A convite do governador Mário Covas, assumiu a Secretaria Estadual do Meio Ambiente em 1995, ficando no cargo até 98.
Nas eleições de 98 e 2002, não conseguiu reeleger-se deputado, apesar de receber grande votação.
Mesmo longe dos cargos eletivos, porém, continuou militando em favor das questões ambientais e entre 1997 e 2002 foi membro oficial da delegação brasileira nas Conferências das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, dentre elas a Conferência realizada em Quioto, que deu origem ao Protocolo.
Em 2000, oficializou esta discussão na agenda do governo federal com a criação do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas e em 2005 assessorou a formação do Fórum Paulista.
Afastado da política há doze anos, período em que vem atuando como consultor e conferencista em eventos nacionais e internacionais, seu nome voltou a frequentar o noticiário político nos últimos meses.
Fábio foi convidado pela senadora Marina Silva para concorrer ao governo estadual nas eleições de outubro, pelo Partido Verde (PV), do qual é filiado desde 2003,quando despediu-se do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).
“Não posso dizer que sim nem que não”, disse em entrevista a NEO MONDO sobre o convite de Marina.
Mudanças Climáticas, COP 15 e outros temas também foram discutidos. Confira.
Neo Mondo: Em 2000, o sr. articulou a criação do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Como se deu essa criação? Quase dez anos depois, como avalia a atuação do Fórum?
Fábio Feldmann: Normalmente os presidentes da República eram muito distantes deste tema, especialmente no Brasil. Comecei a defender que eles protagonizassem essa discussão. Durante Quioto, o então presidente Bill Clinton ligou para o Fernando Henrique duas vezes pedindo ajuda na negociação.
A partir daí surgiu a ideia do Fórum. Em 99, foi criada a Comissão Interministerial de Mudança do Clima, mas não previa participação da sociedade civil nem do setor empresarial.
Não dá para discutir esse tema sem uma discussão ampla e para isso foi criado o Fórum no ano 2000, presidido pelo presidente da república, com alguns ministros e com objetivos múltiplos, mas basicamente de abrir um espaço público de diálogo entre governo e sociedade.
Fui presidente e secretário do Fórum durante quase dois anos e no governo FH, o presidente reunia-se por muitas horas com as pessoas, o que eu acho muito importante por ser um tema complexo.
O fato de se ter acesso ao presidente, que era indagado pelos seus pares, quebrou um pouco o monopólio do Itamaraty nessas questões. A tradição aqui no país era que o Itamaraty representasse o Brasil, mas sem sempre ele estava aberto a uma função mais ampla nesses assuntos. Acho que o Fórum quebrou um pouco isso.
No caso do Lula, o Fórum perdeu um pouco do seu caráter participativo, mas acho que ainda é importante, porque na discussão de metas para o Brasil ele teve um papel central, na minha opinião. Foi ele que, de certa maneira, conduziu essa consulta junto à sociedade.
Mas os estilos do Fernando Henrique e do Lula são muito diferentes.
Neo Mondo: Na sua opinião, os governos brasileiros, em suas instâncias municipal, estadual e federal, têm feito sua parte no combate às mudanças? Quais ações merecem ser destacadas?
Fábio Feldmann: Eu acho que sim, eles têm feito. Por exemplo, o Amazonas elaborou uma legislação sobre política estadual de mudanças do clima em 2005. A cidade de São Paulo também tem uma política importante, assim como o estado que tem inclusive me-
tas em termos absolutos, diferente da meta brasileira.
Então, eu acho que a tendência é que os estados e municípios fiquem cada vez mais engajados, como ocorreu nos Estados Unidos. Quando o presidente Bush negou o aquecimento global e tirou o país de Quioto, muitos estados e municípios tiveram um
papel relevante, inclusive a Califórnia, governada pelo Schwarzenegger, que é republicano.
Acho que os estados e municípios têm um papel muito importante neste jogo e é crucial que eles estejam engajados.
Neo Mondo: As novas metas de redução da emissão de gases em São Paulo sofreram críticas de alguns setores. Os críticos alegam que elas podem prejudicar o crescimento econômico. Qual sua opinião a respeito?
Fábio Feldmann: O tema de clima permite identificar duas visões de mundo muito claras: uma é do século 19 e outra do século 21.
A visão do século 21 é a que temos que caminhar para uma economia de baixa intensidade de carbono, até pela questão de competitividade. A visão do século 19 é a visão do pré-sal, a visão de que o Brasil não pode ter metas.
Acho que essas críticas revelam uma visão de espelho retrovisor. Até porque acho que São Paulo vai ter que fazer um grande esforço, mas as metas são absolutamente viáveis.
Um dado que tenho falado sempre é sobre um dos grandes desafios, que é o transporte. Cerca de 46% dos caminhões de carga que trafegam no estado circulam vazios.
Isso representa congestionamento, preço no frete mais alto, consumo de combustível, emissão de gás, enfim, é um dado significativo de como a mudança do clima pode nos ajudar a ter uma sociedade mais eficiente e com maior qualidade de vida.
Cito este caso, porque dá para imaginar o que representa a metade dos caminhões de carga da região metropolitana de São Paulo. É muita coisa.
Neo Mondo: Como consultor, o sr. tem contato direto com o empresariado. Acredita que, em geral, ele está aberto a mudanças para se adequar às novas diretrizes?
Fábio Feldmann: As empresas que têm líderes apoiam claramente, inclusive porque as metas resolvem o que se chama na linguagem empresarial de risco regulatório, quer dizer: a meta está aí, vou me preparar para atender, vou avaliar os riscos, mas também as oportunidades para meus negócios.
A receptividade também depende do segmento. Acho que existem alguns que são muitos refratários, que ainda veem não só o clima, mas o meio ambiente, como um obstáculo a ser vencido.
Acho que esses segmentos continuam atrasados e serão afetados não tanto pela regulação, mas pela falta de visão.
Por outro lado, há segmentos que já estão se preparando para enfrentar essas questões, inclusive nem só do ponto de vista da redução de emissão, mas também de adaptação. Veja o custo das chuvas muito intensas para determinados segmentos. São ameaças à infraestrutura.
Enfim, são muitos os problemas que vão surgir com o aquecimento.
Neo Mondo: Por falar em chuvas, muito se tem comentado a respeito da relação da atual onda de tempestades que se abateu sobre São Paulo com os efeitos do aquecimento global, porém não existe consenso sobre o tema. Qual a sua opinião pessoal?
Fábio Feldmann: Não dá para afirmar que é aquecimento global, mas não dá para afirmar que não é aquecimento, há uma sinergia de fatores. Em São Paulo, pode ter a influência do El Niño, do aquecimento, tem também a questão das grandes áreas impermeabilizadas, que são as chamadas ilhas de calor. Existe um conjunto de fatores e é muito difícil isolar um só.
De qualquer forma, não vi nenhum cientista dizendo que é aquecimento, mas também não vi nenhum dizendo que não é. Isso mostra as dificuldades que a gente ainda tem em relação a isso.
Neo Mondo: O sr. acompanhou de perto a realização da 15ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP 15), realizada em dezembro, na Dinamarca. O sr. ficou decepcionado com os resultados da reunião?
Fábio Feldmann: Na COP 15, por antecipação, já sabíamos os problemas que haveria. Primeiro, a questão da dificuldade do governo americano de não ter mandato para uma negociação, em função de a lei que trata dessa matéria não ter sido aprovada no
Senado. Segundo, a falta de liderança da Dinamarca e da própria ONU, há claramente uma falta de liderança brutal nisso.
O lado bom é que quando existe um fracasso e ele é reconhecido por todos, o fracasso pode ser um grande ativo, que é cobrar dos responsáveis medidas para fazer com que, no processo, vire um sucesso. Isso é mais especificamente o que vai acontecer no México (16ª Conferência, a ser realizada neste ano). Estou otimista, porque o grande
equívoco que foi a falta de liderança em geral pode ser resolvido neste ano, que temos até dezembro.
Neo Mondo: Por fim, o sr. foi convidado pela senadora Marina Silva para disputar o governo estadual em São Paulo. Como recebeu o convite? Qual a expectativa quanto à sua candidatura?
Fábio Feldmann: Estou analisando o convite, não posso dizer que sim nem que não. É uma decisão pessoal mesmo. Estou há doze anos longe da política, já construí uma vida fora dela, mas ainda estou pensando no assunto.
Fábio Feldmann também...
...foi candidato à Prefeitura de São Paulo em 1992, obtendo 5,8% dos votos
...foi o chefe da delegação brasileira parlamentar na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), realizada no Rio de Janeiro, também em 1992 (ECO-92)
...foi o idealizador do rodízio de automóveis, instituído na capital em 1997, quando era secretário estadual do Meio Ambiente
...é o relator de importantes diretrizes como a Política Nacional de Recursos Hídricos, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica