A Responsabilidade Social e as questões de sustentabilidade estão presentes em qualquer área. O investimento em pesquisas fornece novas tecnologias, que na sua maioria promovem desenvolvimento não apenas econômico, mas acima de tudo de cunho social, mudando a história de regiões, alterando fontes energéticas, viabilizando novas oportunidades alimentares. Na saúde, a pesquisa mostra sua face mais solidária. O corpo humano é uma máquina de sofisticada e complexa “tecnologia”. Criar peças de reposição para ele é um dos grandes desafios da ciência.
O coração, um dos primeiros órgãos vitais a ser formado, é responsável pelo bombeamento de sangue, oxigênio e nutrientes para o todo o organismo, a este fato deve-se a preocupação quando há alguma anormalidade em seu funcionamento. São veias, artérias, ventrículos que, se comprometidos, levam o paciente ao risco fatal. Partes do coração que, ao contrário de outros órgãos - como o próprio coração - não são transplantados, exercem papel fundamental ao bom desempenho do corpo. Por isso, há anos a medicina tem pesquisado a criação de próteses para estes importantes auxiliadores do bombeamento sangüíneo, quando não for mais possível fazer reparos cirúrgicos.
Um aneurisma em uma das válvulas foi o que levou Vanderlei Sanches, 60 anos, a realizar o implante da primeira prótese em seu coração. Em substituição à válvula dilatada, foi colocado um tubo valvar biológico, produzido a partir do pericárdio (saco membranoso que envolve o coração) bovino. O segundo implante aconteceu logo após essa cirurgia, quando houve uma endocardite, inflamação do revestimento interior liso do coração (endocárdio) e das válvulas cardíacas, causada por uma infecção, que destruiu outra de suas válvulas e, por conseqüência, debilitou parte de seus órgãos. Dessa vez, foi usada na operação a prótese metálica. “Se não fosse esse implante, teria morrido. Meu fígado inchou a ponto de não caber mais em mim, já não mais falava, minhas pernas estavam inchadas, por isso digo que nasci de novo depois que coloquei essa nova prótese”, revela Sanches.
Ele lembra que a recuperação foi rápida, em cinco dias já estava andando. Hoje, oito anos após os implantes, Sanches leva uma vida normal, mas mantém o cuidado necessário com a saúde para prolongar o período útil das próteses - 10 a 20 anos, sendo necessário, após este período, fazer um novo implante. A cada seis meses, faz acompanhamento médico e diariamente toma o anticoagulante, que, de acordo com o professor de cardiologia da FMABC, José Luis Aziz, tem a função de afinar o sangue e evitar a formação de coágulos.
“O paciente com prótese metálica terá que tomar este remédio por toda a vida. Já o paciente que tem a prótese biológica não precisa se preocupar com isso, porém, não são todos os casos que se pode usá-la”, afirma. Segundo o cardiologista, o uso destas próteses valvárias prolonga a vida, enquanto as intervenções cirúrgicas têm efeito de dois anos, em média. Outra vantagem para o uso das próteses está no fato de raramente haver rejeição no implante, completa o médico.
Pioneirismo em pesquisas
Exemplos como o de Vanderlei, mostram que investir na tecnologia em favor da saúde é necessário. Porém, segundo o diretor da Braile Biomédica, Alberto Camim, falta apoio do governo. “Nossas pesquisas são custeadas pela própria empresa, assim também temos mais liberdade de trabalho” – acrescenta.
Especialista em tecnologias cardiovasculares de eletromédicos, biológicos e descartáveis, a Braile Biomédica é considerada centro de referência da indústria e da medicina nacional. Localizada em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, há mais de 30 anos, a Braile fabrica diferentes formatos de próteses valvárias, bombas de circulação extracorpórea, oxigenadores de membrana, reservatórios e filtros de sangue, entre outros produtos, que têm 15% de seu total destinado a mais de 23 países, espalhados pela América do Sul e Norte, Europa, Ásia e África.
De acordo com o diretor, as pesquisas se concentram no sistema endocárdio e em criar próteses de partes do coração que possibilitam a restauração do funcionamento cardíaco nas opções metálicas e/ou biológicas.
Além das próteses menores, o produto que mais se assemelha a um coração total, e já tem sido fabricado e usado comercialmente, é a bomba peristáltica, máquina não descartável que desempenha o papel do coração durante a cirurgia cardiovascular, quando é preciso parar o coração natural. No entanto, a Braile tem investido em pesquisas do coração artificial, que ainda encontra-se em fase de testes.