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Uma viagem pelos biomas brasileiros: Parte 2

Uma viagem pelos biomas brasileiros: Parte 2

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Seção: Editorias - Categoria: Meio Ambiente
Escrito por Caio Martins Sex, 24 de Julho de 2009 17:37

Distribuída em 844 mil km², ou seja, 60% do nordeste brasileiro, engloba os estados do Ceará (100%), Rio Grande do Norte (95%), Paraíba (92%), Pernambuco (83%), Piauí (63%), Bahia (54%), Alagoas (48%), Sergipe (49%), Minas Gerais (2%) e Maranhão (1%), segundo o Mapa de Biomas do Brasil, lançado em 2004, pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em parceria com o Ministério do Meio Ambiente.

Sua paisagem reflete seu clima quente, com temperaturas elevadas durante a maior parte do ano, chuvas escassas e irregulares, longos períodos de secas, precipitação anual média variando entre 400 e 650 mm e solos rasos e pedregosos. Seus rios são, na maioria, sazonais. As únicas exceções são os rios Parnaíba e São Francisco.

Caatinga Florestal

Segundo o livro “Ecologia e Conservação da Caatinga”, existem 12 tipos diferentes de “caatingas”, que variam desde florestas altas e secas, com árvores de até 20 metros de altura, até afloramentos rochosos com arbustos baixos e esparsos, e com cactos e bromélias saindo das fendas do solo. Há ainda o “mediterrâneo” sertanejo, que abriga brejos florestais, várzeas e serras, sendo essa uma área mais úmida e de clima mais ameno Ao todo, são 932 espécies de plantas na região, sendo 318 exclusivas da área.

Por causa do clima semi-árido, elas precisaram se adaptar para sobreviver, resultando em plantas tortuosas, de folhas pequenas e finas ou até reduzidas a espinhos, com cascas grossas e sistema de
raízes e órgãos específicos para o armazenamento de água.

Exemplos de vegetação típica da Caatinga são os cactos, como o mandacaru (Cereus jamacaru) e o xique-xique (Pilosocereus gounellei), as barrigudas (Cavanillesia arbórea), o pau-mocó (Luetzelburgia auriculata) e o umbuzeiro (Spondias tuberosa), famoso por possuir múltiplos usos: das folhas, saem saladas; do fruto, polpa para sucos, licor e doces; e da raiz, farinha comestível, ou vermífugo.

Caatinga Animal

A Caatinga possui uma grande diversidade animal em seu bioma. Existem 510 espécies de aves, 240 de peixes (136 endêmicas), 154 de répteis e anfíbios (57 endêmicas), e 144 de mamíferos (10 endêmicas).

Destaque para os peixes que, mesmo com o predomínio de rios temporários e da contaminação dos cursos de água, ainda conseguem sobreviver nesse ambiente. Para isso, vivem em rios sazonais como estratégia de reprodução: depositam os ovos residentes que só eclodem em épocas de chuva. Entre os mamíferos nativos da região, há o predomínio das espécies de morcegos e roedores: 64 e 34, respectivamente.

Já entre répteis e anfíbios, os destaques ficam para as serpentes, lagartos e anfisbenídeos, conhecidos como cobra-cegas. Estes são considerados animais característicos do semi-árido da Caatinga, sendo, a maioria, endêmica do Médio do Rio São Francisco. Isso porque, após a alteração de seu curso, devido às mudanças climáticas no fim do Período Pleistoceno (entre 1,8 milhão e 11 mil anos atrás), esses animais ficaram separados em grupos nas margens do rio, estimulando a formação de novas espécies e, consequentemente, de espécimes exclusivos.

Por outro lado, de acordo com a lista nacional das espécies de fauna brasileira ameaçada de extinção, publicada em maio de 2003, pelo Ibama, vivem no bioma 28 espécies ameaçadas de extinção. Conheça
alguns dos animais ameaçados:

Tatu-bola (Tolypeutes trinctus): considerado o menor tatu brasileiro, medindo de 22 a 27 centímetros, esse animal enrola seu corpo e fica parecido com uma bola quando se sente ameaçado.

Mocó (Kerodon rupestris): rato que chega a medir 40 centímetros. Está ameaçado de extinção pelo fato de figurar entre as espécies da caça de subsistência praticada pelo sertanejo para acabar com a fome.

Ararinha-azul (Cyanopsitta spixii): a pequena ave está praticamente extinta na natureza, vítima do tráfico de animais silvestres. É uma das muitas espécies que durante a seca se refugiavam em brejos de altitude, beira de rios, entre outros locais mais úmidos.

Arribaçã (Zenaida auriculata noronha): é uma espécie de pomba que migra de acordo com a frutificação da flora no sertão nordestino. Está ameaçada de extinção por ser presa fácil para os caçadores, já que faz ninhos no chão.

Galo-da-campina (Paroaria dominicana): é considerado um dos mais bonitos pássaros brasileiros. Alimenta-se, principalmente, de sementes. Por possuir um belíssimo canto, é muito perseguido pelos comerciantes de animais da região.

Caatinga Social

A Caatinga abriga as maiores desigualdades sociais do Brasil. Sua população de cerca de 28 milhões de pessoas figura entre as mais pobres do Nordeste, recebendo, em média, menos de um salário mínimo por mês.

Além disso, a região possui os mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), os mais elevados percentuais de população empobrecida, as maiores taxas de mortalidade, cerca de 100 mil por mil, e elevadas taxas de analfabetismo para maiores de 15 anos (entre 40% e 60%). Esses dados refletem o processo de ocupação da Caatinga, que concentrou terra e poder no domínio de poucos.

Degradação da Caatinga

A Caatinga, como todos os biomas brasileiros, também está sofrendo um processo de degradação acelerado. Uma das principais causas é o desmatamento, feito em especial para a produção de lenha, utilizada como fonte de energia em residências, olarias e siderúrgicas.

Outros dois fatores de degradação são a pecuária extensiva, com o consumo e destruição da vegetação pelos animais, e a agricultura de irrigação, que avança ao longo do Rio São Francisco em municípios como Juazeiro e Petrolina. Tal modelo de cultivo com-promete os lençóis freáticos, salinizando e contaminando o solo com agrotóxicos.

A desertificação, processo de degradação ambiental que ocorre nas regiões com clima seco, também é responsável pela destruição do bioma. Esta atinge 181 mil km² do semi-árido brasileiro, sendo que 15 mil km² já estão em situação de extrema gravidade.

Mudanças Climáticas na Região

As mudanças climáticas vêm afetando todo o mundo. Com o aumento da temperatura, que nos próximos anos pode subir até 3°C, a Caatinga poderá dar lugar a uma vegetação típica dos desertos, com predominância de cactáceas. Isso porque o bioma possui um alto potencial para a evaporação e, combinado com o aumento da temperatura, causaria diminuição da água de lagos, açudes e reservatórios.

Ambientalmente, o Nordeste ficaria a mercê de chuvas torrenciais, que resultariam em enchentes e, consequentemente, em grandes impactos ambientais. Além disso, a frequência de dias secos consecutivos e de ondas de calor aumentaria.

Socialmente, as mudanças climáticas também trariam problemas. A falta de água e as altas temperaturas tornariam a produção agrícola de subsistência inviável. Com isso, populações inteiras começariam a mi- grar para as grandes cidades da região ou para outras regiões, o que geraria um caos nas metrópoles, que não teriam condições de abrigar tantas pessoas, agravando ainda mais os problemas sociais e urbanos.

Medicina da Caatinga

A medicina na Caatinga é baseada no uso de plantas. O utilização de folhas, raízes e cascas, entre as quais as da catingueira (antidiarréica), do jerico (diurético) e do angico (adstringente), é muito difundida entre a população que habita a região, sendo estes itens obrigatórios das tradicionais feiras e mercados locais.

Com base nas plantas medicinais, o projeto “Farmácias Vivas” foi criado pela Universidade Federal do Ceará em 1985. Ele visa transferir para pequenas comunidades governamentais o conhecimento científico sobre plantas medicinais da região e seu uso medicamentoso correto. Dessa maneira, a parte menos abastada da população nordestina poderia empregar tais ervas no tratamento de doenças. O projeto já selecionou e comprovou cientificamente a eficácia de mais de 60 espécies de plantas medicinais do Nordeste.

Parque Nacional Serra da Capivara

O Parque Nacional Serra da Capivara está localizado no sudeste do Estado do Piauí, ocupando áreas dos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. Cobrindo uma área de 130 mil hectares e tendo um perímetro de 214 km, ele é o único Parque Nacional situado no domínio da Caatinga. Criado por diversos motivos, que variam desde a preservação de seu meio ambiente específico até fatores culturais e turísticos, o parque tornou-se Patrimônio Natural da Humanidade em 2002, 11 anos após o pedido da UNESCO para tal feito.

Possuidora de um grande patrimônio cultural, a unidade de preservação tem uma das mais largas quantidades de sítios arqueológicos do mundo. Atualmente, cerca de 912 sítios estão cadastrados pela FUMDHAM (Fundação do Homem Americano), sendo que 657 apresentam pinturas e gravuras rupestres. Isto indica que o homem já habitava aquela região há 100 mil anos atrás.

Além da parte cultural, o Parque Nacional Serra da Capivara possui uma riqueza vegetal exclusiva de tal área, resultante de duas grandes formações geológicas: a bacia sedimentar Maranhão-Piauí e a depressão periférica do rio São Francisco. A região é uma das últimas do semi-árido possuidora de importantes diversidades biológicas, com paisagens que variam entre serras, vales e planícies. Todas as belezas dessa unidade de conservação dão ao parque uma importante função no turismo, sendo esta uma alternativa de desenvolvimento para a área.

Porém, o parque já sofreu com a degradação. Depois de criado, a região ficou abandonada durante dez anos por falta de recursos federais. Durante este período, a Unidade de Conservação foi considerada “terra de ninguém”. Por tal fato, ela sofreu com a depredação e destruição da flora, principalmente através de caminhões vindos do sul do país que desmatavam e levavam, de maneira descontrolada, as espécies nobres, próprias da Caatinga.

Também, a caça comercial se transformou numa prática popular com consequências horríveis para as populações animais. As espécies começaram a diminuir em uma velocidade impressionante e algumas delas, como os veados, emas e tamanduás, praticamente desapareceram.

Museu do semi-árido

Criado em 15 de maio de 2007, o Museu Interativo do Semi-Árido (MISA) nasceu a partir de uma iniciativa da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) de fomentar a importância da Região Semi-Árida para o país. Através da Exposição “Viver e Compreender”, o museu é elemento primordial para a transmissão dos traços fundamentais do semi-árido, exibindo as principais nuances e faces que compõem esse importante ponto estratégico do Brasil.

Na exposição, localizada em um salão de mais de 200m² no Campus Campina Grande da UFCG, belos painéis explicativos, peças em barro, madeira, roupas de couro, cancioneiro popular, utensílios domésticos e de trabalho do homem do campo remetem os visitantes aos ambientes nativos da Caatinga.

Curiosidades

• Existem cerca de 327 espécies de animais endêmicas, ou seja, exclusivas na Caatinga.
• Na vegetação, os números são parecidos: cerca de 323 espécies de plantas são endêmicas.
• Uma área bem conservada de Caatinga pode abrigar cerca de 200 espécies de formigas, enquanto uma mais degradada não suporta mais do que 40.
• As ações do homem na Caatinga já destruíram metade da paisagem da região, sendo que quase 20% do bioma já estão com alto grau de degradação, ou seja, com risco de desertificação.
• A Caatinga abriga a ave com maior risco de extinção no Brasil, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii). Apenas um único macho dessa espécie foi encontrado na natureza. Também nesse bioma vive a segunda ave mais ameaçada do país, a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), que habita os arredores de Canudos (BA).
• Na estação seca das regiões da Caatinga, a temperatura do solo pode chegar a 60ºC.
• As vegetações do bioma se adaptaram ao ambiente que vivem de forma estratégica: a perda das folhas das plantas reduz a superfície de evaporação quando falta água.

Receita Típica da Caatinga: Baião de Dois

Ingredientes:

• 1/2 kg de feijão verde, ou feijão de corda (feijão verde já seco)
• 200 g de toucinho defumado
• 1 paio (cortado em rodelas)
• 2 tabletes de caldo de bacon
• 1 cebola grande picada ou ralada
• 1 dente de alho amassado
• 1 pimenta de cheiro amarela
• 4 colheres (sopa) de óleo
• Salsinha ou coentro picado, de 1 colher (sopa) à 1 xícara
• 2 e 1/2 xícaras (chá) de arroz
• 150g de queijo de coalho (cortado em fatias finas)

Preparo:

• Lave o feijão e deixe-o de molho na véspera do preparo;
• No dia seguinte, cozinhe-o juntamente com o paio e o caldo de bacon, dissolvido em dois litros e meio de água fria;
• Tampe a panela e deixe cozinhar em fogo baixo por cerca de 1 hora;
• Em outra panela, coloque o óleo e deixe a cebola e o alho dourando;
• Junte o coentro e o arroz na panela e refogue bem;
• Acrescente o feijão e o paio já cozidos, juntamente com o caldo e misture bem os ingredientes;
• Tampe a panela e deixe cozinhar até que o arroz fique cozido, úmido e com consistência cremosa;
• Durante o cozimento do arroz, se necessário, adicione água, tomando o cuidado para não deixar a mistura ficar seca;
• Junte a salsinha e mexa com cuidado;
• Cubra o arroz com as fatias de queijo, tampe a panela novamente e deixe que o vapor derreta o queijo.
• Quando o queijo estiver derretido, sirva o prato com carne-de-sol frita.

Fontes:
- Almanaque Brasil Socioambiental 2008 – ISA (Instituto Socioambiental)
- WWF - http://www.wwf.org.br