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Fitoterapia: A Medicina Sustentável

Fitoterapia: A Medicina Sustentável

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Seção: Editorias - Categoria: Saúde
Escrito por Liane Uechi Seg, 19 de Janeiro de 2009 11:09

Ginseng, carqueja, guaraná, confrei, ginkgo biloba, espinheira santa, sene, guaco, boldo....difícil encontrar quem nunca utilizou ou pelo menos ouviu falar dessas plantas medicinais, tão eficazes e em muitos casos, acessíveis. Elas integram um rol de plantas cujas substâncias podem ser utilizadas com finalidade terapêutica. Muitas delas são, inclusive, matérias-primas para o preparo de medicamentos sintéticos.

O uso de plantas medicinais remonta a própria história da humanidade, permanecendo até os dias atuais como a base da terapêutica moderna, porém, no Brasil ainda há pouca aplicabilidade se comparado a outros países, como a Alemanha, onde 75% da população já utiliza fitoterápicos. Por aqui, sobretudo nos grandes centros, os médicos e muitas vezes, os próprios pacientes, resistem ao uso desses medicamentos, que possuem eficácia comprovada e agregam inúmeros valores sociais, econômicos e ambientais, que os levam a serem considerados pelos seus defensores como os biocombustíveis da saúde, pois poderiam representar fonte de riquezas e divisas incalculáveis para o país.

De todo modo, ainda ouviremos falar muito sobre Fitoterapia. Ela foi recomendada pela Organização Mundial de Saúde como medida estratégica para universalizar os direitos à utilização de medicamentos e tem recebido amplo apoio do Ministério da Saúde brasileiro. O médico Luiz Sérgio Passos Alves (1), especialista em Plantas Medicinais e responsável pelo módulo de medicina na pós de fito da Universidade Federal de Lavras, explicou que a política nacional, que define as regras e os recursos destinados à Fitobrasil, é ainda muito recente, mas que a quantidade de pós-graduações e cursos universitários já quadruplicou, trazendo no seu rastro trabalhos científicos de boa qualidade. Apesar desse movimento favorável, ele diz que a fitoterapia ainda não conta com a adesão do Conselho Regional de Medicina. “O médico, ainda conhece pouco sobre esta opção terapêutica. Mas estamos melhorando” – esclareceu ele.

Alves explicou que o medicamento fitoterápico é aquele obtido exclusivamente de matérias-primas vegetais, processado tecnologicamente, com benefícios comprovados nas finalidades curativas, profiláticas ou diagnósticas.

Fonte de Riqueza

Além do aspecto que envolve a saúde, estamos falando de um mercado que movimenta US$ 22 bilhões/ano, sendo US$ 8,5 bilhões, na Europa e US$ 6,3 bilhões nos Estados Unidos. O Brasil tem a parcela de apenas US$ 400 milhões.

A Alemanha detém 39% do mercado europeu, apesar de possuir apenas 20 plantas endêmicas (próprias da região), contra 25.000 espécies brasileiras. Porém, os alemães formaram o maior centro de pesquisa mundial em fito (Comissão E). O tema é matéria curricular obrigatória nas faculdades de medicina, sendo prescrita por 70% dos médicos (contra 3% no Brasil). “Possuímos a maior grife ecológica do Planeta. Um hectare da Floresta Amazônica tem mais espécies de plantas do que todo o Continente Europeu (200 a 300)” – confirmou o especialista.
No entanto, como 65% das Indústrias Farmacêuticas instaladas no Brasil são multinacionais, 80% dos Fitoterápicos produzidos aqui são feitos com plantas exóticas (não-nativas do Brasil). Nos raros casos onde o produto brasileiro é valorizado, como o açaí e a castanha-do-pará, torna-se possível oferecer emprego para mais de 30.000 pessoas.

Para Alves, “a fitoterapia é a grande chance do Brasil embarcar definitivamente na milionária rota tecnológica da indústria farmacêutica”. Isso sem contar a questão da sustentabilidade e qualidade que poderia reverter um triste panorama brasileiro: a saúde pública.

Biodiversidade e Biopirataria

A união da grande biodiversidade com a falta de um controle efetivo de nossos recursos naturais, faz do Brasil a maior vítima mundial da Biopirataria. A CPI da Biopirataria acusou diversos países por patentes indevidas de nossas plantas nativas: cupuaçú, biribiri, mandioca selvagem, açaí.... Calcula-se que o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira tenha um valor de US$ 2 trilhões (quatro vezes o PIB nacional). “Um exemplo disso é que entre os anos de 1983 e 1994, 60% dos antineoplásicos descobertos vinham diretamente das plantas. A folha da graviola que nasce e cresce em abundância no Brasil (subespontânea) demonstrou ser eficaz no tratamento do adenocarcinoma de cólon” – disse o médico. O mundo científico vasculha o Brasil em busca de plantas para tratamento do câncer, AIDS, hepatite B, herpes e gripe.

Farmácias Vivas

Os fitoterápicos produzidos com tinturas e extratos vegetais custam de duas a quinze vezes menos que os remédios industrializados. Muitos estados brasileiros (Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, etc) possuem Farmácias Vivas, onde se planta, manipula e dispensa gratuitamente fitos, prescritos pelos médicos locais. Este já pode ser considerado um reflexo positivo da implantação da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que tem o objetivo de garantir o acesso seguro e o uso racional, visando a sustentabilidade desses recursos naturais.

Em 2004, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou uma resolução (RE 89) que facilitava o registro de 34 fitoterápicos, com a intenção de incentivar a produção e baratear o custo ao usuário. “Infelizmente esta lista só continha três plantas nativas do Brasil (guaco, espinheira-santa e guaraná)” - diz Alves.

Complexidade

A introdução da fitoterapia não é um processo simples. As plantas possuem seu próprio laboratório de síntese. Tão perfeito e complexo que o homem jamais conseguiu imitar. Talvez esteja aí o grande desafio desse resgate ao natural, que precisa estar adaptado às necessidades do mercado: padronização, uniformidade, produtividade contínua, quantidade, qualidade, tamanho, aspecto, homogeneidade, freqüência, etc. “Não é tarefa fácil. Por isto, a Fitoterapia é uma ciência eminentemente interdisciplinar. Não adianta o médico prescrever sem a mobilização de biólogos, taxonomistas, agrônomos, químicos, farmacêuticos e, principalmente, a agregação do conhecimento popular” – considerou o especialista.

Riscos

Nas últimas décadas, a fitoterapia ganhou notoriedade mundial por ser considerada segura, eficaz e com baixa incidência de efeitos colaterais. Contudo, é preciso desmistificar o dito popular: “É natural, não faz mal”. Alves cita o exemplo do confrei, que foi utilizado indiscriminadamente para prevenção e tratamento de leucemias, mas acabou provocando inúmeros tumores hepáticos malignos.

Outros agravantes são: a incidência de contaminação (bactérias, mofo, coliformes fecais, insetos e metais pesados), a adulteração intencional e a identificação errônea das ervas, assim como a manipulação e preparo de forma inadequada, que podem levar a resultados desastrosos e perigosos. A associação entre fitos e sintéticos também pode oferecer riscos ao paciente. Por isso mesmo, a prescrição médica é indispensável.

Instinto de Sobrevivência

Estudos apontam que o uso de plantas como medicamento faz parte do extinto de sobrevivência animal. Dentre os inúmeros exemplos está o chimpanzé, que consome 16 tipos de ervas, que não possuem nem sabor agradável nem valor nutricional, apenas terapêutico. Também o gavião, que quando picado por cobra, ingere folhas de guaco, cujas propriedades antiofídicas foram recentemente comprovadas pela ciência.

Já o homem que, desde a antigüidade, utilizava plantas com fins terapêuticos, traçou rumos diferentes. Com a evolução da química e a possibilidade da síntese de medicamentos a nível industrial, a fitoterapia caiu no descrédito total, até que nos anos 60, com o advento da Talidomida (2), se percebeu uma nova doença desastrosa: o efeito colateral e os riscos oferecidos pelo uso indiscriminado de medicamentos sintéticos. O mundo então voltou seu olhar, novamente, para as alternativas naturais.

As Plantas Terapêuticas

Ervas com registro facilitado no MS/ANVISA são:
• castanha-da-india (fragilidade capilar, varizes);
• alho (hipertensão arterial leve, dislipidemia e prevenção da aterosclerose);
• babosa (queimadura térmica grau 1 e 2 e de radiação);
• uva-ursi (infecção do trato urinário);
• calêndula (cicatrizante e antiinflamatório dermatológico);
• centela asiática (insuficiência venosa dos membros inferiores);
• cimicifuga racemosa (sintomas do climatério);
• alcachofra (estimulante da função hepática);
• echinácea (preventivo e coadjuvante na terapia de resfriado e infecção do trato urinário);
• ginkgo biloba (vertigens e zumbidos, insuficiência vascular cerebral);
• hypericum (estados depressivos leves e moderados);
• camomila (anti-espasmódico,antiinflamatório tópico, distúrbios digestivos, insônia leve);
• espinheira santa (dispepsia e coadjuvante no tratamento de úlcera gástrica);
• melissa (anti-espasmódico, carminativo, distúrbios do sono);
• hortelã (cólicas intestinais, carminativo, expectorante);
• ginseng (fadiga física e mental, adaptógeno);
• passiflora (sedativo);
• guaraná (astenia, estimulante do SNC);
• boldo-do-chile (estimulante hepático, distúrbios gastrintestinais espásticos);
• anis (antiespasmódico, carminativo, expectorante);
• kava-kava (ansiedade, insônia, tensão nervosa, agitação);
• cáscara-sagrada (constipação intestinal);
• salgueiro (antitérmico, antiinflamatório, analgésico);
• sene (laxativo);
• saw palmeto (hipertrofia benigna de próstata),
• confrei (cicatrizante tópico),
• tanaceto (profilaxia da enxaqueca);
• gengibre (profilaxia dos vômitos causados por movimentos e pós-cirúrgicos);
• valeriana (insônia leve, sedativo, ansiolítico),
• guaco (expectorante, broncodilatador);
• hamamelis (hemorróidas e equimoses);
• poligala (bronquito, faringite);
• eucalipto (antitussígeno e antibacteriano das vias aéreas superiores, expectorante).