O sonho de toda menina é encontrar o príncipe encantado. Viver um conto de fadas, como aqueles da literatura infantil, em que a mocinha é liberta das garras da bruxa má por seu protetor, um forte e corajoso cavalheiro. E, em devoção a este ato heróico - prova maior de amor -, ela, tão doce e dedicada, se rende em seus braços, submetendo seu futuro a ele. Mas, será que o narrador acompanhou a relação do casal apaixonado após o casamento, antes de pronunciar a célebre frase: e viveram felizes para sempre?
Segundo dados divulgados em 2002 pela Organização Mundial de Saúde – OMS, 7% de todas as mortes de mulheres, entre 15 a 44 anos, em todo o mundo, foram resultados da violência de seus maridos ou namorados, atual ou ex. No Brasil, outra pesquisa, realizada pela Fundação Perseu Abramo, em 2001, registrou que 6,8 milhões de mulheres já foram espancadas pelo menos uma vez.
E o conto de fadas?
De acordo com a psicóloga da Casa Eliane de Grammont, Lenira Silveira, a violência contra a mulher está associada às desigualdades nas relações entre homens e mulheres, que foram construídas historicamente e persistem até os dias atuais.
“Embora o movimento feminista tenha obtido muitas conquistas em relação aos direitos das mulheres, ainda é preciso uma mudança de mentalidade mais ampla, que não reproduza os papéis de gênero tradicionais” – destaque a psicóloga.
De modo geral, características como coragem, força, dominação e agressividade ainda estão associadas ao sexo masculino, enquanto fragilidade, sensibilidade e submissão ao sexo feminino. Por isso, espera-se uma atitude mais agressiva dos homens, até em favor às mulheres. É só pensar quantas delas já ficaram lisonjeadas em ver seus companheiros enfrentando outro homem para defendê-las? Desta maneira, segundo Lenira, ainda é considerado normal, socialmente, uma relação em que, por exemplo, o homem grite com a companheira e ela se cale. Por esta mesma razão, muitas mulheres que vivem relações violentas, demoram anos para reconhecer as atitudes do companheiro como tal.
Carla Sato*, foi uma das milhares de mulheres que, iludidas pela valentia do príncipe, casou-se com o sapo. Enquanto namorava nunca imaginou que o ‘cuidado’ que namorado tinha com ela pudesse lhe causar algum problema. “Ele era uma graça de pessoa, simpático com todos, mas com o tempo, já morando juntos, mostrou que vivia de aparências. Começou a implicar com tudo, amigos, roupas, dizia que eu estava gorda, que não era mais a mesma. Foi quando entrei em depressão, e aí sim, engordei 15 kg. Mesmo assim, só percebi o que ele estava fazendo comigo no dia que partiu para a violência física” – conta.
Hoje, Carla se libertou dessa relação e refez sua vida fora do país, perdendo totalmente o contato com o passado violento que a prendia. Contudo não são todas que conseguem se desligar dos agressores, umas ficam presas pela esperança que um dia as promessas se cumprirão, pela estabilidade financeira, pelos filhos ou por acreditarem no amor que um dia já foi puro.
Ana Clara* casou-se aos 17 anos, grávida de sua primeira filha, com um rapaz dois anos mais velho que, para ela, ‘só usava drogas de vez em quando’. Além dos problemas causados pela imaturidade, o ciúme era uma marca da relação. “Às vezes falava mais áspero comigo, segurava forte nos meus braços, mas achava isso normal. E até me achava importante com aquele excesso de ciúmes. Eu não podia sair com ele em lugares mais movimentados, pois ele sempre dizia que eu estava olhando para algum rapaz” – relembra. Ao longo do tempo, a dependência química tornou-se mais visível. “Ele começou a ser doente mesmo, viciado em coisas mais pesadas. Ele queria sair de casa pra usar, mas eu não deixava, e isso motivou as agressões. Dai por diante, depois do primeiro perdão, qualquer coisa era motivo” – conta.
Ela acredita que um dos motivos que a ligou a esta relação conturbada, foi não ter tratado o trauma de infância causado pelo abuso sexual que sofreu do tio. Trama que, segundo a psicóloga, é freqüente em mulheres vítimas de violência. “É comum nestas relações agressivas que as mulheres e/ou parceiros tenham crescido em famílias onde ocorria violência doméstica. Hoje, Ana é mãe de três meninas, que sofrem paralelamente com a mãe. “Ele nunca bateu nelas, mas me batia e ofendia na frente delas. Era horrível, porque elas choravam e gritavam e virava aquele inferno” – destaca.
Contudo, ela diz que aprendeu, a duras penas, que é ela quem deve estabelecer os limites. “Se na primeira vez que ele falou alto comigo, eu não tivesse aceitado, a história já teria sido outra” - alerta. Por isso, ela adotou outra postura, deixou de acreditar que poderia mudá-lo e começou a cuidar de si. Recuperou a auto-estima, voltou a trabalhar e a sorrir. No entanto, Ana, que já o denunciou, crê na recuperação do marido, que há 40 dias está longe das drogas. “No momento não penso em deixá-lo porque aprendi a estabelecer limites. Mas só tomei esta decisão porque ele quer mudar e está mostrando isso” – diz.
No entanto, nesta situação, a psicóloga faz um alerta: “quando a relação violenta já está instalada, o homem dificilmente será capaz de superar esse padrão sozinho. Ele precisa de ajuda profissional. Se ele reconhecer suas dificuldades e decidir procurar ajuda, então pode dar certo. Caso contrário, é apenas uma questão de tempo para as agressões se repetirem”.
E agora que o sonho virou pesadelo?
O maior medo das mulheres vítimas da violência é não saber o que vai acontecer com o cônjuge, porém, não denunciar é expor a sua própria vida, e a de seus filhos, ao risco de morte. A legislação em favor da mulher, conhecida como Lei Maria da Penha (Lei 11.340), reconhece além da violência física, outras formas, como a violência psicológica, moral, patrimonial. Por isso, na dúvida, quando a mulher perceber que naquela relação ela se sente desqualificada, humilhada e com medo, ela deve procurar ajuda.
Hoje, já existe uma ampla rede de serviços que podem orientá-la e apoiá-la, como é o caso da Casa Eliane de Grammont, em São Paulo, que é centro de referência e atendimento integral às mulheres, nos casos de violência doméstica e sexual, oferecendo atendimento psicológico e de assistência social. Sair do isolamento, da solidão, é o passo mais importante para romper uma relação violenta.
Serviços: Disque 180, Central de Atendimento à mulher.
* Foram usados nomes fictícios para preservar a integridade das personagens.