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Processo de evolução integral

Processo de evolução integral

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Seção: Editorias - Categoria: Perfil
Escrito por Gabriel Arcanjo Nogueira Qua, 01 de Junho de 2011 11:36

Formado em Direito pela Universidade de São Paulo, com especialização em Administração de Empresas pela Universidade Mackenzie, Roberto Klabin é presidente da Fundação SOS Mata Atlântica, ONG com a qual se mistura a história da Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo. Ambas completam 25 anos em 2011.

Roberto foi estagiário na Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), presidiu a Fundação Florestal, criada no governo Montoro, e esteve durante 11 anos no Conselho Estadual de Meio Ambiente paulista.

Nada, porém, que o restrinja aos limites desse estado quando o assunto é meio ambiente, sustentabilidade, ecossistema. Roberto revela um caso de amor antigo, descrito no Boxe que acompanha este Perfil. Com as mesmas singeleza e objetividade com que trata da SOS, do Código Florestal, do Fórum Mundial de Sustentabilidade. Vale a pena compartilhar um pouco de sua rica experiência e aprender com suas ideias que viram experimento.

NEO MONDO: Você se define, antes de mais nada, como ambientalista? O que, a seu ver, é ser ambientalista?

Roberto Klabin: Interessante essa questão de autodefinição! O que é ser ambientalista? Sou ambientalista? Penso que a mera categorização diminui enormemente a capacidade do indivíduo de transitar fora do espaço que ele definiu ocupar. Dificulta seu entendimento das posições e aspirações daqueles que não compartilham de suas ideias, muitas vezes acentuando a divisão entre os bons (nós) e os ruins (os outros).

Na minha opinião, ambientalismo é um processo na evolução das pessoas. É uma maneira de subir mais degraus de consciência, de enxergar-se como parte de algo muito grande, de respeitar a força ativa criadora da natureza, de tudo o que é vivo e de tudo o que é belo.
Sendo assim, sou mais uma pessoa trilhando esse caminho de evolução espiritual e material.

NEO MONDO:  Desde quando se identifica com este ser ambientalista? O que
considera mais relevante em cada um dos projetos de que participa ou participou?

Roberto Klabin: Desde o tempo em que cursei a Faculdade de Direito do Largo São Francisco estive envolvido com a causa ambiental. Não fosse o Fabio Feldmann, que em 1977 me convidou para participar ativamente da luta contra a construção do futuro aeroporto internacional de São Paulo, conhecido como Caucaia do Alto, eu talvez não estivesse hoje participando de ONGs ambientalistas. Talvez minha dedicação à natureza se desse de outra forma, menos ativa e política.
Sou sempre grato ao convite do Fabio, pois pude descobrir uma causa e uma oportunidade de trabalho que àquela época poucos davam valor, mas que hoje compete com o segundo setor na criação de empregos e oportunidades.

NEO MONDO: Em que medida tornar-se um ambientalista foi impulsionado pela sua formação acadêmico-profissional-familiar? O lado empresarial representa quanto nessa escolha?

Roberto Klabin: Participei e participo de muitos projetos como presidente da Fundação SOS Mata Atlântica. Talvez o maior projeto de todos seja o de administrar essa fundação há 20 anos, como seu terceiro presidente, garantindo, graças ao enorme trabalho de sua equipe, a chegada da Fundação aos 25 anos de existência.

Foram muitos desafios e muitas oportunidades. Quando se faz uma comparação do segundo setor da sociedade, percebe-se que de cada 100 empresas criadas, segundo dados do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), 27% delas morrem no primeiro ano de operação, e cerca de 60% das empresas não conseguem completar o quinto aniversário.

NEO MONDO: Como é possível conciliar múltiplas funções com desenvoltura e eficácia?

Roberto Klabin: Para uma ONG como a SOS, com uma difícil tarefa de conscientizar e mobilizar as pessoas em causas de interesse difuso, como a defesa do direito de as próximas gerações terem acesso a uma qualidade de vida adequada, desfrutando de um meio ambiente rico e diverso, isso não é pouca coisa, principalmente neste país.

Antes de cursar a faculdade, eu jamais me interessava pelo meio ambiente. Considero que minha infância foi muito influenciada pelas férias passadas nas fazendas que minha família possuía no Pantanal e no Estado do Paraná.

Tais lugares, principalmente o Pantanal, deixaram marcas indeléveis na minha alma. Talvez pela amplitude das paisagens, pelo tamanho das florestas e pela existência de uma fauna nativa exuberante, algo tenha marcado para sempre a minha pessoa.

NEO MONDO: Além de reminiscências acadêmicas e familiares, há alguma outra marcante em sua vida?

Roberto Klabin: Interessante lembrar um filme que me tocou muito e que já está praticamente esquecido. Esse filme, do começo da década de 1970, chamava-se em inglês Soylent Green. Em português, acho que a tradução era O mundo em 2020. O artista era Charlton Heston, que também estrelou, entre outros, a primeira versão de O planeta dos macacos. O filme falava em superpopulação e catástrofe ambiental. Na época, achei seu conteúdo muito forte - e aquilo, tenho certeza, me abriu para um dia abraçar a causa ambiental.

NEO MONDO: Desde então, não parou mais?

Roberto Klabin: Passados todos esses anos, reconheço que essa dedicação ao meio ambiente, na SOS Mata Atlântica e em outras entidades, como o Instituto SOS Pantanal, que também dirijo, tornou-se meu principal projeto, ao qual dedico a maior parte de minha atenção e tempo. Acredito que essa decisão de priorizar essa missão decorra do fato de eu me ter perguntado, há mais ou menos 10 anos: onde é que eu poderia fazer mais diferença, ou seja, onde é que meu tempo poderia ser mais bem aplicado e os resultados conseguidos mais relevantes para mim e para minha concepção de mudar o mundo.

NEO MONDO: Quem fala mais alto: o empresário, o ambientalista ou o acadêmico?

Roberto Klabin: Como empresário, sinto que já cumpri minha etapa de realização não vislumbrando, por esse caminho, grandes resultados, atuações ou satisfação pessoal. Já como militante no movimento ambiental, com a experiência que adquiri no segundo setor, mais o domínio completo de minha agenda, a ajuda que posso dar é mais relevante, e os resultados têm-me agradado enormemente.

NEO MONDO: Como a SOS Mata Atlântica avalia o Código Florestal, cuja votação no Congresso virou um imbróglio? 

Roberto Klabin: O que posso dizer é que toda essa polêmica infelizmente não discute o papel da maior importância que o Brasil poderia assumir no concerto das nações como a maior potência ambiental planetária. Essa, em minha opinião, é a maior vantagem competitiva brasileira. Energia limpa, clima propício, terra e água doce em abundância, a maior floresta tropical do planeta, ocorrência de aproximadamente 20% de todas as espécies vivas do planeta e, finalmente, população proporcionalmente pequena em relação ao tamanho do território nacional.
Se hoje o país se transforma em uma potência agrícola, imagine o seu futuro brilhante caso tirasse proveito desse conceito de potência ambiental e desenvolvesse suas atividades no campo agrícola de forma mais eficiente e sustentável.

Infelizmente, o que se vê é que as propostas dos setores mais conservadores da sociedade brasileira em relação à mudança do atual Código Florestal não levam o país a esse aprimoramento.

NEO MONDO: Corremos o risco de retrocesso em relação ao Código de 1965, podemos esperar um avanço, um aperfeiçoamento ou, quem sabe, um complemento?

Roberto Klabin: Toda essa discussão levada a cabo por esses conservadores vai tirar o Brasil do século XIX para levá-lo até a primeira metade do século XX. O século XXI nem existe para a maioria de nossos congressistas; afinal, a política que praticam nesse caso lembra muito aquela utilizada pelos oponentes da abolição da escravatura, quando diziam que sem os escravos o Brasil não teria mais agricultura. Agora, o discurso é o mesmo, ou seja, sem a flexibilização da lei ambiental e a anistia dos infratores não teremos mais condições de produzir alimentos.

NEO MONDO: Tem como apontar no novo Código uma meia dúzia de pontos positivos e seis pontos negativos?

Roberto Klabin: Não cabe aqui discutir ponto por ponto do projeto, visto que o que está errado é exatamente utilizar-se o texto proposto pelo deputado Aldo Rebelo para então promover correções e negociações. Em minha opinião, esse texto deveria ser descartado, e toda a discussão da modernização do atual Código Florestal deveria ser recomeçada do zero, sendo conduzida por economistas e cientistas não ligados a lado nenhum sob o comando direto do governo, com óbvia participação de todos os setores interessados e da sociedade em geral.

Esta é uma tarefa para estadistas, não para políticos de olho na próxima eleição apenas.

NEO MONDO: Que avaliação é possível se fazer de um evento do porte do Fórum Mundial de Sustentabilidade, que mereceu de NEO MONDO ampla cobertura em suas duas primeiras edições: é sinal de maturidade da classe empresarial brasileira ou algo mais?

Roberto Klabin: Acredito que a iniciativa do Fórum Mundial de Sustentabilidade é válida e boa. O que é interessante observar é que esse evento começou mais como um encontro com a mídia, para apresentar as ideias de algumas personalidades estrangeiras envolvidas com a questão de sustentabilidade para, já na segunda edição do Fórum, apesar das personalidades convidadas (para atrair a mídia), haver mais espaço para conteúdo com vários grupos de trabalho e de participação maior de palestrantes nacionais.

A participação das empresas está aumentando e, acredito, a fórmula do Fórum, com a sua localização em Manaus, tem todos os ingredientes para tornar o evento um destino obrigatório para a discussão de temas dessa importância.

NEO MONDO: A legislação específica referente à Mata Atlântica (Lei 11.428/2006; Decreto 6.660/2008), a seu ver, é suficiente ou chegou tarde?

Roberto Klabin: Esta lei não chegou tarde, e só temos que comemorar sua existência. A Mata Atlântica é o único bioma brasileiro com uma lei específica. De acordo com o Atlas da Fundação SOS Mata Atlântica, desenvolvido em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o remanescente da Mata Atlântica até 2010 era de pouco mais de 11,3% do bioma original, o que significa 14,6 milhões de hectares (floresta, mangue e restinga) de vegetação nativa existente. Considerando apenas remanescentes com mais de 100 hectares, esse índice cai para pouco menos de 8% do bioma original.

Isso mostra a extrema fragilidade atual do bioma em face da alta fragmentação, ou seja, cerca de 40% do que resta de Mata Atlântica estão significativamente comprometidos por constituírem blocos florestais inferiores a 100 hectares.

NEO MONDO: Para quem, a seu exemplo, formou-se em Direito, como explicar que o País seja tido como bom de leis, mas que não saem do papel, em sua maioria, quando não vêm com atraso? Como chegamos a destruir toda a Mata Atlântica, por exemplo, como se desrespeitam tanto outros biomas?

Roberto Klabin: Apesar da fragilidade deste bioma, a lei não chegou tarde, pois até o final dos anos 1980 ainda não se conheciam o conceito e a extensão do bioma. Foi a SOS Mata Atlântica que criou esse conceito e definiu com a ajuda de inúmeros cientistas esse bioma.

A criação da lei foi tumultuada, a partir do Decreto 750/92. Esse decreto proibia tudo, e isso fez com que a Lei da Mata Atlântica fosse gestada de forma diferente. Discutida estado por estado, quando chegou a lei, chegou de tamanho certo. Foi retirada uma série de penalidades e questões previstas já em outras leis.

Ajudou também a existência de um grande aparato infralegal, regulado pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), além da previsão na lei dos diversos níveis governamentais da implantação da lei. Temos de lutar, no bioma Mata Atlântica, para que sua recuperação seja equivalente ao cumprimento da lei, restaurando a reserva legal e as APPs em sua grande maioria até hoje.

NEO MONDO: Como isso seria possível?

Roberto Klabin: Vejamos: se de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aprovado pelo Diário Oficial da União, a Mata Atlântica cobria 1,3 milhão de km² ou 130 milhões de hectares e só existem 14,6 milhões de hectares, ou 11,3% do bioma original, verificamos que desses 14,6 milhões de hectares, somente 3,4 milhões de hectares (2,6% do bioma original) estão protegidos sob a forma de unidade de conservação de proteção integral.

Remanescem pouco mais de 11,2 milhões de hectares (menos de 9% do bioma fora das unidades de conservação) protegidos pelas áreas de preservação permanente ou reservas legais. Nessa escala, pode-se dizer que faltariam, para completar os 20% correspondentes à legislação em vigor hoje, algo em torno de 14 milhões de hectares para ser restaurados.

NEO MONDO: O que esperar e cobrar de governos, empresas, ONGs, cidadãos para termos mais qualidade de vida?

Roberto Klabin: Se a mudança do Código Florestal nos termos da proposta do deputado Aldo Rebelo se concretizar, a meta proposta pelas organizações que integram o Pacto pela Mata Atlântica de recompor 15 milhões de hectares até o ano de 2050 ficará totalmente comprometida.

Por essa e por outras razões é que acredito que o papel das ONGs ambientalistas é de estar traduzindo e mobilizando a população em geral para os desafios e oportunidades que a manutenção da qualidade de vida das pessoas exige.

Fazer as pessoas saírem de suas zonas de conforto é complexo, visto que o entendimento por parte delas, de que qualidade de vida é fundamentalmente viver num ambiente sadio, belo e diverso, nem sempre é compreendido ou faz parte de suas prioridades.

Em vez de as ONGs quererem transformar o meio ambiente/qualidade de vida como prioridade para as pessoas, é mais fácil - no estágio educacional e de cidadania que a maioria da população ocupa -, introduzir esse conceito dentro das reais prioridades que as pessoas estabelecem.

NEO MONDO: Dá para alcançar essa meta?

Roberto Klabin: Sim, se, por exemplo, explicar-se a relação da saúde humana com a qualidade da água consumida pela população e as razões da perda dessa qualidade. Falar de moradia e zonas de risco, como encostas e morros, explicando por que devem ser protegidas essas áreas e os perigos de sua ocupação indevida.
São tantos desafios e oportunidades! As ONGs ambientalistas querem educar os atuais consumidores para que estes se transformem em reais cidadãos.

NEO MONDO: Aí entra a SOS...

Roberto Klabin: Vale a pena acompanhar os trabalhos da Fundação SOS Mata Atlântica nesse sentido. Todos os anos, em maio, comemoramos o Viva a Mata. Este evento ocorre no Parque do Ibirapuera durante um fim de semana, e milhares de pessoas têm a oportunidade de visitar, em um mesmo lugar, projetos ambientais interessantes e iniciativas que visam à sustentabilidade, vindas das mais diversas regiões do país.
Há inúmeros projetos, possíveis de seguir pelo site: www.sosma.org.br. Para acompanhar a SOS pela internet basta cadastrar-se na Conexão Mata Atlântica, rede social da Fundação que reúne interessados em meio ambiente, e acessar www.conexaososma.org.br. Também temos nosso twitter (@sos), vídeos no youtube (youtube.com/sosmata), além do www.sosma.org.br/blog.

Amor antigo vira experimento

O Pantanal é um caso de amor antigo. Desde os 10 anos de idade frequento a região.

Passados 45 anos, meu amor continua o mesmo, mas meu envolvimento com a região extrapolou minha fazenda e meus negócios e passou a participar da gestão de uma nova ONG, a SOS Pantanal.

Assim como a SOS Mata Atlântica, o objetivo é mapear a região por satélite para entender a situação do bioma, além de promover uma contínua busca pelo diálogo e troca de experiências que possam promover a conservação do Pantanal.

Para tanto, neste ano vamos promover a primeira Expedição Pantanal para conhecer as boas práticas que promovem a conservação das atividades econômicas e do meio ambiente na região.

Vamos visitar durante seis meses todas as regiões do Pantanal e do planalto que circunda a planície pantaneira. Vamos conversar com fazendeiros, peões, comunidades, prefeituras, câmara de vereadores e associações de classes.

Em 2012, uma vez tabulados os dados, iremos promover uma grande apresentação desses conhecimentos buscando ampliar o diálogo e o entendimento entre todos aqueles que vivem no Pantanal em prol da manutenção da qualidade de vida, dos costumes e da sua cultura.

Sobre minhas atividades empresariais no Pantanal, ressalto apenas que na minha propriedade procuro equilibrar pecuária extensiva com outras atividades como turismo ecológico, pesquisa e conservação de fauna, além da criação de uma grande área de preservação, a RPPN Dona Aracy.

Considero que minhas iniciativas são como um experimento e, assim como fui pioneiro no Pantanal em iniciar o turismo contemplativo de fauna, quem sabe muitas outras ideias, se tiverem êxito, sirvam para contribuir ainda mais para a conservação desse tesouro ecológico.