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Trabalho diferente constrói cidadania

Trabalho diferente constrói cidadania

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Seção: Editorias - Categoria: Social
Escrito por Sandra Regina do Nascimento Santos Seg, 05 de Outubro de 2009 17:32

Esta foi uma das constatações de pesquisadores presentes no Seminário Franco Brasileiro sobre economia solidária e as novas configurações do Trabalho, realizado na Universidade de Campinas (Unicamp), nos dias 26 e 27 de agosto, como parte das comemorações do Ano da França no Brasil (ver Box). Como o título do Seminário adianta, as discussões giraram em torno das novas necessidades populares frente à crise do trabalho e às experiências de geração de emprego e renda. Com a participação da Dra. Isabel Georges, socióloga pesquisadora do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD - sigla do original francês: Institut de Recherche pour le Développement) e professora visitante da Unicamp, e da Profa. Márcia Leite, do Departamento de Educação da Unicamp e também da equipe organizadora, realizou e uma reflexão sobre a importância da economia solidária frente à atual fase do sistema capitalista.

O motivo inicial do encontro foi a avaliação de dois projetos desenvolvidos para estudo e detecção destas situações no país.

Um financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), denominado A crise do trabalho e as experiências de geração de emprego e renda: as distintas faces do trabalho associado e a questão de gênero, e o outro fruto de uma parceria franco-brasileira entre o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o IRD, intitulado As novas configurações do trabalho e trajetórias de inserção de populações de baixa renda.

A gente não quer só dinheiro...

A economia solidária não pretende apenas gerar rendas para sobrevivência física das pessoas, mas, principalmente, combater o individualismo, criar cidadãos conscientes e participantes da efetiva transformação do planeta - iniciando este processo no quintal de casa, na pequena comunidade, trabalhando os valores culturais e a autoestima - para que não tenham mais lugar as discriminações de qualquer espécie (idoso ou jovem; homem ou mulher; independente de cor ou religião) e os sentimentos de exclusão; para gerar e aumentar a noção de pertencimento a uma grande família que compartilhe os destinos da Terra - para o surgimento da consciência ecológica.

Esta não é uma idéia nova, mas que se recicla constantemente no mundo todo, sob vários discursos que variam devido às mudanças de contexto histórico. Assim, busca-se o crescimento do sujeito social, suprindo suas necessidades materiais e morais, e garantindo também a sustentabilidade do planeta para as futuras gerações.

No Brasil, este tipo de iniciativa é herdeira das mobilizações populares da década de 80, quando, recém-saídas de uma dita dura de 21 anos (desde o golpe militar de 1964), as populações periféricas, esquecidas nos anos de arbítrio, começaram as lutas coletivas para a solução de problemas aparentemente simples, como falta de asfalto, rede de água e esgoto, e transporte urbano, carestia dos gêneros de primeira necessidade. Os encontros, em salões paroquiais ou escolas, desencadearam organizações, como clubes de mães, grupos de jovens e trabalhadores, que tentavam a resolução dos problemas de seus bairros. O desgosto com os políticos pro fissionais e, logo depois, a decepção com os novos e renovados partidos políticos (PT, PCB, PDC do B...) aumentou a busca por soluções alternativas.

Os anos 90, por isso, ficaram conheci dos como a década das Organizações Não Governamentais (ONGs) - entidades sem fins lucrativos, que captam e distribuem verbas, para auxiliar (técnica, financeira mente, ideologicamente) os grupos, promovendo cursos na área de alimentação, vídeo popular, etc - formato que hoje também foi incorporado pelos poderes públicos de Estados e municípios. Porém, o empreendedorismo, muitas vezes o único viés trabalhado nos cursos ministrados, não satisfaz plenamente os anseios: a fome não é só de comida, é de dignidade, arte, cidadania, companheirismo... demandas muito maiores do que a panela cheia.

Há, então, a caminhada que revela lideranças, rurais e urbanas, promove a reciclagem de idéias, a reconstrução de sonhos e a animação para a continuidade do trabalho; a montagem de associações e cooperativas que, vendendo serviços de sua própria lavra, contribuem para que os participantes aprendam a se inserir e auto-valorizar socialmente, adquiram outros conhecimentos e ensinem os seus próprios valores... Mas se o sonho é bonito, na prática, muitas vezes, a coisa se complica: "a realidade é mais multifacetada do que o estatuto de uma cooperativa nos permite ver", diz a professora Isabel Georges.

"As cooperativas podem ter sucesso e lucro, mas às vezes acabam em dois ou três meses, por não conseguirem manter o número mínimo de participantes, que é vinte. As pessoas que são capacitadas em ONGs acabam procurando emprego na iniciativa privada e abandonando a organização", completa.

Outras vezes, segundo ainda a professora, algumas iniciativas ditas solidárias não respeitam as regras escritas em seus próprios estatutos, impõem um regime de serviço quase industrial e os trabalhadores cooperados não podem se sindicalizar. Ela a firma ainda que, em suas pesquisas, observou que as cooperativas que atuam em setores que tentam se impor frente a empresas privadas (as têxteis, por exemplo) tendem a um maior afastamento da proposta solidária. Num canto da Metrópole A Zona Leste paulistana (objeto da pesquisa da professora Isabel Georges), hoje se caracteriza por grande densidade demográfica e pela sobrevivência de grande parte de sua população (30%) em situação de alta vulnerabilidade social. Campo fértil para as iniciativas dentro da lógica da economia solidária. Na região, ela ressalta os casos de Guaianazes, bairro de formação mais antiga, e da Cidade Tiradentes. O primeiro se desenvolveu ao longo do século XX por migrações, sobretudo nordestinas, e ocupações desordenadas, principalmente ao longo da linha ferroviária que, pela manhã, deixava os trabalhadores nos seus respectivos empregos e, à tarde, os devolvia às suas moradias - esta vive hoje uma situação mais estável, com iniciativas no campo da saúde que podemos chamar de históricas.

A Cidade Tiradentes, por sua vez, foi idealizada pelo próprio poder público que, nos anos 80, construiu o maior complexo de conjuntos habitacionais da América La tina (cerca de 40 mil unidades), distante 35 km do marco zero da cidade, e sem o fornecimento de infra-estrutura básica.

"Foi construído para retirar pessoas das favelas mais centrais, como a de Águas Espraiadas, e não havia nenhum comércio, hospitais... foram os próprios mora dores, nas garagens, fundos de casas, ao redor da ocupação, que organizaram suas próprias vendas, creches... a própria ação governamental favoreceu a informalidade, as pessoas tiveram que se virar.... e, inicialmente, até de maneira ilegal. Hoje, existem lojas grandes, uma rede famosa está estabelecida lá, tem CEU, escolas técnicas", informa a professora. "Na verdade, até a própria Cohab foi construída irregularmente, sobre terreno de proteção ambiental", completa.

No Brasil, existem mais de 15 mil empreendimentos de economia solidária, que se tornaram alternativa de inserção para cerca de um milhão de pessoas em 3 mil municípios - são empreendimentos que oferecem diferentes tipos de produtos e serviços, organizados por jovens e adultos, homens e mulheres do campo e das cidades. Redes de colaboração foram organizadas e formou-se o Fórum Brasileiro de Economia Solidária. Um movimento que não pode mais ser ignorado, deve ser incentivado como parte da construção do País, pois auxilia pessoas a sobreviverem e famílias a conquistarem a estabilidade.

O Ministério do Trabalho e Emprego, através da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), procura promover políticas de apoio a esse tipo de iniciativa.

"A inserção da população de baixa renda é feita com apoio de sindicatos, ONGs, mobilizações de grupos e indivíduos em trabalho doméstico, costureiras, trabalhadores ambulantes... estes trabalhos, condicionados pela situação de falta de empregos formais, podem ocorrer nas próprias casas dos trabalhadores e envolver não um só trabalhador, mas toda a família", conclui Isabel Georges.

Atividades promovidas pelo IRD

O IRD (Institut de Recherche pour le Développement) nasceu na França, após a II Grande Guerra (1939-1945), como ORSTM, uma sociedade científica com o intuito de promover colaboração entre pesquisadores franceses e de outras nações (principalmente ex-colônias daquele país).

No Brasil, a ORSTM/IRS está presente desde a assinatura do primeiro convênio com o Instituto Agronômico de Belém, em 1958, para realização de estudos na área de geologia e botânica.

Atualmente, além de outras parcerias, o IRD está presente na Unicamp, representado pela Dra. Isabel Georges - Socióloga pela Universidade de Paris VIII, com pós-doutorado no CEBRAP. Ela é professora visitante do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e realiza pesquisa patrocinada pelo CNPq em parceira com o instituto francês.

Confira abaixo a programação do IRD dentro do Ano da França no Brasil para o restante de 2009.

• A partir de 15/09/2009. Manaus e Rio Negro (AM). Exposição de fotos itinerante IRD-ISA-IPHAN: A roça e seus caminhos.
• 15-17/09/2009. Curitiba (PR). Participação do IRD no
"Salão TOP Inovação" [ONUDI Paris - IFPE Curitiba]
• 21-25/09/2009. Manaus (AM). Escola do Meio Ambiente IRD-UEA: Sensibilização de alunos franceses e brasileiros ao meio ambiente amazônico.
• 24/09-18/10/2009. Belém (PA). Exposição IRD-MPEG: Kayapo.
• 29-30/09/2009. Rio de Janeiro (RJ). Participação do IRD no Seminário A questão da Biodiversidade [MNHN-Paris - UFRJ]
• 02-08/10/2009. São Paulo (SP). Participação do IRD (estande) na Semana franco-brasileira das forma-
ções superiores e dos ofícios do futuro.
• 15-17/10/2009. Belém (PA). Seminário IRD-MPE: Territórios da Biodiversidade, conhecimentos ecológicos locais e suas novas formas de valorização na Amazônia.
• 16-18/10/2009. Manaus (AM). Exposições IRD-MAEE na UEA: Oceano e clima, trocas para a vida e As geleiras à prova do clima.
• 19-25/10/2009. Brasília (DF). Participação CIRAD-IRD no estande EMBRAPA durante a Semana Nacional da Ciência e da Tecnologia.
• 20-22/10/2009. Rio de Janeiro (RJ). Participação do IRD no Simpósio Os desafios da ciência biomédica no início do século XXI [Instituto Pasteur - FIOCRUZ Rio de Janeiro].
• 26-28/10/2009. Marabá (PA). Simpósio IRD-UFRA-UFPA MPEG: Serviços ecossistêmicos nas paisagens da Amazônia Oriental.
• 28-31/10/2009. Manaus (AM). Colóquio IRD-INPA: Biologia das populações de peixes amazônicos.
• 04-17/11/2009. Manaus e Rio Negro (AM). Encontro itinerante IRD-ISA sobre um barco no Rio Negro: Saberes e sabores, intercâmbios culinários no Rio Negro.
• 11-13/11/2009. Brasília (DF). Participação do IRD no Fórum sobre Ensino Superior e Investigação [MFA].
• 12-13/11/2009. São Paulo (SP). Participação IRD Encontro para uma cooperação franco-brasileira na África e no Caribe [FCI].
• 19-20/11/2009. Brasília (DF).

Seminário IRD-IPHAN: Patrimônio cultural e sistemas agrícolas.

Outras informações e formas de participação com a assessoria de imprensa do IRD no Brasil:

Alice Serié - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Ano da França no Brasil

O Ano da França no Brasil é uma iniciativa do governo dos dois países, com o objetivo de aprofundar as relações bilaterais no âmbito cultural, acadêmico e econômico. Durante os meses de abril e novembro de 2009, serão realizados centenas de eventos em todo o país, como exposições, shows, concertos, ciclos de cine ma, seminários e festivais, além de encontros entre políticos e empresários, e intercâmbios estudantis. Isso dará ao público brasileiro a oportunidade de acompanhar manifestações artísticas da França contemporânea e conhecer mais a fundo a cultura daquele país.

Do mesmo modo, o Ano do Brasil na França, em 2005, mobilizou mais de dois milhões de franceses e obteve um grande retorno midiático, o que gerou um aumento de 27% do afluxo de turistas franceses ao Brasil e mais de 450 milhões de dólares em produtos brasileiros exportados para França.