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José Goldemberg

José Goldemberg

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Seção: Editorias - Categoria: Perfil
Escrito por Gabriel Arcanjo Nogueira Ter, 05 de Junho de 2012 13:13
... NEO MONDO foi até o IEE/USP ouvir uma das mais respeitadas autoridades em energia e mudanças climáticas; seu recado não deixa dúvida sobre os riscos que corremos.
José Goldemberg, físico e professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE), alia, como poucos, o notório saber acadêmico-científico ao seu desempenho administrativo e político de alcance social inegável. Doutor em Ciências Físicas pela Universidade de São Paulo (USP), da qual foi reitor de 1986 a 1990 e com a qual se identifica há seis décadas, ele reservou espaço na sua concorrida agenda e recebeu NEO MONDO para uma conversa de quase uma hora no seu gabinete, em que uma diversificada Literatura ocupa as estantes desde a antessala. Livros acompanham Goldemberg, nascido em Santo Ângelo (RS), desde quando cursou o Primário e o Secundário em Porto Alegre. Ao chegar a São Paulo, para completar os estudos, morou próximo à Biblioteca Mário de Andrade, na região central da capital paulista, e intensificou o gosto pela leitura.
Mentor e um dos signatários do documento “Rio mais ou menos 20? O Brasil frente aos desafios da transição para a Economia Verde”, Goldemberg é crítico veemente – e não lhe falta embasamento para isso, bem como aos seus colegas ex-ministros e personalidades de outros setores – dos preparativos para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. “Caminhamos anestesiados para a Rio+20”, disse em entrevista quando da apresentação da primeira versão do documento. Esta e outras avaliações do físico e professor convém conferir na entrevista que segue, pela relevância dos assuntos abordados e pela maneira lúcida e, até certo ponto, bem-humorada que Goldemberg sabe imprimir nas suas respostas.
NEO MONDO: O senhor, no meu entendimento, avalia o saber acadêmico-científico com uma boa prática política. O que falta para a comunidade científica, no caso, a nossa, ser mais ouvida ou bem-aceita nas esferas do governo?
Goldemberg: Olha, a comunidade científica brasileira, como outras comunidades (as dos promotores ou dos policiais militares ou dos juízes), elas se manifestam frequentemente sobre uma grande variedade de assuntos, mas principalmente sobre orçamentos. E, como eu estive no governo durante parte da minha carreira, eu acabei percebendo que essas demandas são recebidas pela área financeira do governo como corporativas. Eu acho que esse é que é o problema, quer dizer, as demandas e as colocações dos cientistas – muitas vezes bem colocadas alertando o governo sobre caminhos que não devem ser seguidos – são confundidas com reivindicações corporativistas, de modo que é muito importante que cientistas apresentem as suas visões sobre o problema sem qualquer ranço que seja interpretado como uma solicitação para mais recursos ou para melhores salários.
Eu vou dar um exemplo: a Amazônia é uma área extremamente controvertida porque lá o desmatamento é algo que não pode continuar porque, claramente, é contrário ao interesse nacional, e os cientistas se manifestam frequentemente sobre isso. Mas aí eu reparo que, ao discutir o problema da Amazônia, os cientistas argumentam que é preciso criar mais centros de pesquisas científicas na região – o que logo é interpretado como uma demanda corporativa.
A rigor o que falta para reduzir o desmatamento na Amazônia são políticas públicas que envolvem ciência, mas não são laboratórios científicos que vão determiná-las. O que lhes cabe é dar subsídios para isso, mesmo porque os problemas não são apenas de ordem científica, mas antes de organização social, de direitos de propriedade e por aí afora.
Há um entendimento de que  precisaríamos criar mais 100 mil cientistas para entender melhor a Amazônia. É verdade que há problemas na Amazônia que ainda não entendemos, mas os entendemos o suficientemente bem para formular políticas públicas adequadas.
NEO MONDO: O senhor diria que as parcerias público-privadas são uma boa alternativa?
Goldemberg: É uma boa saída, sem dúvida, desde que entendido que se trata de um problema de organização social. Reconheço que o Ministério do Meio Ambiente tem tentado soluções desse tipo, e não é de hoje. Vem da época da ministra Marina Silva, quando foi criado um tipo de cessão por 20 anos para as empresas fazerem a exploração das florestas de maneira sustentável – uma ideia interessante, de cuja efetivação ainda é um pouco cedo para calcular o efeito que possa ter produzido.
NEO MONDO: Mas ela está em andamento? Não foi abortada?
Goldemberg: Ela está em andamento, mas é pouco cedo ainda para avaliar o alcance do que possa ter sido feito.
NEO MONDO: Depois de ocupar cargos estratégicos, entre eles o de reitor da USP, presidente da CESP, ministro da Educação, secretário de Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente em São Paulo e no governo federal, o que, a seu ver, fica de mais significativo nessa experiência toda?
Goldemberg: Olha, daria para destacar algumas. Mas, de todas as experiências administrativas por que eu já passei na vida, a mais significativa foi a de ser reitor da USP. Isso porque é uma posição à qual se chega ao ser escolhido pelos seus pares. O reitor tem grande autonomia, o que não é o caso, por exemplo, de uma pessoa que ocupa um ministério, no qual tem de submeter-se, primeiro, à área financeira, com as implicações orçamentárias, e além disso ao presidente, ao Congresso Nacional e a outros órgãos.
Como reitor da USP efetivamente o cargo me possibilitou grande autonomia, e eu tentei usá-la ao máximo no sentido de melhorar a qualidade da Universidade de São Paulo. Hoje, ao fazer 20 anos desde que eu deixei o cargo, vejo com satisfação que desde então a produtividade científica dessa universidade atingiu níveis muito mais elevados, e a USP está entre as 50 melhores universidades do mundo. Isso não foi feito sem um pouco de sangue porque mexer nas estruturas é difícil, e as pessoas resistiram na ocasião à introdução de critérios de qualidade mais exigentes, mas que a longo prazo elevaram o nível da USP a um padrão internacional extremamente satisfatório.
NEO MONDO: Que iniciativas desse tempo considera as mais bem-sucedidas e cujos efeitos ainda perduram?
Goldemberg: Em nível do governo de estado a atividade mais importante e duradoura da minha época foi a introdução da colheita mecanizada da cana. Antigamente a cana era colhida apenas no facão e, ainda por cima, era queimada, procedimento que resultava em fonte de poluição muito acentuada no interior.
Foi um trabalho extremamente penoso porque parte dos trabalhadores era composta por  boias-frias, e a colheita mecanizada em São Paulo foi objeto de resistência  nos sindicatos porque eles argumentavam que isso iria reduzir a quantidade de empregos.
O que, de fato, ocorreu, mas tivemos a compensação pela qualidade dos empregos gerados, além de a tecnologia possibilitar a expansão da produção de cana. E mesmo a grande maioria do pessoal que ficou sem emprego por causa da mecanização acabou sendo empregada em outras áreas. O que vemos hoje é que o setor de cana é um daqueles em que o trabalho é mais regulamentado, em que existe mais mão de obra regularizada no Ministério do Trabalho com carteira assinada. O nível de qualificação profissional de trabalhadores também subiu porque, se antes bastava empunhar um facão, agora eles operam colheitadeiras computadorizadas. Daí o impacto duradouro dessa nossa iniciativa.
NEO MONDO: Com benefícios sociais obviamente?
Goldemberg: Além dos evidentes benefícios sociais, há também melhor produtividade na colheita e no processamento da cana.
Já na área federal, eu creio que a atividade mais importante que eu realizei, como ministro, foi nos trabalhos de coordenação da Conferência de 1992, a ECO 92, o grande encontro mundial sobre desenvolvimento sustentável e meio ambiente, que resultou em instrumentos estratégicos: o Código da Biodiversidade, a Agenda 21, entre outros.
Algo que impactou o desenvolvimento da área ambiental não só do Brasil, mas do mundo todo durante 20 anos. Agora, ao nos aproximarmos do 20º aniversário desse acontecimento notável, o que nós vemos é um panorama bem diferente daquele de 92: se lá havia grande entusiasmo em relação à Conferência e à expectativa sobre resultados significativos, agora – a dois meses da Rio+20 – enfrentamos um período de baixo-astral, em que noto as pessoas bastante pessimistas em relação a resultados.
Dou razão a elas porque os documentos que existem até agora para a Rio+20 são todos declaratórios e, se propõem algo, apenas repetem propostas de 20 anos atrás. Olham mais o passado do que o futuro, quando a ECO 92 mirou efetivamente o futuro. Foi por esse motivo que um grupo de ex-ministros, todos do Meio Ambiente, se reuniram recentemente e fizeram um documento muito interessante pelo nome do Brasil frente aos desafios para a produção da economia verde; nele estão várias propostas a fim de, digamos, tentar dinamizar os preparativos e efetivamente dinamizar a ação do governo federal nessa área.
NEO MONDO: O senhor é um dos mentores e signatários desse documento, bastante crítico.  Quais os pontos mais importantes nele contidos?
Goldemberg: Nas recomendações que os ex-ministros fazem nesse instante eu ressaltaria que a mais importante é tomar medidas práticas para a adoção de uma economia de baixo carbono, resultante não só de propostas de ambientalistas, mas que seja na realidade uma maneira sucinta de propor o desenvolvimento sustentável. Isso porque na medida em que a gente utiliza fontes de energia de produtos que têm na sua origem baixo carbono nós preservamos a natureza.
Por exemplo, uma atividade importante na economia de baixo carbono é que florestas não sejam queimadas porque, quando se queima floresta, se emite grande quantidade de carbono e, portanto, desmatamento é algo extremamente negativo do ponto de vista ambiental.
Já para a economia verde o que falta nos preparativos da Rio+20 é especificar metas que sejam, digamos, marcos a ser cumpridos na efetivação dessa economia. Não basta uma exortação de que é importante seguir o caminho de uma economia verde; é preciso dizer o  que, como e quando fazer de fato.
NEO MONDO: Ou seja, estabelecer metas viáveis?
Goldemberg: Metas viáveis. E isso ainda não foi feito. As pessoas se perguntam às vezes se ainda existe tempo suficiente para mudar o atual marasmo que existe nessa área e adotar medidas mais eficazes. Eu creio que sim, e o Brasil poderia efetivamente desempenhar uma liderança nessa área, mas não a está exercendo no momento.
NEO MONDO: A sua expectativa é a de que as sugestões apresentadas no documento sejam devidamente levadas em conta, suponho. Em que medida elas servirão para fazer da Rio+20 um acontecimento que vá além da retórica ou que não resulte em mais uma carta de boas intenções?
Goldemberg: Basta olhar como estão os preparativos até hoje (meados de abril): a Organização das Nações Unidas preparou um documento com 128 parágrafos; desses, 120 são exortações, em que se reafirmam decisões tomadas no passado.
NEO MONDO: Eles tomam por base a ECO 92...
Goldemberg: Isso e outras decisões tomadas nesse meio tempo. Apenas 8 parágrafos se referem a alguma coisa que tem um sabor de futuro, e certamente uma delas é uma recomendação de que seja seguido um caminho que nos leve para uma economia verde. Mas falta um roteiro de como que isso vai ser feito. As pessoas acreditam que ainda há tempo de efetivamente melhorar os preparativos da Rio+20, mas dependeria muito da posição do Brasil, que é o país-sede da Conferência e, portanto, a preside. Por enquanto a presidente da República tem-se mantido bastante longe dos trabalhos preparatórios da Conferência, que estão sendo realizados basicamente pelo Itamaraty.
NEO MONDO: Seria receio de não saber o que fazer, cautela excessiva?
Goldemberg: É difícil dizer, mas digamos que se trata de conservadorismo. Uma preocupação de não provocar reações. Na área internacional o Itamaraty é muito ligado aos países em desenvolvimento, aos países mais pobres que é o chamado grupo dos 77, e o Brasil não quer tomar medidas que irritem qualquer membro desse grupo, muito heterogêneo.
NEO MONDO: Para não melindrar os 77?
Goldemberg: Bom. Alguém vai ter que ser melindrado, por exemplo, os produtores de petróleo. Esses efetivamente não vão poder continuar produzindo petróleo como vem sendo feito porque esse não é o caminho do desenvolvimento sustentável; uma economia baseada no petróleo é exatamente o oposto de uma economia verde. De modo que se nós queremos melhorar a vida do planeta, nós vamos ter que fazer alguma coisa em relação ao uso do petróleo. O que vai melindrar os países produtores, mas isso não pode ser escondido debaixo do colchão.
NEO MONDO: O senhor chegaria a dizer que o governo está dando prioridade a assuntos “menos importantes”? Por exemplo, a votação da Lei Geral da Copa parece ter mobilizado mais o Congresso do que a do Código Florestal?
Goldemberg: Ah! Sem dúvida, é um sinal do tempos – mal sinal dos tempos...
NEO MONDO: E o risco de a Rio+20 se esvaziar pela ausência de grandes líderes políticos?
Goldemberg: Está confirmado que Barack Obama não vem.
NEO MONDO: Que países o senhor considera mais comprometidos com a causa ambiental - realmente comprometidos?
Goldemberg: Olha, as indicações que se tem é que o presidente Obama não se comprometeu a vir, ausência que tem várias consequências: a primeira delas é que o primeiro-ministro britânico, David Cameron, não virá, sendo substituído pelo vice; provavelmente  Angela Merkel, da Alemanha, também não virá...  ou seja, as grandes lideranças não estarão aqui, ao contrário do que aconteceu na ECO 92.
NEO MONDO: Que impacto esperar dessas ausências?
Goldemberg: Não deixa de ser impactante. Ainda não se sabe o que a China fará, mas é possível que a ausência do presidente Obama desencoraje a China a mandar o primeiro-ministro. Se isso ocorrer efetivamente, a Rio+20 vai ser uma conferência de segundo time – o que seria lamentável.
NEO MONDO: No documento, do qual o senhor participa, a Rio+20 é classificada como um desvio na rota de conferências anteriores. A seu ver, que problemas ambientais devem ser tratados em junho no Rio Centro?
Goldemberg: O grande problema a se discutir no Rio Centro – e que o Itamaraty tem-se recusado a colocar em debate – são as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento da terra, no caso o efeito estufa, porque eles resultam do uso de combustíveis fósseis que são a principal fonte de poluição que nós temos hoje no mundo. Então, quando a gente se preocupa com mudanças climáticas tem que se preocupar com a matriz energética, e a orientação que foi dada em 1992 e surtiu certo efeito até agora foi a de tentar dirigir a matriz energética para energias renováveis.
O que é paradoxal é que o Brasil poderia desempenhar um papel de liderança muito grande nessa questão do clima porque a matriz energética brasileira tem um componente renovável muito forte, e o governo brasileiro praticamente não está fazendo uso de um dos principais cartões de visita de que o Brasil dispõe: é a matriz com cerca de 50% de energia renovável que se origina de usinas hidrelétricas; a produção do etanol, que substitui a gasolina, e o uso do bagaço de cana para gerar eletricidade; e o uso do vento, a chamada energia eólica.
NEO MONDO: E a energia solar – o senhor a enquadraria entre as renováveis?
Goldemberg: O vento é uma forma solar – é um pouco mais cara, mais complicado de efetivar.
NEO MONDO: Seria mais vantajoso (talvez o termo não seria nem esse porque parece que se quer levar vantagem), mas enfim é a eólica então uma das alternativas ao lado das outras?
Goldemberg: Exato. Mesmo porque a energia eólica é a que está mais avançada.
NEO MONDO: Ainda mais com o tamanho do litoral que a gente tem...
Goldemberg: A zona costeira do Brasil boa mesmo é a dos estados do Piauí, Maranhão, Ceará.
NEO MONDO: Recentemente, a presidente Dilma disse algo como se não fosse possível armazenar o vento...
Goldemberg: Mas não precisa armazenar quando o vento estiver soprando, mas usar a sua energia quando o vento não estiver soprando; usar a energia de hidrelétricas... então o fato de usar a energia do vento economiza água, ajudando o reservatório.
NEO MONDO: Seria uma combinação das várias alternativas, certo? E financeiramente falando, é muito caro viabilizar essa energia eólica?
Goldemberg: Não, a energia eólica é comercializada no Brasil, e nos leilões da empresa Planejamento Energético ela tem competido bem com as outras fontes de energia. É que todas as fontes de energias solares são mais caras no começo e, depois, na medida em que são mais utilizadas, seu preço tende a cair.
NEO MONDO: O senhor diria que estamos bem nessa área ou ainda engatinhamos?
Goldemberg: Ah! Nós estamos engatinhando porque o bagaço da cana, por exemplo, é uma excelente fonte de energia pelo fato de se produzir eletricidade com ele, mas se produz ainda muito pouco no Brasil. Poderíamos produzir muito mais nessa alternativa.
NEO MONDO: Se até aí estamos muito no começo, o que dizer da eólica então?
Goldemberg: Na eólica nós estamos mais avançados pelo fato de essas máquinas serem importadas; na utilização do bagaço nós estamos um pouco mais atrasados.
NEO MONDO: E como geradoras de emprego, essas alternativas todas seriam consideráveis ou não?
Goldemberg: Essas alternativas de energia renovável geram mais emprego do que uma grande central  hidrelétrica, porque esta ocupa muita mão de obra na sua construção, mas depois de pronta, nem tanto.
NEO MONDO: O que falta para se fixar metas efetivas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa?
Goldemberg: O que falta é vontade política do governo, nem tanto aqui no estado de São Paulo com suas metas avançadas. O governo paulista está à frente do federal nesse aspecto, como ao fixar a redução de emissões de CO2 em 20% até o ano 2020 em relação ao ano de 2005.
NEO MONDO: O que, no seu entendimento, compete a cada um fazer: governos, empresas, instituições de ensino, ONGs, cidadãos, para evitarmos o pior?
Goldemberg: As ONGS têm papel muito importante ao educar as pessoas, não no sentido genérico da palavra: colocá-las em salas de aulas, mas de esclarecer as pessoas para que elas desempenhem o papel que lhes cabe, insubstituível. A revista que vocês fazem, por exemplo, a pessoa que lê as edições acabam por aprender algumas coisas que não sabiam antes.
Olha, as pessoas acham que é muito difícil os cidadãos participarem do esforço por uma economia verde, o que não é verdade. Veja o tabagismo: há 20 anos qualquer pessoa que visse uma propaganda (o cinema também contribuiu muito para isso) era no sentido de associar o hábito a masculinidade, entre outras ‘vantagens’. Gente que fuma hoje já chega a ser discriminada, sendo colocada para fora de restaurantes; hoje há fumódromos: pessoas são fechadas num cubículo para fumar. De modo que veja como mudou.
Essas coisas mudam. Agora, precisa de fato de liderança. Eu acho esse aspecto fundamental. Aí cabe a governos nas várias esferas desempenhá-la; o papel de ministros, secretários estaduais ou municipais é crucial, se bem desempenhado. O uso do cinto de segurança é uma dessas coisas que pegou, depois de muita resistência. Diziam até que poderia tornar os acidentes mais graves, e hoje quase todo mundo adota esse dispositivo.
Agora, não é só oferecer ou procurar vantagens, mas refletir, amadurecer, fazer virar lei seja municipal, estadual, federal.
NEO MONDO: Há uma frase sua particularmente impactante: “marchamos anestesiados para a Rio+20”. Dá para explicar melhor essa análise para nossos leitores?
Goldemberg: A linguagem oficial é a linguagem dos robôs, quer dizer, não nos caberia fazer perguntas; robôs são programados, não fazem perguntas, e a política que está sendo seguida até agora é a de que não vão ser discutidos na Rio+20 os problemas do clima, mas sim se discutir desenvolvimento sustentável abrangente, que é uma brecha para o governo poder apresentar o seu Bolsa Família.
Não há a menor dúvida de que um dos objetivos das políticas públicas é a eliminação da pobreza, e o Bolsa Família ajuda, mas se as pessoas destruírem o meio ambiente não vai ter como combater a pobreza. Lembro de uma imagem usada pelo embaixador Rubens Ricupero, a meu ver muito boa, que é a de pegar uma região na Amazônia e assentar pessoas do Movimento dos Sem Terra; aí a primeira coisa que eles fazem é cortar a madeira e vendê-la. Ora, só se corta a madeira uma vez, então nem é desenvolvimento sustentável.
Eu digo: estamos marchando (para a Rio+20) sem saber direito o que vamos fazer lá.
NEO MONDO: Corremos o risco de, uma vez anestesiados, sair dessa Conferência com prescrição de tratamento que possa matar o paciente, aí entendido o planeta?
Goldemberg: Pois é. Se nada for feito na Rio+20 ou se houver um retrocesso, as condições de vida vão piorar, as condições ambientais vão piorar, já estão piorando (basta ver a quantidade de eventos climáticos extremos que ocorrem no mundo e no Brasil: tsunamis, deslizamentos de morros e encostas, enchentes...).
NEO MONDO: No documento se alerta para o fato de a Rio+20 ser, mais do que irrelevante, um retrocesso. Por quê?
Goldemberg: Porque no documento das Nações Unidas que serve de base para discussões – insisto nesse aspecto – há 128 parágrafos, dos quais 120 nada acrescentam. Daí esse sentimento de que a Conferência pode representar o retrocesso.
NEO MONDO: Os signatários do documento defendem a transição para uma economia de baixo carbono como a única saída. Como se fará essa transição?
Goldemberg: No mundo todo 80% da energia que se usa provêm de combustíveis fósseis: carvão, petróleo e gás natural, daí existir tanto CO2. Então, concretamente, uma transição para uma economia verde significa reduzir a quantidade de combustível fóssil que se utiliza e, em compensação, utilizar mais fontes de energia renovável. O Brasil já faz isso, mas a Conferência não é sobre o Brasil. Por isso que eu tenho argumentado que o Brasil poderia dar o exemplo porque a matriz energética brasileira tem uma grande fração de energia renovável.
NEO MONDO: Os senhores defendem também que se fixem metas ambiciosas. Quais seriam essas metas e como torná-las consenso entre os participantes da Conferência?
Goldemberg: O motivo pelo qual a ECO 92 teve sucesso foi que ela fixou metas e prazos (uma das consequências dessa Conferência foi o protocolo de Kyoto sobre a necessidade de os países mais ricos reduzirem as sua emissões até 2012, o que foi feito por muitos deles). Não vejo algo nessa linha sendo proposto na Rio+20. Há metas, mas elas não foram negociadas para ser colocadas em discussão.
Entendo que uma Conferência desse porte e alcance (estamos agora há dois meses dela) deveria decidir que dentro de 3 anos uma comissão especial estabeleceria metas e prazos e dividiria os encargos para os diferentes países. Como foi feito com o protocolo de Kyoto. Essa é a proposta que eu defendo; ela não consta no documento.
NEO MONDO: Outra crítica é a de que no País se enfrenta o desafio da mitigação – pela redução do desmatamento –, mas pouco se faz para avançar em direção à economia de baixo carbono. Hoje, como está o Brasil nesses dois aspectos, e o que há de mais expressivo no mundo para viabilizar essa economia?
Goldemberg: No caso brasileiro, digamos, dirigir o desenvolvimento brasileiro em direção à economia verde é reduzir o desmatamento da Amazônia (há uma queda, mas ainda o desmatamento é muito grande). Digamos que estamos na direção correta. Já na área industrial isso não acontece porque na medida em que a indústria cresce, de forma intensiva se observa o uso de carbono; isso é no caso brasileiro.
Na China é exatamente o oposto: esse país planta muita árvore, refloresta o seu território, de modo a melhorar a eficiência do sistema produtivo emitindo cada vez menos carbono nas suas indústrias. Por isso se torna líder nessa área.
NEO MONDO: Ponto que nos parece interessante, e mesmo crucial, no documento é quando se aponta que não há liga entre as políticas industriais, comerciais, as de inovação e as climáticas. O que falta para essa interseção se efetivar: a comunidade acadêmico-científica precisa fazer mais para que isso se concretize ou ela já faz a sua parte, mas não é ouvida na medida certa?
Goldemberg: O que falta é uma política industrial que encoraje a inovação e que leve os industriais a procurar os cientistas. Nos outros países do mundo a iniciativa em geral não parte dos cientistas, sendo injusto colocar essa responsabilidade sobre seus ombros.
NEO MONDO: Das honrarias e prêmios que o senhor recebeu quais os que considera mais significativos e por quê? Há algum entre eles que seja o mais importante?
Goldemberg: Olha, para mim é o Prêmio Planeta Azul, atribuído a duas pessoas por ano desde 1992.  Apenas duas pessoas no mundo. A primeira que o recebeu foi Gro Harlem Brundtland, ex-primeira-ministra norueguesa, da qual se originou o conceito de desenvolvimento sustentável.
Nota da Redação: O conceito de salto tecnológico é de José Goldemberg, que o levou a receber o Blue Planet em 2008 (ver “Conceito e prática inovadores”).
Reitor da USP e nome de cátedra em Tel Aviv
Em meio a tantos serviços prestados ao País, Goldemberg considera o fato de ter sido reitor da USP o mais relevante deles. Isso porque foi uma escolha de seus pares e era um cargo que lhe dava autonomia, que soube usar plenamente para levar a universidade a figurar entre as 50 mais importantes do mundo.
O que é notável para quem foi também presidente da Companhia Energética de São Paulo (CESP), presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), bem como secretário de Ciência e Tecnologia, secretário do Meio Ambiente da Presidência da República, ministro da Educação do Governo Federal e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Foi ainda diretor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo; professor/pesquisador da Universidade de Paris (França) e Princeton (Estados Unidos); High Energy Physics Laboratory da Universidade de Stanford, EUA; Universidade de Toronto, Canadá e ocupante da Cátedra Joaquim Nabuco da Universidade de Stanford (Estados Unidos).
Acrescente-se que é membro da Academia Brasileira de Ciências e Academia de Ciências do Terceiro Mundo e co-presidente do Global Energy Assessment, sediado em Viena, além de autor de inúmeros trabalhos técnicos e vários livros sobre Física Nuclear, Meio Ambiente e Energia em geral.
Conceito e prática inovadores
O Blue Planet Prize é um prêmio ambiental internacional concedido anualmente pela Asahi Glass Foundation a pessoas ou organizações que obtêm conquistas excepcionais em pesquisa e aplicação científica, contribuindo em sua área de atuação para solucionar problemas ambientais globais. Goldemberg foi premiado em 2008 por suas contribuições na formulação e implementação de políticas associadas aos avanços no uso e conservação de energia, na elaboração do conceito de “salto tecnológico” e na liderança demonstrada na organização da Rio 92.
Segundo o Jornal da Ciência, da SBPC, ao desenvolver o conceito de leap-frogging (ou “salto”) tecnológico em energia, Goldemberg argumentou que países pobres não precisavam repetir a receita de tecnologia energética usada pelos países ricos no passado; poderiam “saltar à frente” com tecnologias mais limpas, como o álcool combustível, tendo sido um dos pioneiros do Programa Nacional do Álcool (Proálcool).
Até as décadas de 1970 e 1980, os planejadores viam o consumo de energia como algo diretamente ligado ao Produto Interno Bruto (PIB) dos países; portanto, quanto mais energia se usasse, melhor. O livro Energia para um Mundo Sustentável, de Goldemberg e colegas, ajudou a quebrar o paradigma, ao propor que a energia é um meio de atingir objetivos sociais.
O físico e professor foi o primeiro latino-americano a receber o prêmio, honraria que já havia sido concedida a Gro Brundtland, ex-premiê da Noruega e chefe da comissão que elaborou o conceito de desenvolvimento sustentável; e a Susan Solomon, geofísica dos Estados Unidos pioneira no estudo do buraco na camada de ozônio. O glaciologista francês Claude Lorius, cujos estudos de testemunhos de gelo da Antártida ajudaram a decifrar as mudanças climáticas no passado e sua relação com os níveis de dióxido de carbono na atmosfera, foi outro agraciado no mesmo ano.
Entre líderes e visionários
Em 2007 Goldemberg foi um dos 13 contemplados na categoria Líderes e Visionários pela Time Magazine com o prêmio Heroes of the Environment, na companhia de personalidades políticas e artísticas do peso de Mikhail Gorbachev, David Attenborough, Al Gore, Príncipe Charles, Robert Redford, Angela Merkel, entre outros. Sem falar nos notáveis merecedores da premiação nas categorias Ativistas; Cientistas e Inovadores; e Magnatas e Empresários.
O físico brasileiro foi agraciado por sua contribuição em fazer ver ao mundo que havia alternativa viável à gasolina: o etanol. Era a sua contribuição para viabilizar a ideia de que é possível alimentar uma economia por meio de uma planta e não do petróleo, de acordo com a Time Magazine. “Eu indiquei que a cana não era apenas um produto, mas um combustível – e não um combustível fóssil. O que eu fiz foi fazer as pessoas sentirem-se seguras de que este era o caminho a percorrer”, esclareceu Goldemberg à revista, na edição comemorativa anual TEMPO de heróis.
Entre os prêmios recebidos por Goldemberg no País e no exterior, nos últimos seis anos estão a sua inclusão pela Time Magazine como um dos treze “Heroes of the Environment in the category of Leaders and Visionaries 2007”; o “Blue Planet Prize 2008” concedido pela Asahi Glass Foundation; e o Trieste Science Prize, Academia de Ciências do Terceiro Mundo na Índia 2010.
Mas não é de hoje que nosso entrevistado é merecedor de reconhecimento internacional, entre outros o D. Sc. “Honoris Causa” from TECHNION, do Israel Institute of Technology 1991; o Michell Prize for Sustainable Development 1991; a criação da “Cátedra José Goldemberg de Física da Atmosfera”, na Universidade de Tel Aviv; e o Volvo Prize, da Volvo Environment Priza Foundation 2000.
 
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