Nas margens do aquífero, erosões expõem pedaços do arenito. A água do manancial está situada a uma profundidade que oscila de 50 metros a 800 metros. Só 10% da área total está rente à superfície. São os chamados afloramentos. É por ali que a chuva entra e também por onde a contaminação pode acontecer. Em 2002, alguns poços foram fechados na cidade uruguaia de Riviera, na fronteira com Santana do Livramento, por causa da contaminação por nitrato.
NEO MONDO conseguiu pinçar itens a mostrar que a companhia chegou a "relevantes suportes científicos para resguardar a empresa quanto à ocorrência de eventuais impactos ambientais futuros" (em relação aos parâmetros inventariados). Houve o acompanhamento de geólogos que aplicaram técnicas da geoestatística para a espacialização da vulnerabilidade do Guarani, bem como o acompanhamento de sondagens para medição de nível do lençol freático.
Análises químicas
Já nos primeiros meses da obra, a empresa assinou parceria com o Instituto de Química de Araraquara, vinculado à Unesp, que disponibilizou equipe de 10 técnicos para monitorar os parâmetros indicadores da qualidade das águas dos córregos Mulada, Muladinha e Maringá, localizados no polo aeroespacial, todos nas bordas do aquífero.
Claro que nas primeiras amostragens ainda não havia atividades no local em análise. O estudo era justamente para servir de referência em medições futuras. As amostragens foram feitas em período de muita chuva. O teor de alumínio, diz relatório da época, manteve-se um pouco acima do limite estabelecido pela Resolução Conama 20, indicando que o metal devia ser originário do solo da bacia de drenagem e era carregado para os mananciais inventariados via lixiviação.
Considerando que durante esse período a empresa não teve atividades industriais na área, os valores podiam vir de decomposição vegetal e/ou lixiviação de óleo mineral aplicado com herbicidas / pesticidas em lavouras da região.
Escudo científico
Os resultados de coliformes totais e fecais mostravam-se abaixo daqueles estabelecidos pela citada Resolução. Quanto aos pesticidas / herbicidas, na primeira e segunda amostragem, alguns foram detectados.
A nova unidade está encravada no coração da agricultura paulista, onde se cultivam laranja e cana-de-açúcar. Ela é circundada por área essencialmente agrícola, atividade que gera aporte de herbicidas mas, à época, ela desativou alguns hectares com plantação de laranja e cana, levando os técnicos a concluir que isso influiu na diminuição de registros de pesticidas nas águas do entorno da unidade.
Os técnicos do Instituto de Química da Unesp concluíram que "o inventário científico sazonal sobre os mananciais e a não utilização de herbicidas / pesticidas pela Embraer em suas atividades eram" um escudo científico em defesa da empresa quanto a ocorrências eventuais. O relatório chamava a atenção para o fato de que "ficava evidente a preocupação da empresa em conhecer o passivo ambiental adquirido e também se manter informada a respeito de parâmetros indicadores da qualidade da água dos mananciais durante
suas atividades no Pólo Industrial".
Entretanto, dez anos após a implantação, a empresa não divulga detalhes do levantamento científico nem das comparações sazonais. O que há são declarações formais: "a Embraer mantém procedimentos documentados e programas para monitorar e medir periodicamente, as características principais das operações e atividades da empresa que possam ter impacto significativo sobre o ambiente".
600 mil árvores
Um dos resultados do estudo produzido para aferir o impacto ambiental no processo de construção da fábrica na região, foi o comprometimento da Embraer junto ao governo do estado de plantar cerca de 600 mil árvores no entorno da empresa, numa área de 350 hectares ou cerca de 424 campos de futebol.
Mas este plantio não pode ser vinculado diretamente à defesa do aquífero. À época - quem lembra? - houve disputa entre plantadores de laranja no entorno do projeto e a empresa. O replantio teria entrado no acordo como compensações ambientais, ao lado das indenizações de praxe, mas sem referências ao aquífero.
O polo industrial ocupa uma área de 17 milhões de metros quadrados, sendo que 3 milhões de metros quadrados foram reflorestados com árvores nativas. Isso corresponde a 20 % do total da área. O reflorestamento começou com a implantação da fábrica, ainda em 2001. Cerca de 530 mil metros quadrados, área igual às instalações da empresa na unidade Faria Lima, em São José dos Campos, estão reservados para a instalação de parceiros da Embraer.
Monitorar o lençol
A Embraer comprometeu-se a recuperar a vegetação em Gavião Peixoto, bem como monitorar a qualidade dos lençóis freáticos e rios, além de implementar rígidos controles de descarte do lixo e poluição. O acompanhamento técnico do plantio ficou a cargo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba.
A empresa plantou na área 135 espécies nativas de árvores em Gavião Peixoto. A escola segue a cartilha: tecnicamente, as primeiras a ser plantadas foram as chamadas árvores "pioneiras", que crescem mais rápido e criam as condições certas para a próxima geração germinar e desenvolverse vigorosamente.
As árvores pioneiras plantadas em Gavião Peixoto são a embaúba, aroeira-pimenteira e angico. Exemplos de árvores da segunda geração seriam o pau-brasil, ipê, cedro, peroba etc. Em média, as árvores pioneiras precisam de cinco anos para atingir a idade adulta. O processo de plantio demorou ao todo oito anos. A localização e a topografia plana foram decisivas para que a Embraer se decidisse por Gavião Peixoto, com cerca de 5 mil habitantes, já que a fábrica tem uma pista de pouso e decolagem de 5 km de extensão por 95 metros de largura, e é dotada de características para apoio a atividades de ensaios de voo, o que a tornam única em todo o Hemisfério Sul.
Para a nova unidade, a empresa transferiu de sua sede em São José dos Campos a montagem dos jatos executivos Legacy e dos aviões militares AMX e Super Tucano ALX, além da modernização dos caças F-5 da Aeronáutica. Também ficou para a nova unidade a montagem dos caças supersônicos Mirage 2.000.A empresa possui um acordo com as francesas Dassault, Snecma e Thales.
EVOLUÇÃO AMBIENTAL
Com a implantação de uma diretoria ambiental a empresa hoje recicla 83,7% dos resíduos produzidos, incluindo o reúso de águas, gerando receita extra de R$ 17 milhões
A política ambiental da Embraer evoluiu para a implantação mais recente de uma Diretoria de Estratégias e Tecnologias de Meio
Ambiente. A nova estrutura está vinculada à Vice-Presidência Executiva de Planejamento Estratégico e Desenvolvimento Tecnológico,
comandada pelo engenheiro Satoshi Yokota, há 37 anos na empresa.
Foi o engenheiro Yokota que nos informou sobre os estudos ambientais preliminares em Gavião Peixoto a bordo do avião que levou jornalistas para o lançamento da pedra fundamental da unidade ainda em 2001.
Hoje o vice-presidente comenta que "buscou-se, com a nova diretoria, por meio da consolidação das iniciativas já existentes na área industrial, em conjunto com a procura de materiais e tecnologias alternativas, saídas para diminuir o impacto ambiental de nossas atividades e da operação de nossos aviões".
As informações seguintes vêm de releases da empresa. Nomeado para dirigir a nova estrutura, Graciliano Campos, diretor de Estratégias e Tecnologias de Meio Ambiente, tem a responsabilidade de desenvolver políticas específicas de meio ambiente, em consistência com as legislações e normas globais existentes. A área está trabalhando na contratação de uma consultoria para inventariar
as suas unidades do Brasil com relação à emissão de dióxido de carbono (CO2) e busca a certificação ambiental para as unidades da Embraer em Portugal, na China, nos Estados Unidos e na França.
A Embraer acompanha o desenvolvimento de novas regulamentações e apoia tecnicamente o governo brasileiro nas discussões dentro do Comitê de Proteção Ambiental (CAEP - Committee Aviation Environmental Protection) na Organização Internacional da Aviação Civil.
Fumaça dos jatos
Nas informações da Assessoria de Imprensa "a Embraer está atenta à recomendação mundial de que motores a jato reduzam o volume de dióxido de carbono (CO2) e de óxidos de nitrogênio (NOx)".
Com melhorias contínuas implementadas nas aeronaves desde a entrada em serviço, a Embraer anunciou reduções de consumo de 2% para a Família ERJ 145 e de até 4% para os E-Jets. Procedimentos operacionais e de manutenção podem reduzir o consumo em até 12%.
O Legacy 600 produz cerca de 25% a menos de emissões de CO2 do que a geração anterior de jatos do mesmo tamanho, além de preservar os níveis de ruído bem inferiores aos exigidos pela ICAO. Os novos Phenom 100 e Phenom 300 foram projetados empregando tecnologias utilizadas do desenvolvimento dos E-Jets, com ferramentas de projetos ambientais, sempre de acordo com informações formais da Assessoria.
Economia de 17 milhões
Quem responde pela área de meio ambiente industrial é Luiz Alberto Ladewig, gerente de Serviços de Suporte. Diz ele que "atualmente a empresa já recicla 83,7% dos resíduos produzidos, como madeira, plástico, isopor, papel, papelão, óleo de cozinha e limalhas de metais em geral. Os 16,3% restantes representam materiais que, no momento, são considerados não-recicláveis. Com o programa de reciclagem, conseguimos gerar neste ano uma receita de R$ 17 milhões para a empresa", diz ele. São números para ser
aplaudidos, claro.
O esforço da empresa, agora, "é difundir as iniciativas já existentes aqui em São José dos Campos para as outras unidades da Embraer -aí incluindo-se Gavião Peixoto". Para isso ela elabora o Plano Diretor de Meio Ambiente, que tem por objetivo ampliar a abrangência dos projetos e levantar indicativos que possam medir a eficiência ambiental de cada uma das unidades do grupo", nas informações de Ladewig.
Reúso da água
É dele o mérito do processo que levou a Embraer, em 2002, a ser a primeira do setor aeronáutico mundial a obter a certificação internacional de gestão ambiental ISO 14001. No rol de programas da empresa, encontra-se a recuperação do cromo dos banhos de tratamento de superfície de peças metálicas. Depois de passar por várias etapas de transformação, o cromo resulta em óxidos metálicos usados em indústrias de componentes químicos, refratários e tintas.
A água também é parte das preocupações da empresa. Seu reúso é feito de duas maneiras: a primeira vem da lavagem no processo de tratamento de superfície, que é armazenada e abastece os lavadores de gases e peças da usinagem química. A segunda envolve a água proveniente de várias lavagens, que converge para um tanque na estação, passa por uma série de controles e é novamente utilizada nas torres de resfriamento do sistema de geração de energia e cabines de pinturas.
Trocando tinta
Visando reduzir a emissão de compostos orgânicos voláteis (solventes) para a atmosfera, a Embraer substituiu em 2006 as tintas convencionais (com alto teor de solvente) por tintas high solids (baixo teor de solvente) em todas as linhas de pintura das unidades de produção no Brasil. A empresa também não usa mais tintas à base de solvente na pintura interna das peças de materiais compostos dos aviões. Elas foram trocadas por tintas à base de água.
PRÊMIOS EM RECONHECIMENTO
Por todos esses procedimentos, a Embraer recebeu diversos prêmios em reconhecimento ao seu desempenho em gestão ambiental. Confira:
• Prêmio Fiesp de Conservação e Uso Racional de Energia, 2006
1º lugar: Projeto: Eficiencia do Sistema de Ar-Comprimido
3º Lugar - Modalidade Multiuso de Energéticos com o projeto: Sistema de Ar-Condicionado a Gás Natural com Aproveitamento Térmico
• Benchmarking Ambiental Brasileiro, 2006
Com o projeto: Revitalização das Nascentes do Rio Paraíba do Sul (pegou um 6 º lugar)
• Prêmio Fiesp Mérito Ambiental, 2003
Projeto: Eficiência do Sistema Anaeróbico do Sistema Aplicado à Estação de Tratamento de Efluentes Domésticos na Unidade de Gavião Peixoto
• Ipanema a álcool
Em junho de 2005, na França, a revista Flight International concedeu à aeronave o Prêmio da Indústria Aeronáutica na categoria Aviação Geral, durante a abertura do Paris Air Show. O avião verde recebeu também o Troféu Ouro na categoria "Novidade" do "Premio Gerdau de Melhores da Terra". Em dezembro de 2005, o Ipanema é reconhecido como uma das 50 melhores invenções do ano e recebe prêmio da revista Scientific American.
Em 2002, a Unidade de São José dos Campos foi certificada no Sistema de Gestão Ambiental, atendendo à Norma ISO 14001 mantendo a certificação através da Auditoria de Manutenção realizada pela certificadora ABS - American Bureau of Shipping.
Desfazendo mitos
O mega-reservatório hídrico subterrâneo da América do Sul não é o "mar de água doce" que se pensava existir. A conclusão vem desde 2006, quando a revista Scientific American, edição 47 de abril daquele ano, divulgou estudos conclusivos do geólogo José Luiz Flores Machado, cujo doutorado é justamente sobre geologia e estruturação do Sistema Aquífero Guarani.
Tais estudos sobre sua diversidade revelam que há grande descontinuidade na estruturação geológica. Em espaços de algumas centenas de quilômetros, sua potencialidade pode variar drasticamente. Enquanto algumas áreas são excelentes, em outras a água é inacessível, escassa ou não-potável, salobra.
Diz o estudioso que "com essas informações se chega a um impasse, pois não estamos em presença de um único aquífero e sim de um "sistema aqüífero" Guarani. Suas camadas aqüíferas não são unicamente originadas de dunas de um antigo deserto, como os arenitos Botucatu, e sim de intercalações de camadas com diferentes origens e permeabilidades, portanto, com mais ou menos água.
"Desse modo", enfatiza, "quando falamos ou escrevemos "Aqüífero Guarani", na realidade estamos simplificando um conceito de sistema aquífero, de camadas sedimentares de várias origens, depositadas em um intervalo de mais de 100 milhões de anos, com porosidades e permeabilidades muito variáveis, que vão influenciar em sua potencialidade aquífera, com poços secos em camadas quase impermeáveis, que isolam outras camadas aquíferas de boa permeabilidade e poços de ótima vazão".
O sistema aqüífero Guarani abrange cerca de 1,2 milhão de km2, espalhando-se pelo Paraguai, Uruguai, Argentina e oito estados brasileiros. Nem todas as regiões, porém, são beneficiadas pelas bordas de afloramento e seus arredores, como em São Paulo, Rio
Grande do Sul, Paraguai ou Mato Grosso do Sul.
Além do Guarani, sob a superfície de São Paulo, há outro reservatório, chamado Aquífero Bauru, que se formou mais tarde. Ele é muito menor, mas tem capacidade suficiente para suprir as necessidades de fazendas e pequenas cidades.
Água puríssima para remédios
A Secretaria Estadual da Saúde inaugurou em junho do ano passado, também dentro da região do aquífero, uma nova fábrica de medicamentos da Fundação para o Remédio Popular (Furp). Ela fica em Américo Brasiliense, também região de Araraquara. Esta é a
primeira fábrica pública a produzir genéricos no Brasil.
Projetada com tecnologia de ponta, a mesma utilizada nos melhores laboratórios do mundo, a fábrica terá capacidade para produzir 21,6 milhões de ampolas e 1,2 bilhão de comprimidos por ano, quando toda a linha de produção estiver em plena operação. A produção atual da Furp é de mais de 1,8 bilhão de fármacos/ano.
A escolha da cidade de Américo Brasiliense também foi estratégica: a região conta com água em abundância e de excelente qualidade, proveniente justamente do Aquífero Guarani, requisito fundamental para a produção de medicamentos injetáveis. Nesses produtos é utilizado um tipo de água com teor puríssimo (WFI) e, na fabricação de comprimidos, o tipo PW (pure water ou água pura), que também é indicada para os processos de lavagem de equipamentos.
A unidade de Américo Brasiliense é de última geração. Na construção foram empregados materiais modernos para revestimentos de pisos e paredes. Pesquisados fora do Brasil, esses materiais são utilizados na área farmacêutica em função da facilidade de manutenções futuras.
O sistema é composto de uma manta vinílica flexível, que impede trincas e rachaduras e, conseqüentemente, a entrada de bactérias. Dessa forma fica garantida a total assepsia do local. Entre outras medidas visando à sustentabilidade também foram plantadas aproximadamente 6 mil mudas de árvores em uma área reservada, um número infinitamente abaixo do exigido da Embraer. A fábrica conta com uma Estação de Tratamento de Efluentes própria e também reutiliza água em irrigação.