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Mantendo vivo o ideal da MEDICINA

Mantendo vivo o ideal da MEDICINA

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Seção: Editorias - Categoria: Social
Escrito por Gabriel Arcanjo Nogueira Seg, 04 de Maio de 2009 22:12

Hoje, aos 60, em Rio Branco (AC), Furtado diz: “Nada fiz de tão extraordinário em minha vida, pois mais recebi ajuda do que ajudei”. Grato a Deus e a pessoas marcantes em sua trajetória, o médico credita a oportunidade de sua realização como um dom que lhe permitiu o próprio progresso espiritual na prática do amor e da caridade.

Nascido na roça, de família humilde, aos pés da Serra da Mantiqueira, Furtado acredita que sua vida começou a tomar novos rumos bem cedo. “Aos 12 anos, terminei o curso Primário em São José dos Campos e tomei contato com a Ordem dos Servos de Maria (OSM) e suas missões no Acre. Me entusiasmei pelo ideal de missionário e entrei no seminário dos padres servitas, onde fiz do quinto ano - a antiga Admissão - ao curso ginasial”, afirma.

A identificação com os servitas é uma constante na vida de Furtado. Depois do Ginásio (atual ensino fundamental), concluído em Turvo (SC), o adolescente voltou a São José dos Campos, onde fez o Colegial (Ensino Médio) durante três anos. “Em 1969, época em que os Beatles e Roberto Carlos faziam muito sucesso, fui enviado para fazer o Noviciado (período de iniciação à vida religiosa) nas missões OSM no Acre - éramos 4 seminaristas”, lembra.

O despertar do médico

Foi aí que o fradinho (como alguns estudantes se tratavam) teve o primeiro contato com o que ele próprio define como “um mundo novo e exótico”. Furtado conheceu o antigo leprosário, visitou muitas comunidades pobres no interior do Estado acreano - sem a mínima assistência médica. “Ajudei a transportar doentes para a capital e fiquei sensibilizado ao ver tanto sofrimento. Foi assim que despertou em mim o ideal da Medicina”, conta.

O jovem não se contentaria em cuidar de almas, num ambiente em que corpos padeciam de males bem mais visíveis. Furtado recorda-se com precisão do momento-chave de sua vida. “No dia 1º de outubro de 1969, às 5h50, quando saía pela porta do antigo Colégio dos Padres (que virou o Colégio Meta), como fazia todos os dias, para assistir à missa na Catedral de Rio Branco, me veio, subitamente, a idéia de estudar Medicina, para dar assistência aos doentes hansenianos e às comunidades mais pobres”.

O noviço começou a dar lugar ao médico, não sei se para desespero dos padres. Furtado comunicou a sua decisão ao superior e, em vez de se mudar para São Paulo, onde cursaria Filosofia e Teologia, foi à luta para conquistar o novo ideal: iria a todo custo estudar Medicina em Manaus (AM). “Estava disposto a me aventurar, na mudança de rumo, com toda a fé e a coragem, sem conhecer ninguém... na última hora, o avião da FAB não veio, e os padres me mandaram de volta para São Paulo”.

Tempos difíceis

A caminhada, reconhece Furtado, seria longa em busca do seu objetivo. Os tempos eram difíceis, em plena ditadura militar.

Em 1970, enquanto a pátria de chuteiras desfilava seus dotes futebolísticos em campos mexicanos, o jovem egresso das fileiras eclesiásticas teve de servir ao Exército. “Fiz o curso de Preparação de Oficiais da Reserva - experiência difícil na época -, enquanto começava o cursinho preparatório ao vestibular”, diz. O temido vestibular, ainda mais para quem, desprovido de recursos financeiros, teve de estudar em livro emprestado, às vezes à luz de vela ou lanterna, para incomodar menos os colegas de pensão.

A tenacidade nele convive com uma pessoa tímida - é provável que uma característica alimente a outra e faça do modo espartano de encarar a vida a receita para a vitória. Até que, em janeiro de 1971, depois de prestar o exame vestibular na Faculdade de Medicina de Itajubá (MG), Furtado conseguiu classificar-se na segunda chamada entre 1.200 candidatos para 100 vagas. Era para comemorar, mas cadê tempo para isso? Era preciso correr atrás de suporte financeiro para pagar os estudos. Não dava para perder o direito à matrícula. A peregrinação em busca de ajuda levou o jovem à uma emissora de TV, a um jornal do Vale do Paraíba, que de pronto compraram a briga.

A Tv o colocou no ar, na hora; o jornal publicou a mensagem “Vamos ajudar este rapaz”. Não bastasse, Furtado teve a solidariedade dos próprios colegas de turma, para se manter, de professores - especialmente o “saudoso Rios, do ITA”, faz questão de citar. Este conseguiu que o coronel-comandante do CTA intercedesse junto ao MEC, que deu uma ajuda ao jovem para pagar a matrícula. Mais uma etapa vencida. Mas viriam pela frente os longos anos de duração do curso. A saída foi fazer acordo com a Faculdade de Medicina: “Fiquei assinando notas promissórias para pagamento depois de formado”, conta.

Perseguição política

Aos 28 anos, Furtado terminou o curso de Medicina, “com muita glória”, ressalta. Foi quando fez as pós-graduações para especializar-se no atendimento que pretendia dar às pessoas sofridas na floresta amazônica. Concluiu esse ciclo em 1979. “Estava pronto para vir ao Acre. A minha intenção era trabalhar com os hansenianos, mas a Secretaria de Saúde me requisitou para coordenar o Programa de Dermatologia Sanitária do Estado. Depois de dois anos, sofri perseguição política e tive de me afastar”, relata.

O jeito servita de fazer a saúde pública andar, de acordo com princípios da justiça social, não agradou a representantes alinhados com a ditadura militar, ainda em vigor: “Aproveitei para fazer especialização em cirurgia geral em São Paulo e, em 1989, retornei ao Acre como cirurgião.” Não houve dificuldade que impedisse o médico de seguir em frente.

O jornalista Antonio Marmo Cardoso, um dos colegas de Furtado de muitos anos, se lembra dele ainda dos tempos de infância e daí por diante: “Tinha um pai simples, como o meu, mas bastante severo, de pegar no pé. Acho que a figura do pai influenciou muito a personalidade do Furtado - um tipo sempre retraído, de sorriso acanhado... Já no Acre, ainda no noviciado, foi quando se definiu a opção pela Medicina, depois de uma primeira visita que fizemos com Frei Heitor ao leprosário. Acho que saiu impactado da visita. Um leproso, naqueles tempos, não era uma visão agradável, ainda mais num leprosário super precário... Sem dúvida, Furtado é pessoa de grande força de vontade, persistência”.

Marmo acredita que o trabalho do médico foi decisivo no aprimoramento do antigo leprosário para a colônia como está hoje.

5 mil pessoas

Furtado foi um dos médicos que deu “assistência periódica aos doentes, pela primeira vez em 1979, e, a partir de 1989, resolveu se fixar dentro da área da colônia”, relatou Maria Cisne, que desde os 7 anos de idade, em 1928, morou no leprosário e foi uma das pessoas que registrou em depoimento, em 2003, a história da instituição.

O médico é incansável em sua dedicação: “Me estabeleci na Colônia Souza Araújo (antigo leprosário), para me dedicar melhor aos doentes. Passei a atuar também no Pronto Socorro Estadual de Rio Branco, realizando cirurgias de emergência. Desde então, o bispo Dom Moacyr Grecchi me concedeu uma moradia na área da própria colônia, que é administrada pela Diocese de Rio Branco”.

O trabalho desenvolvido por Furtado inclui assistência aos doentes internos, em torno de 60 a 70 pacientes asilados, portadores de sequelas da hanseníase. “Eles requerem cuidados básicos para a manutenção da saúde”, explica. O médico atua também no Centro de Souza Araújo, próximo à colônia. “Atendo toda a população da área, de mais ou menos 5 mil pessoas, entre as quais muitos hansenianos que moram nas vilas próximas e egressos do antigo leprosário”, diz.

Nada mal para um “bicho do mato”. Antes todos tivessem esse poder de percepção e ação.