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A sociedade, a política

A sociedade, a política

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Seção: Editorias - Categoria: Política
Escrito por Livi Carolina Qui, 29 de Janeiro de 2009 08:30

Independente da motivação, o fato é que a grande maioria dos brasileiros não conhece a real utilidade da política.

De acordo com o dicionário, entre outros significados, o termo trata da arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou estados. Contudo, vemos que, ao longo dos anos, sua história confundiu-se com a astúcia e o maquiavelismo de alguns homens, de modo que sua real função foi descaracterizada. Porém, ao voltarmos ao passado, é possível verificar sua importância na evolução da sociedade.

De volta ao passado

Segundo a cientista política e professora do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ, Thamy Pogrebinschi, a política surge com a história da humanidade, pois se dá a partir do convívio em sociedade. Uma vez que os homens precisam uns dos outros para prosperar e se aperfeiçoar, é necessário que haja regras de convivência para lidar e gerar o bem a todos os diferentes de uma mesma sociedade.

“Os homens precisavam das mulheres para procriarem, dos servos para trabalharem, formando assim pequenos núcleos: famílias, vilas, cidades e estado. A partir disso, foi estabelecida a política do “viver junto”, determinando o que era justo ou não para com todos, diferenciando o bem ou mal diante do outro, administrando a justiça para o conjunto de pessoas” – relata a cientista.

Os primeiros a pensarem desta forma e a repercutirem suas reflexões foram Platão e Aristóteles, mestre e discípulo, filósofos da Grécia antiga. Embora Platão acreditasse que os filósofos deveriam governar a república, enquanto Aristóteles era favorável à democracia, ambos pensavam no bem comum a todos.

Em sua obra intitulada Política, Aristóteles escreveu: “Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas ao que lhes parece um bem; se todas as comunidades visam a algum bem, é evidente que a mais importante de todas elas, e que inclui todas as outras, tem mais que todas este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens; ela se chama cidade e é a comunidade política”.

Influenciado por parte de suas idéias, o estadista Péricles governou Atenas por 30 anos. Seu objetivo era proporcionar uma democracia ideal, havendo equilíbrio entre os interesses do estado e dos cidadãos. No período chamado “século de Péricles”, o povo reunia-se em praça pública, chamadas ágoras, formando as assembléias Públicas, onde suas idéias e reivindicações eram ouvidas. Desde então, busca-se uma forma diferente de viver junto.

A contribuição de Maquiavel

Para a cientista política, no entanto, mesmo a democracia grega, que sempre foi exemplo de perfeição, na qual o povo decidia os rumos da sociedade em praça pública, estudos mostram que não era bem assim. “Mulheres e escravos eram excluídos. Péricles, suposto mentor da democracia, cometeu vários atos contra o bem público” – destaca. Mas, somente décadas após seu regime, a obra “o Príncipe”, um manual da política, de Nicolau Maquiavel, tratou sobre o uso pernicioso da governança política.

“Os termos da política, arte de governar e astúcia, se confundiram na reflexão de Maquiavel, que dizia que os fins justificam os meios. Contudo, é claro que política implica em poder e aqueles que recebem poder naturalmente são tentados a exercê-lo de maneira não neutra, manipulando-o para o que bem entender” – ressalta.

Para explicar, Thamy Pogrebinschi cita uma frase de James Madison, quarto presidente dos Estados Unidos, considerado o Pai da constituição americana: “se os homens fossem anjos, não seria necessário haver governo. Se os homens fossem governados por anjos, não seriam necessários sistemas de controle sobre o Governo”.

A influência do jeitinho brasileiro

De acordo com a cientista, além da preponderância da natureza humana sobre a corrupção da governança, os fatores cultura e institucionalização também se destacam. Uma vez que, se o cidadão convive com uma cultura de exceção à regra, com a intenção de “se dar bem” em detrimento do outro, utilizando-se de vantagens para ocupar cargos, entre outros, estes pequenos atos irresponsáveis geram uma grande engrenagem de desmoralização. Portanto, passa-se a ser óbvio que, ao ter o poder em suas mãos, o indivíduo aja da mesma forma.

Aristóteles já falava sobre a influência da natureza quando escreveu: “o homem, quando perfeito, é o melhor dos animais, mas é também o pior de todos quando afastado da lei e da justiça, pois a injustiça é mais perniciosa quando armada, e o homem nasce dotado de armas para serem bem usadas pela inteligência e pelo talento, mas podem sê-lo em sentido inteiramente oposto. Logo, quando destituído de qualidades morais, o homem é o mais impiedoso e selvagem dos animais...”.

Conforme afirma Thamy Pogrebinschi, neste sentido, só haverá mudanças quando o ato de não jogar lixo na rua não seja por receio de ser multado, como acontece em outros países, mas porque há consciência de que isso pode ser prejudicial à convivência em sociedade. Além disso, ela destaca outros dois fatores: o passivismo da sociedade e as brechas das instituições para a situação política.

“A forma passiva com que o povo reage às situações acontecem com o País, e não me refiro a passeatas ou grandes movimentos, mas a formas organizadas de manifestar seu repúdio, como a internet, permite que haja um ar de desinteresse e falta de fiscalização” - ressalta.

O segundo fator refere-se à maneira com a qual as instituições são organizadas, a manipulação dos cargos, a troca de interesses e as brechas na legislação. “Para combater é preciso mudar não só a cultura, mas as instituições, mudar seus mecanismos. E acho que temos melhorado muito nesta questão. São somente vinte anos da nova constituição e já tivemos grandes avanços, fortalecimento da democracia e de afirmação dos direitos humanos. os Três poderes e o sistema partidário vêm se modernizando, hoje há mais alternância de partidos no poder. O ministério público está agindo e temos visto uma atuação mais forte da Polícia Federal, o que mostra que há legislação e ela tem sido respeitada, caso contrário não haveria denúncias nos noticiários, assim como há alguns anos” – destaca a cientista política.