Uma recente crise alimentar ocasionada pela alta nos preços dos produtos agrícolas, motivada por um ciclo de colapsos: o aumento da população mundial, e, portanto, a demanda maior pelo consumo de alimentos; os focos mundiais de seca; o crescimento do preço do petróleo, que, por sua vez, aumentou o custo do transporte dos produtos alimentícios e uma série de outros fatores subseqüentes, causaram o crescimento no índice da fome mundial.
Durante a Conferência sobre a Segurança Alimentar Mundial, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), realizada em Roma, na primeira semana de junho, foi divulgado um acréscimo de 100 milhões ao número, já alarmante, de 850 milhões de pessoas que sofrem de desnutrição. Como resposta àsituação degradante, os 193 que compõem a FAO, entre eles o Brasil, se comprometeram a reduzir à metade, até 2015, o número de famintos no mundo.
Para alcançar este objetivo, o Governo Brasileiro lançou, em julho, o programa Mais Alimentos que beneficiará, até 2010, um milhão de produtores rurais. Com uma linha de crédito de até R$ 100 mil, a meta é alcançar um excedente de produção agrícola familiar de 18 milhões de toneladas por ano.
Pé no chão e barriga vaziaLonge das cúpulas e da burocracia para a erradicação da fome no mundo, o Brasil vive em estado de alerta, quase a totalidade das crianças provenientes de famílias de baixa renda encontram-se desnutridas. A informação é do portal Vencendo a Desnutrição do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que também divulga: em 96, 10,5% dos menores de 5 anos mostraram baixa estatura (índice de desnutrição). Porém, analisados os 20% mais pobres, esse percentual sobe para 23%, que é mais alto do que em países africanos como o Egito.
Segundo a psicóloga e diretora de projetos do Centro de Recuperação e Educação Nutricional - CREN, Gisela Maria Bernardes Solymos, 50% das mortes entre crianças menores de seis anos tem como causa a desnutrição. No entanto, este índice fica oculto nos atestados de óbito, já que a criança não morre de desnutrição, pelo menos não nos atestados, mas de sarampo, bactérias e tantas outras enfermidades, que encontram em seu organismo debilitado força para se desenvolver.
“A partir da desnutrição primária, a criança não come, fica fraca e doente. Doente, ela não consegue comer. Ou seja, ela está exposta a um ambiente propício às doenças e não consegue se recuperar” – acrescenta a diretora.
Aqueles que sobrevivem à desnutrição, mesmo quando adultos sentem sua marca e muitas vezes não têm conhecimento disso. De acordo com Gisela, jovens e adultos que tiveram desnutrição na infância têm tendência à obesidade, hipertensão, cardiopatias e diabetes. “Ao passar por uma favela é fácil destacar este índice de obesidade. As pessoas são geralmente obesas e com baixa estatura, prova da desnutrição na infância” – destaca.
No caso específico da obesidade, isso acontece porque, depois de algumas horas sem ingerir nenhum alimento, quando a pessoa retorna à alimentação, o corpo guarda mais calorias para que, em outra baixa de energia, utilize o estoque. No caso de uma pessoa que sofreu com a desnutrição na infância isso se intensifica, porque o corpo já foi condicionado a sempre armazenar mais. E pais com tal histórico, vivendo em situação de risco, retomam o mesmo ciclo gerando crianças desnutridas.
A mídia também tem de culpaGisela Solymos, diretora do CREN, aponta como um dos vilões o marketing em torno de alimentos vitaminados: bolachas, salgadinhos, bolinhos... Isso se dá pelo desejo de querer agradar o filho, que vê na televisão e sente vontade. “Então, quando a mãe recebe o salário do mês prefere comprar bolachas ‘práticas e vitaminadas’ a comprar frutas, verduras e legumes. E fazem isso sem culpa, pois acreditam que aquele produto irá oferecer os nutrientes necessários.” – destaca Gisela.
Na comunidade e agora com barriga cheiaPara confrontar e transformar esta realidade, há 15 anos o CREN atua na recuperação de crianças 0 a 6 anos em situação de desnutrição e de risco social, exclusas da sociedade. Seu trabalho começou com uma pesquisa nutricional e de saúde feita pela Universidade Federal de São Paulo – Unifesp com moradores da favela da Vila Mariana, na qual foram entrevistadas duas mil pessoas. Com os dados em mãos percebeu-se que era preciso fazer algo de concreto que pudesse mudar a trajetória daquelas vidas. Logo uma das professoras responsáveis pela pesquisa, escreveu um projeto já com o apoio da instituição italiana AVSI. A pesquisa se tornou o Centro de Recuperação Educacional e Nutricional, onde as crianças são atendidas, em regime de creche hospitalar, de segunda a sexta-feira.
“Aqui as crianças recebem cinco refeições diárias e aprendem, em uma rotina de pré-escola, com atividades adequadas às idades, a fazer refeições balanceadas com acompanhamento médico e nutricional” – descreve Gisela Solymos, diretora de projetos.
Ela explica que o objetivo é, além de recuperar o peso, dar tempo para o corpo responder ao tratamento com a normalização da estatura, fazendo com que esta criança não tenha seqüelas da desnutrição. “Nossos resultados mostram o contrário de pesquisas que afirmam que criança que nasceu desnutrida – 70% – não chega à estatura normal para sua idade. Por isso, nosso trabalho é minucioso e leva em média um ano e meio, ou mais, depende de como o organismo da criança está respondendo” – acrescenta.
Segunda Gisela, uma pesquisa realizada recentemente pela Unifesp com crianças de 10 anos que passaram pelo CREN, mostrou que estes jovens têm estatura nutricional equiparada aos outros jovens da região.
Recuperando a cidadania
Além do atendimento às crianças, pelo menos, uma vez por mês os pais são orientados por uma assistente social quanto à retirada de documentos, a programas de alfabetização e aos programas do Governo. Das famílias atendidas somente 25% nesta faixa de pobreza têm acesso ao Bolsa Família. “Muitos nem sabem desse auxílio” – destaca Gisela.
Por isso, a coordenadora enxerga que o CREN ajuda as famílias a recuperarem também a auto-estima, a dignidade e o respeito.
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O desenvolvimento da criança pode ser prejudicado, quando seus pais não recebem orientação de médicos, enfermeiras, nutricionistas, auxiliares de enfermagem, psicólogos, assistentes sociais, etc, a respeito de:
• Pré-natal; • Aleitamento materno; • Desmame;
• Orientação nutricional durante o desenvolvimento da criança; • Vacinação - que deve estar em dia, pois desta forma muitas doenças, como difteria, coqueluche, tétano, paralisia infantil, tuberculose e sarampo serão evitadas.
Fonte: Vencendo a desnutrição |