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Uma onda do bem

Uma onda do bem

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Seção: Editorias - Categoria: Esportes
Sex, 09 de Janeiro de 2009 14:14
Após vendar os olhos de modo a não permitir nenhuma fresta de luz, o surfista e professor Francisco Alfredo Araña, o Cisco, pega sua prancha e entra no mar, no Posto 2, em Santos. Ele não está tentando vencer nenhum desafio ou aposta. Está buscando subsídios técnicos para aperfeiçoar uma aula de surfe muito especial, para um novo aluno, Valdemir Pereira Correa, pessoa com deficiência visual.


Na água, pôde então perceber que o senso de localização teria que ser a primeira lição a ser ensinada, pois garantiria a confiança e a independência, necessárias ao praticante de esportes aquáticos. Os sentidos estavam alertas para a direção do sol, os refluxos da maré, o som das ondas. O tempo entre cada onda da série, bem como dos intervalos das séries, os sinais do vento, importantes na formação das ondas e assim por diante. Entendeu quais as necessidades de marcações na prancha, para permitir maior agilidade de localização do centro de gravidade, facilitando a execução dos movimentos corretos. Também foi diagnosticada a necessidade de uma sinalização sonora, para localização da prancha. Assim, numa simbiose que unia a percepção e a experiência, foi criada uma metodologia inédita para apresentar a modalidade ao novo aluno.

Porém, mais do que ensinar a praticar surfe, o professor, estimulou Valdemir a acreditar nas suas possibilidades, a superá-las e a fazer valer seu direito de inserção numa sociedade que ainda exclui as diferenças. Araña é o idealizador e coordena dor da Escolinha Radical, mantida pela Prefeitura de Santos, em parceria com algumas empresas da cidade. Foi a primeira do gênero no Brasil e hoje, após 16 anos, é uma referência nacional. Já formou atletas de surfe e bodyboard de destaque como Giovani Ferranti, Camila Ventura, Fred Polack, Irapagi Caetano, Nildo de Souza, dentre outros.

Com tantos campeões, poderia ser mais uma conceituada escolinha de surf, mas sua atuação transcendeu a prática esportiva e é hoje um bem sucedido programa de inclusão social, onde a diversidade é a regra e não a exceção. "Nossa escola é um mosaico" - disse Irapagi Caetano, ex-aluno e atual professor. Ele próprio se considera um exemplo vitorioso de inclusão. "Minha família não tinha condições financeiras de custear o esporte. Eu não podia comprar nem a parafina, imagine a prancha." - disse ele. Atleta de bodyboard, Paji, como é mais conhecido, diz que deve tudo ao surfe. O esporte o estimulou nos estudos, proporcionou viagens pelo Brasil, onde criou seu círculo de amigos. Dando aulas na escolinha, concluiu a faculdade, comprou seu apartamento e carro. Segundo ele, o mais importante foi aprender e viver a mais valiosa das lições: "doar abundantemente com o coração, sem esperar nada em troca" - disse.

E são com esses valores que as aulas unem crianças, adolescentes, adultos, idosos, pessoas com deficiências físicas, mentais, de diversas condições sociais, culturais, tipos físicos...nada, absolutamente nada é impedimento para participar da escolinha, a não ser as vagas, quase sempre lotadas. Cada um tem seu tempo de assimilação das técnicas, mas uma lição ninguém deixa de aprender: a de conviver com as diferenças de uma forma natural, compartilhando valores fundamentais como respeito, socialização e ética.


Essa característica inclusiva da escola radical começou com uma postura do próprio Araña, que nunca viu qualquer impedimento para a prática do surfe. Ele próprio teve como grande mestre, o Mudinho, um surf-legend brasileiro, que era deficiente físico e que o ensinou que qualquer pessoa pode realizar a atividade de forma saudável e segura, desde que, com o monitoramento de professores experientes. Foi as sim que acolheu as crianças de diversas organizações assistenciais de Santos. "Começamos a receber algumas entidades de reabilitação, como a Casa Pixote e alguns orfanatos. Em 1996, recebemos os primeiros alunos com deficiência auditiva. Há dez anos, realizamos, anualmente, um evento com pacientes do Núcleo de Terapia Ocupacional da PUC de Campinas, coordenado pelo professor Roberto Ciasca" - explicou Araña.


Nesse grupo estão crianças e adolescentes da periferia de Campinas, com deficiências física, mental, sensorial ou múltipla, pessoas com paralisia cerebral, paraplégicos, tetraplégicos, vítimas de derrames, queimaduras, mutilações e outras deficiências limitantes ou incapacitantes. Ciasca confirmou que desde 1997, leva os pacientes para passar um dia em Santos.

O MAR CURA

Os professores listam uma série de benefícios à prática esportiva, cujas competências básicas promovem o equilíbrio, a coordenação motora, o desenvolvimento neuro-psico-motor-social, o aumento da resistência cardiovascular, da força física. Em dias sem onda ou muito frios, os alunos recebem aulas de meteorologia, estudam as marés, aprendem sobre a fabricação de pranchas, biologia e também noções do meio ambiente, onde são estimulados a respeitar a natureza e por conseqüência, a si próprio.

"Temos tido ótimos resultados com essa ida à praia, tanto em termos de motivação quanto de superação e conquistas. Essa proposta, permite estímulos específicos e pouco usuais na nossa cidade (sem mar, ondas, areia, etc.), permite vivenciar situações reais de auto-manutenção (higiene, vestuário e alimentação), fundamentais para conquista da autonomia" - afirmou Ciasca.

Todos entram no mar e passam um dia especial, literalmente feliz, pois o surfe é lúdico, divertido, desafiante... "Lembro sempre de uma garotinha, com o semblante fechado, um olhar triste e introspectivo. Eu a coloquei deitada na prancha e a soltei na onda, quando a prancha deslizou, vi a transformação de seu rosto, se abrindo num lindo sorriso. Essa imagem foi muito forte. Nunca esquecerei" - disse Araña.

POSSO VOAR

As sensações de liberdade e de independência que o surfe confere são apontadas por Valdemir Pereira Correa, 37 anos, portador de deficiência visual há 13 anos, como grandes motivadores para sua vida. “Se eu fosse praticar outros esportes teria mais restrições. O pedestrianismo teria que ser com um guia (pessoa que acompanha o atleta), no caso do futebol, a bola teria guizo. No surfe sou livre, no máximo, posso escutar algum amigo gritando: se prepara que essa seqüência (de ondas) é boa” – disse Val, como é conhecido entre os amigos. Ele nos conta que quando ouviu no rádio que a Escolinha Radical estava dando aulas para portadores de deficiência auditiva, tomou a decisão de tentar se inscrever. “Fiquei me preparando e buscando argumentos para convencer o Cisco a me aceitar na escolinha” – disse Val. Quando chegou lá, já devidamente preparado, se identificou e disse que apesar da deficiência visual, queria ter aulas de surfe. “Tudo bem, pegue uma prancha e vamos pra água” – foi o que ouviu de Cisco. A resposta imediata e positiva o deixou sem palavras, mas não sem ação. Desde então, freqüenta três vezes por semana as aulas, que mudaram sua vida. Val sobe na prancha, anda, gira o corpo, numa dinâmica corporal que exige coordenação, equilíbrio e força e que coloca a necessidade da visão em um plano muito relativo. “Uma pessoa não está limitada ao quanto ela enxerga” – afirma o surfista, que sonha em poder dar aéreos com sua prancha e ter a sensação real de voar. Falante, bem humorado e cheio de energia, Val conta que após o surfe se sentiu confiante para praticar outras atividades: capoeira, caratê e tai chi chuan. “Hoje, consigo perceber e identificar movimentos à minha volta. Não é mágica, é uma habilidade que desenvolvi por uma necessidade” – relata. Ele acredita que também essa condição sensorial foi graças à prática do surfe. Para o atleta, superar os limites é uma forma de demonstrar que deficiência não equivale a falta de capacidade ou inteligência. Hoje, a família toda está contagiada pelo surfe. Val levou os pais para a praia e para as aulas. Na escolinha Radical o sentimento é de fazer parte de uma grande família que se reúne para brindar a vida. Os ingredientes são: céu, mar, espuma branquinha e muita, muita superação.

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