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Madeira de Lei

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Seção: Editorias - Categoria: Meio Ambiente
Escrito por Gabriel Arcanjo Nogueira Sex, 11 de Junho de 2010 11:20

A esses dados - apresentados por Luciana Maria Papp, coordenadora de Certificação do Instituto de Manejo e Certificação
Florestal e Agrícola (Imaflora), durante encontro para debater os desafios da Certificação de Origem da madeira no Brasil-, a
própria engenheira florestal acrescenta que 56% das emissões de gás carbônico na atmosfera são provenientes do desmatamento das florestas brasileiras.

Luciana esteve entre os participantes do evento, promovido pelo LI DE Sustentabilidade, no dia 13 de maio em São Paulo,
que apontou ser a conscientização dos empresários de toda a cadeia produtiva sobre a importância do uso de produtos certificados a saída mais viável não apenas para evitar a destruição das florestas brasileiras, mas também para encontrar oportunidades lucrativas para os próximos anos.

A importância desse encontro é ressaltada pela coordenadora de Certificação do Imaflora "por demonstrar que os
empresários brasileiros estão comprometidos com a certificação de origem de produtos florestais e consideram que
a certificação florestal FSC é a de maior credibilidade. Isso levará, sem dúvida, a uma melhoria de imagem do setor e à
abertura de novos mercados, propiciando, no longo prazo, uma oferta maior de produtos certificados, permitindo que se
tornem cada vez mais acessíveis a um maior número de consumidores".


Conjunto de ações

Para Luciana, a Amazônia tem jeito, mesmo porque é nessa região que a Imaflora desenvolve muitos de seus trabalhos.
Engenheira florestal com mestrado em Engenharia Ambiental pela Universidade Regional de Blumenau (SC), a coordenadora
de Certificação do Imaflora reconhece que "a situação fundiária na Amazônia é complexa e envolve um conjunto de ações, nas diversas esferas de poder e da sociedade, mas acreditamos que a solução passa também pela certificação socioambiental. Isso porque a certificação parte do princípio de que é possível e desejável conciliar o uso responsável da floresta com finalidades econômicas, por meio do manejo florestal correto e sem prejuízo das atividades econômicas já desenvolvidas pelas populações tradicionais, entre outros aspectos.

Essas ações são mais efetivas quando associadas a políticas públicas. "Além disso, temos tido forte atuação nas Unidades de Conservação e na formação e capacitação de seus conselhos e acreditamos no potencial aumento das áreas certificadas com o crescimento de concessões florestais de áreas públicas para empresas, comunidades e associações. Acreditamos que a viabilidade econômica, social e ambiental da Amazônia, no longo prazo, passa também por esses caminhos".

A contribuição do Imaflora, nesse sentido, de acordo com sua coordenadora de Certificação, é das mais significativas. Seja
por ser uma instituição que utiliza a certificação socioambiental como fonte geradora de mudanças nos setores agrícola e florestal seja por ter participação ativa no desenvolvimento das normas de certificação, na capacitação de profissionais, entidades e outros segmentos da sociedade na área e produzir material explicativo a respeito.

Feita a explicação, Luciana revela: "Ao longo da nossa trajetória, acumulamos uma experiência muito rica, que procuramos utilizar para gerar melhorias onde pudermos. Por isso, nossa atuação vem se ampliando. Atualmente, estimulamos e apoiamos o desenvolvimento de projetos de políticas públicas, especialmente no município em que estamos, Piracicaba. Nossas atividades compreendem ainda a verificação de projetos de clima e carbono; o desenvolvimento de ferramentas de verificação de legalidade da origem da madeira, a elaboração de projetos em unidades de conservação na Amazônia, entre outros".

Se não bastasse, o Imaflora é presença constante em diversos grupos, mesas-redondas, discussões nacionais e internacionais,
como o da Moratória da Soja, Fair Trade, FSC internacional, Rede de Agricultura Sustentável (RAS), Biocombustíveis, Pecuária. Todo cuidado, porém, é pouco, lembra e especialista. "Dentro dos segmentos agrícola e florestal, muitas vezes, desenvolvemos estudos para avaliar o impacto das ferramentas que usamos", afirma.


O que cabe a cada um

Sua vivência a leva a sugerir que governos, empresas, cidadãos e ONGs façam a sua parte para que a soma de contribuições positivas mude o quadro para melhor no país. "Creio que cabe ao governo a execução de políticas públicas claras no sentido de estimular o consumo responsável e manter órgãos reguladores eficazes. Às empresas, o aumento da transparência em suas atividades e políticas de consumo, visando sempre conhecer a origem dos produtos e matérias primas utilizadas, estimulando práticas responsáveis. E aos cidadãos cabe buscar informações sobre os produtos e serviços que consomem, estimulando e optando pelas que exerçam as melhores práticas, como, por exemplo, ao comprar portas, madeira, piso, lápis, carne, café sempre preferir aqueles que demonstram que sua produção não causou degradação ambiental e/ou social, como consumir sempre produtos certificados FSC e RAS. E as ONGs devem divulgar e estimular o consumo de produtos e matérias primas com certificação de origem".

Luciana ressalta a importância de esses segmentos disponibilizarem canais de diálogos abertos para troca de conhecimento e
melhoria dos sistemas de controle dos produtos consumidos e produzidos no Brasil. Isso porque, acentua, "ainda há muita
desinformação a esse respeito. Saber de onde vem um produto e o caminho percorrido por ele ao longo de sua cadeia produtiva é fundamental para que o consumidor possa fazer uma escolha consciente do que compra. Estimular esse questionamento é muito positivo e oferecer informações ao cidadão a respeito da origem do que está consumido é básico. Daí a importância dos selos que atestam a certificação, como FSC (Forest Stewardship Council ou Conselho de Manejo Florestal), RAS (Rede de Agricultura Sustentável) e outros. Assim, nós das ONGs, teremos melhores resultados no desafio de gerar mudanças e benefícios sociais; os governos, por sua vez, terão leis, como a CLT , respeitadas; e as empresas menor risco para suas atividades. O consumidor teria a garantia que o produto escolhido respeitou o meio ambiente, o trabalhador, e outros aspectos avaliados pela certificação".

Luciana lembra que é possível estabelecer parcerias com o Imaflora, desde que "estejam alinhadas à nossa missão e não haja conflitos de interesse com as atividades que desenvolvemos. Atualmente possuímos parcerias com entidades de cooperação internacionais, ONGs locais e internacionais, empresas e com entidades governamentais. Demandas nesse sentido são analisadas pelo nosso Conselho".

Sinal de que nem tudo está perdido no planeta é a busca crescente por certificações que garantem origem de produtos ao longo
da cadeia produtiva até o consumidor final. Luciana aponta as principais, que são, no caso da madeira, a certificação florestal FSC e, no caso de produtos agrícolas, a certificação da Rede de Agricultura Sustentável, o selo Rainforest Alliance Certified.


+ 28% e 2 bi de embalagens

Luciana explica: "Estes são os sistemas de certificação de origem com maior credibilidade internacional e muito demandados
pelos mercados europeus, norte-americanos e asiáticos. A busca é crescente. No mercado interno há forte aumento na
procura da certificação florestal, principalmente após algumas cadeias varejistas terem adotado políticas de compra orientadas
para o consumo de material certificado FSC. O número de empresas certificadas em Cadeia de Custódia FSC no Imaflora,
em 2009, cresceu 28%. Os setores de embalagens, imprensa (revistas, jornais), tissue (papel higiênico, guardanapos etc.)
têm impulsionado a cadeia florestal. E há um aumento também muito significativo na procura por produtos agrícolas certificados, como café, cacau, uva e chá, estimulados, sobretudo pelos compradores internacionais".

No evento realizado pelo LIDE Sustentabilidade, em São Paulo, em meados de maio, Paulo Nigro, presidente da Tetra
Pak, revelou que o selo FSC foi adotado em 2 bilhões de embalagens comercializadas pela empresa. Um número que ilustra
o percentual citado por Luciana. Nigro foi um dos debatedores, a exemplo de líderes empresariais e ambientalistas, cujo entendimento é de que a agenda do consumidor final exigirá cada vez mais o uso de produtos de pouco ou nenhum impacto ambiental.

Atraso de uma década

Nesse quesito, nos volta à mente a imagem da tartaruga manca, para ilustrar o ritmo dos passos com que se avança no país. A consciência do consumidor no que se refere à importância da aquisição de produtos certificados e ambientalmente corretos ainda deve demorar pelo menos uma década para se concretizar, disse o presidente da Tetra Pak.

O que ele espera é que as empresas façam a sua parte antes de todos. "Quem não estiver focado nos pilares ambiental e social, além do econômico, deixará de existir num prazo muito curto", afirmou Nigro. "O apoio ao manejo sustentável é um diferencial de mercado. As empresas que utilizam produtos certificados terão preferência pelas empresas internacionais e terão vantagem competitiva em suas exportações", acrescentou.

Além da certificação da madeira

Das constatações no evento realizado pelo LIDE, uma delas é a de que entre os grandes vilões do mau uso de nossa madeira despontam o setor de construção civil, que absorve pelo menos ¾ da madeira ilegal comercializada no país, de acordo com Roberto Smeraldi, diretor da organização Amigos da Terra - Amazônia Brasileira. Ele lembra que outra quantidade considerável desse material vai para o setor siderúrgico, para ser transformado em carvão.

"As empresas que comercializam a madeira ilegal não cumprem a legislação trabalhista e nem ambiental. E quem consome esses produtos também está consumindo uma cadeia de destruição", acrescentou Rubens Gomes, presidente da Rede GTA - Grupo de Trabalho Amazônico e conselheiro do FSC , conselho brasileiro de manejo florestal, cujo objetivo principal é promover o manejo e a certificação florestal no Brasil.

"O consumidor e o empresário precisam se preocupar em saber de onde vem o produto que ele consome", disse Luciana, da
Imaflora. "Muitas empresas ainda não incorporam ativos e passivos ambientais em suas estruturas porque temem a competição. Mas a certificação deve ser o componente desta transformação cultural", avaliou Smeraldi. "A economia florestal vai além da certificação da madeira", acrescentou o diretor do Amigos da Terra. "Queremos expandir essas possibilidades para os setores agrícola e pecuário. O Brasil importou o selo de certificação SFC para a madeira, mas no que se refere à agricultura, temos massa crítica para desenvolver nossos próprios critérios de certificação. E não estamos falando apenas de certificação para produtos, e sim para unidades produtivas."

O presidente do LIDE Sustentabilidade, Roberto Klabin, ao ser questionado sobre a possibilidade de se aumentar as penas para produtores que cometam crimes ambientais, respondeu que a idéia é aplicar as leis que já existem e, ao contrário de punir, levar a estas pessoas opções para estimulá-lo a agir corretamente. "Levar opções de ganho para estes produtores é nosso maior desafio. Penalizá-los criaria ainda mais resistência", explicou.

O deputado federal Ricardo Trípoli (PSDB-SP), em sua participação no evento, afirmou que ainda há um grande preconceito
por parte dos parlamentares no que se refere às questões ambientais. "Prova disso é a ameaça que sofre o novo Código Florestal brasileiro", disse. Empresários ligados ao LIDE fazem suas gestões em Brasília para tratar da questão da certificação com parlamentares.

 
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