Correr, pular, dançar, jogar, cair, levantar, aprender, sorrir, brincar... São atividades e lembranças saudosas da infância. No entanto, ao longo dos anos e do avanço da tecnologia, este quadro da infância e da juventude vem sofrendo alterações importantes.
A preocupação com a segurança tem feito com que eles permaneçam por longos períodos dentro de casa assistindo televisão e entretidos com jogos e salas virtuais. Habituados a este ritmo, poucos se interessam por praticar esportes. Após passar a maior parte do dia sentados, expostos à propagandas e alimentando-se de maneira inadequada, a tendência é engordar e tornar-se cada vez mais desanimado a sair dessa condição.
Conforme afirma a mestra de Pediatria e Puericultura da Faculdade de medicina do ABC, Denise de Oliveira Schoeps, mesmo que queira se exercitar, esse jovem esbarra na gozação dos amigos e no cansaço por causa do sobrepeso. Então, prefere se isolar das atividades e, por causa da frustração gerada, recorre mais uma vez à geladeira. E assim, a cada ano cresce a epidemia mundial da obesidade entre os jovens.
Nos EUA, onde o índice é maior, 30% das crianças entre 6 e 19 anos estão com sobrepeso ou obesas. Já no Brasil, um estudo publicado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - SBEM, indica que 15%das crianças e 8% dos adolescentes brasileiros são obesos. Dados que as colocam no grupo de risco de doenças cardíacas, diabetes, hipertensão arterial, alterações ortopédicas, além de seqüelas emocionais, como a depressão. E o mito de que a criança emagrece sozinha com o passar dos anos também foi quebrado. O estudo revelou que oito em cada dez adolescentes continuam obesos na fase adulta.
Início do problema
Segundo Denise Schoeps, os equívocos na nutrição infantil começam com o desmame precoce. “Este período tem que ser valorizado. O leite materno tem nutrientes suficientes para o desenvolvimento da criança, mas tem rápida digestão. Então é normal que a criança depois de algumas horas chore com fome novamente. Não há, portanto, necessidade de acrescentar à alimentação da criança outro leite, nem farinhas e outros produtos. “Quando isso acontece estamos forçando a criança a engordar, porque damos a ela um leite forte, que consegue engordar um bezerro em seis meses, o que uma criança, alimentando-se adequadamente, levaria um ano” – ressalta. O ideal para Denise, seria passar por uma orientação nutricional, pelo menos uma vez ao ano até a idade adulta e nos primeiros dois anos, a cada seis meses.
Faça o que digo, mas não faça o que eu faço
Lucas tem 13 anos de idade, mede 1,60 e pesa 70 kg, apresentando cerca de 5 kg de sobrepeso. Estes números não seriam tão alarmantes se não fossem alguns fatores: sua mãe, Sandra dos Santos Montagini, de 42 anos, com 1,55 de altura pesa 107 kg. Além disso, ele resiste à reeducação alimentar, assim como a praticar natação, por sentir-se envergonhado com o corpo.
Sandra diz que é horrível ver o filho desanimado desta maneira, sabendo que tem parte desta culpa. “Antes que eu começasse um tratamento para perder peso, há um ano, não havia esta preocupação. Quase não existia fruta, verduras e legumes nas refeições. Era muita massa, refrigerante, doce, fritura. E eu o acostumei assim. Agora ensiná-lo que é preciso se alimentar melhor está sendo mais difícil” – relata a mãe.
De acordo com Denise, mais do que o fator genético, o hábito alimentar da família é o que faz a diferença no desenvolvimento nutricional dos filhos. “Seu filho não vai ao fast-food sozinho” – destaca e acrescenta que os pais é que devem conduzir e incentivar seus filhos. “As crianças precisam aprender a ouvir não. Ceder na primeira manha é fazer com que o filho continue a rejeitar alimentos saudáveis, a praticar esportes... se não está dando certo de um jeito, tente de outro. Não quer natação, pergunte qual outro esporte ele gostaria de praticar. Se não quer comer cenoura, faça uma apresentação do prato de uma maneira diferente, mas a educação alimentar é responsabilidade da família” – alerta.
A associação Brasileira para o estudo da obesidade e da síndrome metabólica – Abeso, destacou alguns erros que não devemos cometer na educação alimentar da criança. Veja abaixo:
1. Dizer sempre sim: a criança sem limites vai abusar das calorias e das guloseimas. Devemos ter um dia por semana e situações em que podemos ser mais liberais.
2. Lanches fora de hora: o ideal são seis refeições diárias e evitar as beliscadas fora desses horários.
3. Oferecer comida como recompensa: “coma toda a sopa para ganhar a sobremesa”. Passa a idéia de que tomar sopa não é bom e que a sobremesa é que é o máximo.
4. Ameaçar castigos para quem não cumpre o combinado: “se não comer a salada, não vai ganhar presente”. Isso somente vai aumentar o ódio que a criança sente das saladas.
5. Brincadeiras na mesa: hora de comer é hora de seriedade, evitar fazer aviãozinho. Muito mimo é sinônimo de muita manha.
6. Ceder ao primeiro “não gosto disso”: a criança tem uma tendência a dizer que não gosta de uma comida que ainda não provou. Cada um pode comer o que quiser, mas experimentar não custa nada.
7. Substituir refeições: não quer arroz e feijão, então toma uma mamadeira. Esse erro é muito comum, e se a criança conseguir uma vez, vai repetir essa estratégia sempre.
8. Tornar a ida a uma lanchonete, um evento: a comida de casa fica meio sem graça.
9. Servir sempre a mesma comida: a criança só toma iogurte, então passa o dia todo tomando iogurte. Vai enjoar, ter carência de nutrientes, de fibras, etc.
10. Dar o exemplo: não adianta mandar tomar sucos e somente beber refrigerantes.