Com a mesma freqüência em que o tema criminalidade é diariamente discutido em todos os setores da sociedade, novos jovens são recebidos pelos grupos criminosos nas favelas, iludidos com a falsa sensação de independência, superioridade, poder aquisitivo, segurança e com a oportunidade de adquirir tudo o que seu desejo permitir: roupas, tênis, carros e notoriedade - mesmo que reconhecida somente pela comunidade do crime.
O fato é que, enquanto as possíveis soluções levantadas não forem suficientes para oferecer este mesmo status de forma digna ou valores e princípios que se sobreponham a esses atrativos, milhares de jovens continuarão morrendo pelo envolvimento no crime.
De acordo com dados levantados pela Unesco em 2002, o Brasil foi apontado como o segundo país com mais mortes violentas de jovens entre 15 e 24 anos, atrás somente da Colômbia, Ilhas Virgens, El Salvador e Venezuela, e teve um aumento de 77% no número de homicídios de jovens brasileiros em 10 anos. Um terço, provocadas por arma de fogo.
Solução estratégicaEm meio a todos estes números alarmantes, Minas Gerais adotou o Programa Controle de Homicídios Fica Vivo!, um programa cujo objetivo é atingir jovens de 12 a 24 anos em situação de risco social e residentes nas áreas com maior índice de criminalidade, reduzindo as taxas de homicídios. E tem obtido sucesso! Ainda em formato piloto, há seis anos o Fica Vivo foi implantado na região do Morro das Pedras, na época, uma das áreas mais violentas de Belo Horizonte e somente nos primeiros cinco meses de atuação, já apresentou uma redução de 50% na taxa de homicídios, tentativas de homicídios, roubos e assaltos a padarias e supermercados. Hoje, ele atende 22 comunidades, 11.846 jovens e, em 2006, cerca de 300 participantes do programa foram capacitados para o mercado de trabalho.
Segundo a coordenadora do programa, Kátia Simões, este resultado só está sendo possível, pois a ação partiu de uma estratégia que envolveu as Polícias Militar, Civil e Federal, o Ministério Público, a Prefeitura de Belo Horizonte, o Sebrae, a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), ONGs, movimentos sociais e a comunidade.
O programa foi desenvolvido pelo Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança
Pública da UFMG – Crisp, tendo como base o resultado de uma pesquisa que apontou um crescimento de 100% no número de homicídios, em Belo Horizonte, entre 1997 e 2001.
Com foco na diminuição dos índices de mortes entre jovens em risco social, o Fica
Vivo estruturou-se em dois pilares fundamentais: a Intervenção Estratégica, grupo formado por órgãos judiciários e públicos para a implantação e avaliação das ações, e a Proteção Social, grupo representante da comunidade que apresenta seus problemas e possíveis soluções.
“Estas parcerias permitiram aproximar o público-alvo do programa e capacitar as comunidades, junto com os órgãos públicos e judiciários, na criação e implementação de soluções conforme as necessidades” – disse a coordenadora.
Kátia ainda destaca o fato do apoio da polícia mudar a imagem distorcida que a população tem dos policiais. Eles mapeiam e identificam os principais alvos que ameaçam a paz da comunidade e fazem o trabalho de monitoramento por meio do policiamento comunitário. Para isso, foi criado um departamento exclusivo para o Fica Vivo, o Grupamento Especial de Policiamento para Áreas de Risco – GEPAR.
ImplantaçãoDesde 2003, o Programa Controle de Homicídios Fica Vivo! foi aprovado pelo Estado como política pública estadual, portanto hoje, ele está instalado nos locais apontados, também pelo Governo, como áreas de risco.
A primeira providência é levantar informações sobre o local: número de jovens, dados da criminalidade, projetos que já estão em andamento e quais os principais problemas. A partir de então, convoca-se a sociedade para participar ativamente de sua solução.
“Durante a avaliação do local, procuramos conhecer o que já estava sendo feito na região. Se já existia uma oficina bem sucedida de futebol, por exemplo, damos continuidade a este trabalho, mas com o novo foco de público, capacitando o oficineiro” – explica Kátia.
Este foi o caso de Sérgio Soares Magalhães, responsável pelas oficinas de futebol e percussão. Ele conta que no começo a mudança de foco o preocupou, afinal agora ele iria lidar também com jovens já envolvidos no crime.
“No começo foi difícil, por mais que tivesse recebido a capacitação, teria que enfrentar a realidade, lidar diretamente com jovens que andavam armados o tempo todo. Mas agora o medo passou. Aprendi a conquistar a confiança desses meninos” – conta o oficineiro.
Para ele, o mais importante nesta relação é deixar o jovem livre, sem fazer muitas perguntas, falar a língua dele e aos poucos conhecê-lo. “Quando ele se sente à vontade, ele mesmo fala de si” – destaca.
Em dois anos no programa, Magalhães teve contato com muitos jovens, alguns não conseguiram se libertar das garras da criminalidade, mas outros são seus ajudantes.
Conquistaram um lugar na sociedade, trabalham, têm identidade, carteira de trabalho, vão ao shopping, porque aprenderam a enxergar as diferenças.
“Nosso trabalho é mostrar para estes jovens que existe outra realidade, apresentando um mundo diferente daquele que ele está acostumado, através das oficinas e das visitas promovidas a museus, cinemas, eventos culturais...” – diz a coordenadora.
Saindo daquele ambiente, até então seu refúgio, e, conhecendo outros lugares e referências positivas ele compreende que há outras alternativas de vida.
| Núcleos |
Jovens no Fica Vivo |
Nº de oficinas |
Média de jovens/oficina |
Jovens 15-24 nos bairros atendidos |
% de jovens no programa |
| Ribeiro de Abreu |
953 |
40 |
23,83 |
64,917 |
1,47% |
| Morro das Pedras |
1.132 |
36 |
31,44 |
14,538 |
7,79% |
| Uberlândia |
835 |
27 |
30,93 |
7,463 |
7,89% |
| Contagem |
759 |
28 |
27,11 |
3,347 |
23,45% |
| Montes Claros |
589 |
20 |
29,45 |
11,538 |
4,79% |