A quantidade é suficiente para abastecer 200 postos com gás natural veicular (GNV) ou acionar uma usina termoelétrica de 100 megawatts (MW). Produzido naturalmente em meio anaeróbico pela ação de bactérias em matérias orgânicas, o gás também pode ser produzido artificialmente por meio de biogestores,
tendo como matéria-prima resíduos de produção vegetal (como restos de cultura) e animal (como esterco e urina) e até da atividade humana (como fezes, urina e
resíduos domésticos).
"Esse desperdício em relação ao potencial energético do biogás está relacionado à escala de geração e produção. Os custos de implantação acabam não viabilizando isso", avaliou o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Airton Kunz. Para ele, o gás é uma fonte de energia
bastante interessante, já que vem da biomassa, uma substituta limpa para os combustíveis fósseis. "O cenário (da baixa utilização) deve mudar nos próximos anos", acredita.
Marcio Schittini, sócio da Acesa, empresa com dois projetos de aproveitamento de biogás em implantação no país, concorda. "O mercado brasileiro de biogás praticamente não existe. São muitas tentativas de pequeníssimo porte, e apenas duas de grande porte. Não obstante, aqui se produz mais resíduo e biomassa que qualquer outro lugar, portanto a tendência é que o Brasil seja o maior mercado de biogás do mundo", prevê.
Incentivo ao MDL
O caminho para ampliar a utilização, segundo ele, é incentivar que os projetos Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) que envolvem biogás não
apenas o queimem, mas façam também seu aproveitamento. "É preciso que tanto o painel intergovernamental de mudanças climáticas, em nível nacional e internacional, quanto a ONU avaliem positivamente projetos MDL que hoje apenas queimam biogás e queiram mudar para queima com uso energético. Realmente não faz muito sentido, na nossa visão, que os projetos já aprovados estejam presos a uma metodologia. Entendemos que os CERs (Certified
Emission Reduction ou Certificados de Redução de Emissões) existem para promover um mundo com produção mais eficiente e limpa e, no entanto, os projetos
são obrigados a queimarem e desperdiçarem o gás?", questiona.
Um exemplo citado pelo empresário é que quase todos os aterros privados do Brasil fazem uso do biogás, mas apenas para queima e não para utilização energética. A queima por si só já gera CERs que são negociados no mercado global trazendo lucros aos donos dos aterros. Já no caso dos aterros públicos e privados de pequeno porte, não existe qualquer aproveitamento. "Os aterros públicos têm problemas tanto burocráticos quanto operacionais. Captação de gás em aterro é assunto delicado e, se não está bem organizado, a iniciativa privada não tem interesse em participar. Isso acontece ainda mais nos aterros de menor porte, onde a escala, sendo pequena, precisa de organização e esforço ainda maiores", disse.
No caso dos aterros de grande porte, pelo menos existem perspectivas para que o produto passe a ser aproveitado. A venda de gás natural extraído do biogás está crescendo e os lucros têm atraído empresários do setor. "Este mercado ainda está incipiente justamente pelo ponto dos CERs, mas isso já está mudando. Os donos de aterro têm consciência de que o modelo de venda de gás não só traz mais benefícios quanto mais lucro", explica Schittini.
Neste caso, o biogás passa por uma espécie de purificação que resulta no gás natural. Atualmente esta é a principal área de atuação de sua empresa, que tem agroindústrias, empresas de saneamento, aterros sanitários e usinas de etanol como clientes. “Chamamos esse combustível de gás natural renovável (GNR ) e ele é exatamente igual àquele encontrado nos gasodutos. É uma ótima destinação para o biogás, pois, seja no quesito ambiental quanto no financeiro, substituir gasolina e diesel por GNR é muito melhor do que apenas queimar este gás ou usá-lo para gerar energia elétrica”, opina.
Para o pesquisador Airton Kunz, tanto o mercado de créditos de carbono quanto o aproveitamento energético são importantes. “Não se pode pensar o biogás centrado no crédito de carbono. Agora, a produção está se distribuindo tanto para este mercado quanto para a geração de energia. As duas atividades podem coexistir. Você pode ter certificação para créditos com geração de energia”, analisa. Segundo ele, o crescimento da utilização do biogás para obtenção de gás natural só depende de logística. “É um gás natural que não está purificado, se você conseguir ajustar a logística disso, terá uma grande fonte. A Embrapa está trabalhando nisso”.
Em agosto passado, a empresa participou, como parceira, do lançamento da Rede Brasil-Biogás, uma iniciativa da hidrelétrica Itaipu Binacional. A rede tem como objetivo promover a cooperação entre cientistas, técnicos e pesquisadores da área de geração de energia a partir do biogás. “A ideia principal é muito parecida com a Rede Européia que é agregar os interessados na geração e utilização do gás e também fazer com que a rede brasileira interaja com outras
redes e mercados”, conta o pesquisador. Segundo ele, são várias as experiências de sucesso obtidas no continente europeu. “Lá a coisa está bastante avançada”, diz.
Um dos motivos do avanço, segundo sua avaliação, é o fato de haver fortes subsídios para geração de energia elétrica a partir do biogás. “Acho que é uma alternativa também para o Brasil. Precisam existir mecanismos de incentivo para que essas tecnologias sejam implementadas e haja ganhos por parte dos geradores. É o fator econômico que faz a roda girar”, argumenta. Por outro lado, a implantação do modelo europeu, defendida por ele, é restrita ao que se refere aos subsídios. “Precisamos desenvolver tecnologias brasileiras e a Embrapa está trabalhando nesse processo. Nossa matriz energética é diferente. No Brasil, os custos de geração de energia são bem menores do que temos na Europa, onde existem usinas nucleares e termoelétricas, enquanto nossa energia provém das hidroelétricas. São situações diferentes”.
Mesmo já possuindo opções baratas de geração de energia, Kunz acredita que o biogás pode ter um papel importante no país. “Precisamos ter alternativas. A questão do biogás é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. O Brasil tem possibilidades muito grandes neste setor e precisa ser competitivo. Temos que olhar para o futuro”.
Uma novidade que pode ajudar neste avanço, segundo ele, é a regulamentação da geração distribuída a partir do biogás e sua comercialização em todo o país, realizada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em dezembro passado. Pela Resolução Normativa 390/2009, qualquer distribuidora de energia elétrica pode fazer chamadas públicas para comprar eletricidade produzida por biodigestores, que agora poderão fornecer para a linha de distribuição, em vez de somente consumir. “Isso permitirá que pequenos geradores de energia elétrica tenham ganhos a partir do biogás, abrindo oportunidades econômicas para o produto no meio rural”.
O potencial suíno
Há cinco anos, uma parceria entre a Itaipu Binacional, Companhia Paranaense de Energia (Copel) e produtores rurais de São Miguel do Iguaçu, no Paraná, permite a produção de energia elétrica a partir de dejetos suínos. A eletricidade gerada é usada pelas propriedades e o excedente é vendido à Copel. Cada suíno produz 10 litros de dejetos por dia e cada mil litros rende 1.360 litros de biogás, que geram 0,4 kWh de energia. Só na região, são 3 mil suínos.
Com a regulamentação esse modelo poderá ser adotado por produtores rurais de todo o país e o mesmo vale para empresas de saneamento, que também poderão utilizar os dejetos para gerar energia a partir de biodigestores. Exemplo de sucesso na área de saneamento, o projeto-piloto conduzido pela
Acesa em parceria com a Petrobrás na Central de Tratamento de Esgotos Alegria, no Rio de Janeiro, já está implantado e gerando energia elétrica para consumo da CEDAE na própria estação de tratamento de efluentes onde é produzido o biogás. “Estamos fazendo a operação assistida da solução neste momento e estamos vendo que é possível substituir 30% da energia elétrica demandada pela estação usando o biogás”, encerra Schittini.