Cerca de 900 mil quilômetros brasileiros compõem o semi-árido brasileiro, que foi delimitado pela Embrapa, em 1991. É uma região de extrema beleza formada pela caatinga e que atinge grande parte do Nordeste, a região setentrional de Minas e o norte do Espírito Santo. No entanto, o semi-árido ficou mais conhecido por uma parcela desse imenso território que é castigado com a seca. Cenas que lembram o deserto, que mostram a fome, animais minguando e que colocam a todos diante de duas constatações imediatas: o verdadeiro valor da água e a força de um povo que não se deixa vencer pelas dificuldades.
Estima-se que pelo menos um milhão de famílias viva em condições de extrema pobreza no semi-árido, dedicando-se a atividades de cultivo da terra, própria ou de terceiros. Elas enfrentam mais da metade do ano de estiagem, e para eles, a água tem um valor todo especial: o da vida!
Desde 1999, uma rede composta por diversos segmentos da sociedade foi formada para fomentar alternativas viáveis e o desenvolvimento dessa região: a ASA - Articulação no Semi-árido Brasileiro.
Desenvolvimento X Assistencialismo
A Asa defende a construção de políticas públicas que promovam, de fato, o desenvolvimento econômico, humano e ambiental, considerando o bioma específico e as particularidades dessa região. Dessa forma, medidas emergenciais, anti-econômicas e que geram dependência, como caminhões-pipas e cestas básicas poderiam ser substituídas por ações permanentes e eficazes. No site www.asa.org.br, a entidade declara: “o assistencialismo custa caro, vicia, enriquece um punhado de gente e humilha a todos”.
Buscando saídas
Uma das ações implantadas é a construção de cisternas (reservatório de águas pluviais), através do “Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semi-Árido: um Milhão de Cisternas Rurais” - P1MC. A Asa defende que equipar a população com cisternas de placas custaria menos de 500 milhões de reais (valor muito menor do que o destinado em caráter emergencial) e traria uma solução definitiva ao abastecimento de água de beber e de cozinhar para 6 milhões de pessoas.
Conforme explicou o coordenador da ASA, José Aldo dos Santos, cada cisterna têm capacidade para armazenar 16 mil litros de água captadas das chuvas, no período de abril a julho, através de calhas instaladas nos telhados. Com ela, as famílias não precisam mais sacrificar-se em longas caminhadas em busca do líquido. Ganham com isso, tempo para dedicar-se a outros afazeres mais produtivos.
A construção é feita por pedreiros das próprias localidades, formados e capacitados pelo P1MC e, pelas próprias famílias, que executam os serviços gerais de escavação, aquisição e fornecimento da areia e da água. Os pedreiros são remunerados e a contribuição das famílias nos trabalhos de construção se caracteriza como a contrapartida no processo. “Se a água da cisterna for utilizada de forma adequada – apenas para beber, cozinhar e escovar os dentes – dura, aproximadamente, oito meses” - disse Santos. Esse cálculo considera uma família de 7 a 8 pessoas.
Segundo ele, a água é própria para uso, porque há no programa um treinamento das famílias sobre os cuidados que devem ter com o líquido. “Ensinamos o gerenciamento desse recurso hídrico, desde a captação pelas calhas, tratamento para o armazenamento na cisterna até o consumo” – explicou. Já foram construídas 221.514 cisternas. Em abril, novo módulo deve ser iniciado com a construção de mais 23 mil cisternas, financiadas pelo Ministério do Desenvolvimento Social. O programa conta também com auxílio do empresariado e doações. As famílias são indicadas pelas comissões municipais, formadas por entidades da sociedade civil organizadas. São considerados diversos critérios de prioridade, como por exemplo: mulheres que são chefes de família, número de filhos, etc...
O coordenador entende que o programa promove a mudança na vida das pessoas. “Mais do que construir cisternas, o programa garante a cidadania, a auto-estima, a educação, a autonomia e justiça de direitos sociais” – concluiu Santos
Depoimento:
Um dos depoimentos de famílias atendidas pelo programa (disponível no site da Asa), deixa claro o significado dessa iniciativa:
“Era muito difícil aqui. No período da estiagem a gente passou muitas dificuldades pra lavar roupa, tomar banho e até mesmo pra beber. E, agora, com a cisterna, facilitou tudo. Antes, a gente procurava os riachos, uma água de péssima qualidade. Por causa dessa água, não só os filhos meus, mas na comunidade, as crianças adoeciam desse negócio de diarréia, vermes, essas coisas aí. Antes da cisterna, quem ia buscar água era eu e meu marido. Inclusive, ele tem um problema de saúde por conta disso, né? Ele tem hérnia de disco, por causa desses tambores pesados. Agora, a gente não precisa mais ir buscar água. O tempo que sobra tem agora o roçado, os bichos e os trabalhos de casa. As crianças que ajudavam também a pegar água, ficam mais livres pra escola. (...) A gente economiza e continua economizando porque a água é tudo. Sem comida a gente pode até passar, mas sem água não. (Antônia Guilhermina Dias da Silva, Manguape - Paraíba).