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Mata Atlântica: o que restou do paraíso

Mata Atlântica: o que restou do paraíso

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Seção: Editorias - Categoria: Meio Ambiente
Escrito por Livi Carolina Ter, 20 de Janeiro de 2009 15:53

Respirar fundo e sentir o frescor suave do ar puro que vem da mata, se banhar e refrescar em seus rios e cachoeiras, se deliciar com seus frutos e se maravilhar com a beleza de seus habitantes são privilégios dos brasileiros. Regalias glorificadas pelos europeus que chegaram em 1500 a estas terras de muitas riquezas. Mistérios escondidos dentre a imensidão, até então, infinita de enormes árvores e vegetação fechada da mata banhada pelo oceano atlântico.

Mas, de quê serve os mistérios, senão para desvendá-los? Riquezas, senão para possuí-las? Terras férteis, senão para aproveitar-se delas? Foi este o pensamento que motivou os desbravadores desta terra e os acompanhou desde a extração do pau-brasil, da mineração, do plantio da cana-de-açúcar e do café, da expansão da pecuária e da agricultura até os dias atuais.

Segundo o geógrafo, ambientalista e diretor de mobilização da Fundação SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani, os responsáveis pelos ciclos econômicos enxergavam a mata atlântica como algo a ser conquistado. E atitudes, que pareciam tão importantes para a prosperidade do homem, o levaram para o caminho da escassez.

Hoje, de toda a imensurável área de mata atlântica que percorria o Brasil de norte ao sul no período da colonização, que ocupava 15% do território nacional, restam somente derradeiros 7%. Ou seja, foi desmatado, queimado, explorado e urbanizado, sem manejo adequado, 93% da mata, o que a caracteriza como o segundo bioma mais ameaçado de extinção do Planeta, atrás somente das florestas de Madagascar, no sul da África. Mesmo assim, “até 30 anos atrás o governo brasileiro ainda tinha como improdutivas as áreas florestais, impulsionando, então, o desmatamento” - destaca Mantovani.

Contudo, sua magnitude permanece! E mesmo sofrendo com a imprudência, ela ainda é um dos biomas mais ricos em biodiversidade do mundo, distribuída em faixas litorâneas, florestas de baixada, matas interioranas e campos de altitude. Além de ser detentora de sete das nove maiores bacias hidrográficas brasileiras, responsável pela distribuição de água potável para 3,4 mil municípios, em uma área onde vivem 62% da população brasileira, e para os mais variados setores da economia nacional como a agricultura, a pesca, a indústria, o turismo e a geração de energia. Por isso, não são poucas as intenções de proteção da área existente.

Lei da mata


Uma das tentativas de conter a devastação é a Lei da Mata Atlântica, sancionada pelo presidente Luís Inácio Lula da silva, no final de 2006, que modernizou e valorizou o controle socioambiental da Mata. “Corrigimos aqui um erro histórico. Antes, contávamos com o Decreto 750 para regulamentar isso de uma forma muito embrionária e confusa, o que possibilitou o entendimento errado de que a Mata Atlântica seria apenas a franja ombrófila densa.

Como resultado, tivemos a interpretação criminosa dos que continuavam desmatando como se as áreas não fossem Mata Atlântica (e, por- tanto, estivessem liberadas para o desmate, principalmente nos estados da região sul que se interessavam em explorar a araucária)” – explica Mantovani em depoimento ao boletim da SOS Mata Atlântica.

Hoje, o intuito da legislação é preservar os 7% restantes da floresta, incentivando a criação de áreas de reserva e proteção ambiental. “Oitenta por cento do restante da Mata está nas mãos de proprietários, mas somente 20% são unidades de Conservação. A situação é periclitante! temos que restaurar e espalhar áreas não contínuas da floresta, por meio dessas ações” – alerta o ambientalista.

Panorama da Mata Atlântica


Composição da Mata

A Mata Atlântica apresenta um conjunto de ecossistemas interligados, formados por florestas Ombrófila Densa, Ombrófila Mista (mata de araucárias), Estacional Semidecidual e Estacional
Decidual e os ecossistemas associados como manguezais, restingas, brejos interioranos, campos de altitude e ilhas costeiras e oceânicas. A relação entre os ecossistemas, caracterizada pelo trânsito de animais, o fluxo de genes da fauna e flora, forma as áreas chamadas de transição ecológica.

Fauna

A riqueza da fauna endêmica, peculiar da Mata Atlântica, é impressionante. Das 1711 espécies de vertebrados que vivem ali, 700 são endêmicas, sendo 55 espécies de mamíferos, 188 de aves, 60 de répteis, 90 de anfíbios, 133 de peixes, além daqueles que continuam sendo catalogadas, como a rã-de-Alacatrazes e a rã-cachoeira, os pássaros tapaculo-ferrerinho e bicudinho-do-brejo, os peixes Listrura boticário e o Moenkhausia bonita, e até um novo primata, o micoleão-da-cara-preta, entre outros.

Mas se há abastança de um lado, do outro a realidade é triste. Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Mata Atlântica abriga hoje 383 dos 633 animais ameaçados de extinção no Brasil.

Água

As águas da Mata Atlântica abastecem 70% da população dessa região, mas os rios estão assoreando. Para se ter uma idéia, hoje se gasta mais com desassoreamento do que com saneamento. “Poderíamos fazer produções diferentes, usar melhor o poder do plantio da nossa terra, produziríamos muito mais” – ressalta Mantovani.

Fertilidade da terra

Segundo Mantovani, não há necessidade de abrir mais espaço na floresta para o crescimento da agricultura, é possível utilizar as áreas que já foram devastadas e estão inutilizadas. Pois, embora a vegetação original tenha sido degradada, a terra continua fértil.
“Foi destruído mais do que o necessário. Atualmente temos 43% dessa área de terra que pode ser aproveitada pela agricultura”. A qualidade da terra é incontestável. Há países em que o eucalipto demora cerca de 50 anos para atingir um tamanho para corte, na Mata Atlântica, isso leva 5 anos.

Uso sustentável

Se tivéssemos respeitado os 20% de reserva legal das propriedades, onde não é permitido o corte de vegetação, de acordo com a Lei Federal 4.771/65, hoje teríamos 17% da Mata Atlântica. Os ambientalistas defendem que hoje é possível conciliar o desenvolvimento sem destruir nossos recursos. Dentre as alternativas estão o investimento no cultivo de plantas medicinais, de espécies utilizadas como matérias-primas para a produção de vestimentas, corantes, essências de perfumes, nos insumos para a indústria alimentícia, manejo sustentável de árvores por meio do corte seletivo para a produção de móveis certificados, no ecoturismo e no mercado de carbono.

Viva a Mata


A Fundação SOS Mata Atlântica realiza a quarta edição do Viva a Mata – mostra de iniciativas e projetos em prol da Mata Atlântica, que acontece entre os dias 30 de maio e 1º de junho, das 10 às 18h, na Marquise do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Com apoio da secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, o evento tem como objetivo comemorar o Dia Nacional da Mata Atlântica (27 de maio), promover a troca de informações e experiências entre os que lutam pela conservação deste Bioma, realimentar o movimento ambientalista e informar e conscientizar a sociedade.

 
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