua nascente, dando origem à pororoca.
Nesta batalha entre as águas, formam-se ondas que podem chegar a até 6 metros, a uma velocidade de aproximadamente 30 km/h. Um paraíso para corajosos surfistas que ousam conhecer de perto um dos mais temidos encantos da natureza Amazônica.
Formada pela mudança das fases da lua, mais intensamente nos períodos de lua cheia e nova, ela aparece diariamente apenas uma vez durante cinco dias, o que a torna ainda mais almejada.
Intrigante e perigoso, desde 1997, quando Guga Arruda (SC ) e Eraldo Gueiros (PE), surfaram pela primeira vez a pororoca no rio Araguari (AP), o fenômeno tem atraído surfistas de todo mundo que desejam sentir a adrenalina de deslizar sobre o duelo do rio contra o Atlântico.
Para Serginho Laus, recordista mundial de permanência na pororoca, a sensação é incrível. “Estamos no meio da floresta, em um fenômeno que proporciona percorrer distâncias nunca imaginadas antes. Essa é a onda mais longa do mundo e surfar por 15 ou 30 minutos, sem parar, é comum. Mistura adrenalina com medo e ansiedade com alegria”.
De aventura à competiçãoDois anos após a pororoca ser surfada pela primeira vez, foi no município de São Domingos do Capim, a 130 quilômetros de Belém onde a prática se consolidou como Surfe na Pororoca. Desde então, a Secretaria de Estado de Esporte e Lazer - Seel, em parceria com a prefeitura de São Domingos do Capim, organiza o Festival de Surfe na Pororoca que acontece no primeiro semestre do ano e busca valorizar o esporte e a cultura da região. Durante o Festival são classificados apenas os atletas locais que garantem vaga no Circuito Nacional de Surfe na Pororoca.
Segundo o secretário de Esporte e Lazer do Pará, Carlos Alberto da Silva Leão, a prática do surfe abriu caminho para o turismo na região e para o incentivo de outras modalidades esportivas. “Hoje temos o Projeto Navegar que atinge cerca de 1400 crianças e adolescentes, que praticam: vela, canoagem e remo. Isso possibilita uma nova política de esporte no governo do Estado” – diz.
De acordo com o responsável pela Federação Paraense de Surfe, Roberto Eduardo Bastos Lisboa, São Domingos do Capim “ganhou uma estrada de 60 km toda asfaltada e muito dinheiro é internalizado no município durante as competições. Nos outros Estados acredito que esteja acontecendo o mesmo. Localidades que mal apareciam no mapa, agora têm destaque por causa da pororoca”.
Laus, que também é presidente da ONG Maré Amazônia, destaca que o maior benefício para as regiões onde acontece a pororoca, foi o intercâmbio cultural entre o Brasil e mundo. Além disso, possibilita uma renda extra nos períodos de grandes marés.
PerigosÉ preciso ter cautela e uma equipe de apoio especializada para surfar na pororoca. Laus dá as dicas:
Os principiantes devem ter um nível de surfe médio para conseguir controlar o seu equipamento (prancha) em situações de perigo, como: desviar de um pedaço de pau, tronco, plantas e etc;
É preciso estar com pessoas que conhecem muito bem o local e que estejam com equipamentos de primeira qualidade para não ficar perdido no meio da floresta.
Hoje em dia o surfe na pororoca está acessível para qualquer pessoa, basta estar acompanhado por profissionais dessa área para não correr riscos desnecessários.
| Maré Amazônia |
Com o objetivo de levar uma consciência de preservação e incentivar a prática esportiva, a ONG Maré Amazônia ensina práticas sustentáveis para a população local. “Procuramos sempre levar uma consciência ecológica para a população ribeirinha, que muitas vezes não se preocupa com a questão do lixo e muito menos com a coleta seletiva” – destaca Laus.
A ONG também ministra palestras sobre a importância de preservar a região do entorno da pororoca e tem treinado surfistas locais para a inclusão na nova modalidade esportiva.
“O surfe na pororoca é perigoso. E por isso existe a dificuldade de adeptos mas já estou com um projeto em que podemos utilizar algumas partes da pororoca para criar um centro de treinamento e assim formar surfistas ribeirinhos. Já estou trabalhando com dois e o resultado está sendo positivo, esse experimento em breve deve se estender a outros locais. Mas hoje em dia apenas surfistas de outros estados e do exterior é que praticam com mais domínio o surfe da pororoca” – ressalta Laus. |