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A digital das catástrofes

A digital das catástrofes

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Seção: Editorias - Categoria: Meio Ambiente
Escrito por Bruno Molinero Sex, 17 de Dezembro de 2010 14:25
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Desastres ambientais causaram à economia mundial prejuízos de US$ 1 trilhão. Isto, apenas na última década, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Erupções vulcânicas, terremotos, furacões e outros fenômenos naturais acabaram com a vida de mais de 230 mil pessoas somente neste ano.

E o número de catástrofes aumenta. De acordo com os últimos dados do CRED (Centre for Research on the Epidemiology of Disasters), o número de desastres ambientais aumentou mais de 10 vezes entre 1975 e 2009.

Por conta disso, a ONU criou o primeiro plano para redução de riscos de desastres. A ideia é que, até 2015, os países signatários adotem diretrizes para proteger sua população.

Contudo, as consequências de um desastre ambiental não se limitam ao território de um país. O Quênia, por exemplo, foi um dos lugares mais afetados do mundo com a erupção do vulcão Eyjafjallajokull, na Islândia. Apesar da distância física, a globalização econômica colocou em risco o emprego de 1,2 milhão de pessoas do país africano.

Vinte por cento de toda exportação queniana se baseia no mercado de flores. Quase a totalidade para a União Europeia. Com o fechamento do espaço aéreo europeu, as pétalas do Quênia simplesmente
não saíram do aeroporto de Nairóbi. Na época, os prejuízos chegaram a mais de US$ 2 milhões por dia.

Embora os impactos econômicos de uma catástrofe sejam evidentes, o saldo social é muitas vezes subestimado. O mundo, cheio de estatísticas e números em sua superfície, tem a base composta por pessoas. E são elas as maiores afetadas pelos fenômenos naturais devastadores.

A perna e os Loas

O terremoto do Haiti é um dos exemplos mais trágicos de catástrofes ambientais contemporâneas. Um exército de órfãos, de pessoas com membros amputados, de vidas que tiveram um fim abrupto. O número de mortos ainda é incerto. Entretanto, o presidente René Preval estima que tenha chegado a 300 mil.

Porém, por que o a terra tremeu? Pier Janis, 37, tem a resposta. Com olhar místico, ela brinca com o cigarro na boca e, depois de alguns segundos, responde: "Muita gente estava fazendo o mal e não estavam rezando o suficiente". O terremoto, que atingiu sete graus na escala Richter, seria um castigo dos Loas, deuses do vodu haitiano.

Uma das castigadas seria Leoni, 16, a mais velha de sete irmãos. No terremoto de janeiro, a casa caiu sobre sua perna. Hoje, a menina mora em um centro de reabilitação para pessoas com pernas amputadas, mantido pela ON G Handicap International, em Porto Príncipe. Sempre que coloca a perna mecânica, a garota chora. O membro sintético machuca. Mas Leoni precisa praticar. Em pouco tempo, ela terá que se mudar para um acampamento de desabrigados, juntamente com sua família.

Corremos o risco de esbarrar em histórias como essa em cada esquina. E isso pode estar se agravando. Segundo relatório da ONU , os desastres ambientais já são um dos maiores responsáveis pela alimentação dos fluxos migratórios - juntamente, é claro, com conflitos armados e outros mais badalados.

Se prestarmos um pouco mais de atenção, perceberemos que toda catástrofe desse tipo tem personagens como Leoni. Um impacto deixa marcas políticas, econômicas, sociais e, sobretudo, pessoais. São cortes na pele de gente de verdade. O que está em jogo não são apenas interesses nacionais. São vidas, com cicatrizes que podem demorar a fechar. Ou nem chegar a isso.